Debate

Protesto contra Temer reúne mais de 100 mil pessoas em São Paulo; PM responde com violência

por: Tuka Pereira

Neste domingo (04), manifestações contrárias ao governo de Michel Temer aconteceram novamente em diversas cidades do país. Um dos maiores eventos, em São Paulo, na Avenida Paulista, reuniu mais de 100 mil pessoas.Entre os presentes haviam integrantes de movimentos populares e entidades sindicais, mas a maioria avassaladora era de pessoas comuns, sem vínculos, legendas ou integrantes de qualquer tipo de organização: famílias, jovens, crianças, idosos, LGBTs, estudantes e pessoas de diferentes níveis sociais.

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Cantando gritos de ordem contra Temer, a multidão seguiu em ato pacífico até o Largo da Batata, na zona Oeste da cidade, local marcado para a dispersão.

Quando os organizadores declararam o protesto encerrado, a polícia dispersou os manifestantes com bombas de gás e jatos d’água e pegou a todos de surpresa. Os manifestantes entravam na estação do metrô Faria Lima quando a tropa de choque da PM iniciou uma movimentação. Houve pânico e correria, e mais bombas foram lançadas, inclusive dentro de bares da região. Muitas pessoas começaram a passar mal e a tossir em reação ao gás, incluindo idosos e crianças.

Em nota no Twitter, a PM declarou: “Em manifestação inicialmente pacífica, vândalos atuam e obrigam PM a intervir com uso moderado da força / munição química“. Depois, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que “após os organizadores encerrarem a manifestação, houve um princípio de tumulto na Estação Faria Lima do Metrô, que se transformou em depredação“. “Vândalos quebraram catracas, colocando em risco funcionários. A Polícia Militar atuou para restabelecer a ordem pública, sendo recebida a pedradas, intervindo com munição química e utilização de jato d’água“, afirmou o comunicado.

Relatos de pessoas presentes no local lotaram a internet contrariando as declarações da PM e da SSP. Todos garantem que a PM iniciou a repressão sem ter havido nenhum tipo de confronto por parte dos manifestantes.

Aluiz Costa, 59, é contador, nômade digital, e estava no local: “Em resumo: uma manifestação bem popular mesmo, que as forças contrárias tentaram de todo modo impedir sua realização e não conseguiram; foi da concentração até seu final no largo da batata muito bonita e pacifica e apoiada por onde passava por toda a população presente também inconformada com o que está ocorrendo nesse Pais; mas só não contávamos com a armadilha preparada por esses assassinos fardados (porque não dá pra chamar de policia, pois não defende a população como deveria).”

Laura Leal, cientista social, 29 anos, presenciou os abusos policiais e contou: “Dez minutos depois que foi anunciado no alto falante o fim da manifestação começaram as bombas e jato d’água. Milhares de pessoas ainda estavam lá, decidindo como ir embora, encontrando amigos. Eu estava na esquina da Teodoro com a Faria Lima, perto da entrada do metrô, com um grupo de amigos, decidimos cruzar o Largo para ir embora quando veio a primeira bomba. Ficamos sem entender porque daquelas bombas depois de uma ato pacifico. Tentamos subir a Teodoro, mas andamos um pouco e vimos que já tinha muito policial na Teodoro. Na hora entendemos: estamos cercados. Por sorte conseguimos cruzar o largo em um momento sem bombas. A multidão correu desesperada sentido a Rua Fernão Dias, fomos juntos e as bombas vieram atrás. Fomos pra casa de conhecidos ali perto tentando entender o que aconteceu aos som de helicópteros da polícia que só deixaram a região depois de duas horas…”

André Carvalho, jornalista, 33 anos, estava no local e relatou: “A manifestação foi pacífica do começo ao fim, da Paulista até o Largo da Batata. Chegando lá, o Choque estava posicionado com seus ‘caveirões’ no metrô Faria Lima. Muitas famílias, com crianças e idosos estavam no local. Como o protesto foi muito grande, mesmo em seu fim, no Largo, havia ainda muita gente na rua. De repente, vi os PMs marchando de onde estavam para o outra lado da rua, na outra entrada do Metrô. Pensei: ‘vai dar bosta’. E deu. Bombas, muitas bombas começaram a explodir no meio da rua, para dispersar os manifestantes. Não havia, até então, nenhuma depredação. Com o gás invadindo a rua, subi a Teodoro, mas o Choque fechou a rua de cima. Emboscada. Saí pela tangente e na Rua dos Pinheiros, mais bombas. Eles passavam de moto, caveirão e viatura, em alta velocidade nas ruas de Pinheiros. Rostos cobertos. Só me senti segura uma hora depois, quando já estava fora do bairro.”

Guga Szabzon, 29 anos, artista plástica: “Eu fui na manifestação que começou na paulista, descemos a Rebouças junto com milhares de pessoas, estava bonito, totalmente tranquilo. Chegamos no largo da batata e foi anunciado no carro de som o fim da manifestação. Ficamos mais um pouco, um grupo de amigos conversando sobre como é nítido, a diferença da presença da policia nos atos, como é possível juntar tanta gente com o sensação de estar seguro. Resolvemos ir comer algo e fomos andando até o Pitico, restaurante a céu aberto, bem próximo do largo. Chegamos lá, e já estava lotado, tanto de pessoas que tinham saído da manifestação, como de pessoas que nem sabiam porque tinha helicóptero da policia sobrevoando.. Começamos a ouvir bombas, bem perto e muita gente saiu correndo para se proteger, o Pitico ao invés de fechar as portas, abriu o portão e liberou espaço na entrada para caber mais gente. O choque entrou na pequena rua, os portões (que são grades abertas) do Pitico foram fechados, eles pararam na porta e um deles falou: “ ali, ali tem gente, pode jogar”. E soltaram o gás de pimenta para dentro do restaurante, que tinham crianças, gente trabalhando, e tudo. Foi uma cena de guerra, não tinha para onde fugir, não tinha o que dispersar, não tinha confusão, não tinha bandeira, não tinha nada. Foi por maldade mesmo. Foi um ato total de covardia e poder. Uma polícia totalmente despreparada que causa medo e pavor. Agora deu mais vontade de ir na próximas. Vai ser maior!” 

Mariela Mei, 32, escritora e artesã: Foi uma manifestação extremamente pacífica do início, na Av. Paulista, até o fim, no Largo da Batata. Havia pessoas de todas as idades. 100 mil pessoas num grupo extremamente heterogêneo, mas entoando os mesmos versos.
Até que, no Largo da Batata, cinco minutos após o Eduardo Suplicy falar no caminhão de som da organização, o Choque (com seus agentes mascarados) começou a ir para cima dos manifestantes com bombas de efeito moral. O Caveirão começou a andar (antes estava estacionado) e causar terror nos manifestantes. Fecharam o metrô, investiram com violência em idosos e mulheres com crianças. E tudo de graça. Não houve qualquer ato que “justificasse” isso.”

Camila Hungria, 30, jornalista: Foi um dia lindo. Chegamos umas 17h na Paulista, estava cheia. Ficamos um tempo lá só observando o fluxo, a multidão indo. Em pouco tempo os dois lados da paulista estavam tomados de manifestantes. Tinha muita diversidade. Muita criança de colo, no sling, com os pais, idosos, jovens. Tudo muito tranquilo. Descemos a Rebouças para ir ao largo da Batata. Linda manifestação tomando a avenida. Durante todo o percurso fomos acompanhados de pertinho pela polícia. eles lá, nós cá. Os helicópteros também estavam rondando. Chegamos umas 20:30 (não sei exatamente) no largo da batata. Tinha muitia gente. E as pessoas ficaram ali um tempo, e começavam a dispersar. Havia grupos sentados no chão, pessoas conversando. Adultos, crianças, idosos, jovens. De repente, surge um grupo de policiais cruzando a multidão, passaram próximos à saída do metro. Eles andavam em bando, sabe? Enfileirados. Olhamos e pensamos: “Ah, eles devem estar indo para algum lugar, né?”. Alguns segundos depois começa o barulho de bomba. Muitas bombas e as pessoas correndo. A explosão gera pânico, dá medo, as pessoas correm apavoradas. E os helicópteros parados, em cima de nós. Me deu medo deles estarem avisando à polícia por onde os manifestantes fugiam. Corremos pela rua dos pinheiros, muita gente. E os barulhos das bombas nos seguiam. Muitas bombas mesmo. Não olhamos para trás para ver o estrago, mas com certeza houve. Foram muitas bombas… e muita gente assustada correndo. Crianças -de colo, idosos e jovens. Um dia lindo que terminou em muita tristeza e violência. Violência causada APENAS pela polícia.”

Débora Klempous, fotógrafa e videomaker independente comentou em seu facebook:

Esta foi a sétima manifestação contra Temer em uma semana. Numa tentativa de minimizar os protestos contra ele, o peemedebista, que está na China para a cúpula do G20, declarou no sábado (3) que são grupos “inexpressivos” e “mínimos” que quebram carros.

São pequenos grupos, parece que são grupos mínimos, né? (…) Não tenho numericamente, mas são 40, 50, cem pessoas, nada mais do que isso. Agora, no conjunto de 204 milhões de brasileiros, acho que isso é inexpressivo. O que preocupa, isto sim, é que confunde o direito à manifestação com o direito à depredação“, disse durante uma conversa com jornalistas.

Próximo protesto contra Temer

Na próxima quarta-feira (7), Dia da Independência, acontece em São Paulo, na Praça da Sé, o Grito dos Excluídos. Já na quinta-feira (8), as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo organizam mais um grande ato na cidade, no Largo da Batata.

Imagens: Mídia Ninja; Vídeo: Jornalistas Livres

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Tuka Pereira
Jornalista há mais de uma década e 'escrevinhadora' há muito mais tempo, Tuka Pereira aborda feminismo a gatinhos fofos com a mesma empolgação. Se existe algo que gosta mais do que escrever é carimbar o passaporte. Já esteve em boa parte do mundo e todo dinheiro que ganha gasta em viagens.

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