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Uma viagem no deserto: Três dias no maior festival de Rock n’ Roll do século

por: Redação Hypeness

Há seis meses, em uma das zapeadas pelo Facebook, uma postagem de um amigo, daqueles que sempre sabe das novidades antes de todo mundo, chamou minha atenção. A silhueta de uma montanha cercada de palmeiras era o desenho de fundo de um flyer que anunciava um line up de deixar em êxtase qualquer fã do bom e velho rock n’roll: Uma promessa de 3 dias embalados ao som dos maiores titãs da música: Rolling Stones, Paul McCartney, Neil Young, Bob Dylan, Roger Waters e The Who.

“Line up dos sonhos” dizia a postagem dele. Dos sonhos mesmo, afinal, seria possível alguém conseguir reunir em um único evento tanta gente fera?

Difícil de acreditar, tanto que eu demorei algumas horas para convencer meu marido sobre a veracidade daquele post. “É fake isso aí, desencana”, ele disse. O Flyer anunciava o nome “Desert Trip” e eu corri para o Google atrás de informações que pudessem confirmar que aquela reunião musical de fato ia acontecer. As informações de um site com as mesmas cores do flyer do evento diminuíram um pouco a nossa desconfiança, mas foram as próprias palavras de Mick Jagger numa postagem do Facebook que nos confirmaram que o maior festival de Rock n’ Roll do século estava prestes a acontecer: “See you in the desert, folks”.

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Estávamos com uma viagem programada para a Ásia no mesmo mês em que aconteceria o festival. Então, por que não reorganizar o roteiro e agendar a nossa saída pelos Estados Unidos? Todas as notificações possíveis foram agendadas para nos alertarem horas antes sobre as vendas que começariam pelo site.

Poucas horas antes das vendas começarem, estávamos em uma estrada em Cajon del Maipo, no Chile, com um sinal que oscilava a cada passo que dávamos. Arriscávamos e tentávamos chegar na próxima cidade ou parávamos por ali mesmo onde o sinal, ainda que fraco, estava estável? Resolvemos montar acampamento em um restaurante de estrada e foi no computador da dona do estabelecimento que tomamos o nosso lugar na fila virtual. Depois de meia hora, com os dedos cruzados torcendo para o sinal segurasse firme, recebemos a confirmação por e-mail de que o nosso lugar no maior festival de Rock n’Roll dos últimos tempos estava confirmada.

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A segunda versão do Woodstock, Oldchella, o festival prometia muito. E cumpriu todas as promessas.

Há uma semana desembarcamos na quente e seca cidade de Indio, na California, morada de um dos maiores festivais do mundo, o Coachella, local que também abrigou o Desert Trip.

Quando pensamos em festivais e shows de Rock é normal que tenhamos algumas imagens estereotipadas em nossas cabeças: uma energia entusiasmada e rebelde no ar, fãs apaixonados grudados na grade que os separa do palco, um certo perregue para conseguir se alimentar e ir ao banheiro. Eu, fã convicta do Woodstock, sempre associo o rock n’roll à imagens de um livro de fotografia do festival de 69 que ficava na mesa de centro da minha sala: jovens sujos de lama, meninas com flores na cabeça e barracas precariamente amontoadas na área de camping.

O Desert Trip quebrou todos os meus paradigmas sobre um festival de Rock. As barracas foram substituídas por Motorhomes, confortavelmente equipados com camas e chuveiros. Aqueles que já foram jovens sujos de lama amontoados na grade, hoje têm a mesma faixa etária dos anfritriões musicais e assistem ao show confortavelmente em suas cadeiras dobráveis. Banheiros limpos e impecáveis, com papel higiênico, água e até álcool em gel. Inúmeras praças de alimentação ofereciam de junk food à comida vegana. E ninguém ficaria sem filmar ou fotografar pois havia locais de recarga de celular espalhados por todos os cantos.

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E o palco? Não importa de onde você escolhesse ver o festival, a qualidade de som e imagem estariam te acompanhando, seja pelos 3 telões gigantes principais, seja pelos telões menores espalhados por todo espaço, seja pelas incontáveis e potentes caixas que reproduziam um som cristalino e perfeitamente equalizado.

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Agora engana-se você se acha que o conforto e a estrutura descaracterizaram a aura de um festival de Rock n’ Roll. Os verdadeiros fãs, que tinham entre 8 meses (sim, aconchegado confortavelmente no sling da mãe) e 80 anos, vibravam a cada clássico, mostrando porque o Rock n’ Roll é e sempre será mais do que apenas um estilo musical.

Com um entardecer perfeito que pintava as montanhas desérticas de amarelo e tornava evidente a silhueta das palmeiras no céu, Bob Dylan abriu com maestria o festival. Elegante define seu show. Em estilo acústico, 100% folk, com uma fotografia de tirar o fôlego, Dylan pode ter deixado alguns fãs na mão por não tocar “Blowing in the wind” ou “Like a Rolling Stone”, mas provou por que merecia abrir o Desert Trip.

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Mick Jagger e sua trupe fecharam a primeria noite com um show que seguiu o padrão de qualidade Rolling Stones. Quem já foi à um show dos Stones sabe que você vai pular o show inteiro, vai cantar os clássicos até perder a voz e sair extasiado, feliz e satisfeito. I know, it’s only rock n’roll, but I like it.

Na segunda noite, um público visivelmente mais jovem que no primeiro dia desfilava pelo festival de botas e chapéus ou com vestidos e camisetas psicodélicas que faziam alusão à fase mais piração dos Beatles.

Neil Young era, entre todos os músicos, aquele que eu menos tinha familiaridade com o som e foi, para mim, o maior presente do festival. Se você me perguntar qual foi o show que eu mais gostei, digo e repito Young sem pestanejar, que abriu o segundo dia com a maravilhosa After the Gold Rush e fez todo mundo se arrepiar dos pés a cabeça, ao som de um órgão de tubos. Um show presente e com alma, que arrancou algumas lágrimas dessa pessoa que vos escreve. Um artista e uma banda visivelmente felizes por estarem lá vivendo aquele momento com a gente. E claro, ele fechou o show com a deliciosa Rockin’in the free world, que infelizmente eu acompanhei da fila do banheiro, pois não tava dando mais para segurar depois de alguns copos de cerveja.

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O show do Paul era o mais aguardado do festival. Minutos antes do show começar, absolutamente todo o público do Desert Trip estava de pé esperando para saber quais clássicos dos Beatles seriam entoados durante aquela noite. Com o humor britânico afiadissímo de sempre, Paul brincou que quando tocava as clássicas dos Beatles, a plateia parecia uma constelação (referindo-se às luzes do celulares) e em contrapartida, ao tocar músicas da sua carreira solo, a plateia parecia um buraco negro. De fato, “Hey Jude”, “Day Tripper” e “Let it be” foram cantadas a plenos pulmões.

No terceiro dia, chegamos mais cedo para curtir um pouco a energia do festival. Um festival, qualquer festival, seja de rock ou de outro estilo musical, é muito mais do que apenas uma série de shows. Um festival tem uma aura própria. As pessoas vestem-se para aquela ocasião. Pintam-se para aquela ocasião. Tornam-se curiosamente mais gentis e amigáveis. Você troca ideia na fila da cerveja, na fila da comida, na fila do banheiro. Andamos por todo o espaço, visitamos um pavilhão com a maior exposição de fotografias do Rock n’ Roll e sentamos embaixo de uma árvore para receber a brisa quente do deserto e apreciar as peças raras que desfilavam no descampado.

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Nos posicionamos para o show mais aguardado por nós: The Who. Eu e o Bruno, meu marido, somos super fãs do The Who e durante o show inteiro comentávamos que nunca em nossas vidas achávamos que aquele momento pudesse acontecer. The Who é puro rock n’roll e provou isso em um show absurdamente energético, que fez a galera vibrar do começo ao fim com clássicos como Sparks, The kids are alright, My generation e claro, Baba O’ Riley.

Roger Waters entrou majestoso para o último show do festival. O Pink Floyd sempre foi responsável por muitas viagens graças ao bom uso de recursos sonoros e visuais inovadores. No Desert Trip, o maior festival de Rock n’ Roll do século, não podia ser diferente. Waters usou todos os recursos disponíveis na mágica estrutura do Coachella Valley. Sons 3D, recursos visuais que transformaram o palco na fábrica Battersea Power Station retratada na capa do disco Animals, luzes que transformavam a platéia em um imenso mar vermelho, azul e verde e claro, objetos voadores como o famoso porco sempre presente nos shows do albúm The Wall.

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Dessa vez o porco veio trazendo uma mensagem ainda mais importante. Com a frase “Together we stand. Divided we fall” (Juntos nos fortalecemos. Divididos nós caímos) o porco voou sobre a plateia enquanto no telão eram exibidas imagens do Donald Trump seguidas por centenas de frases racistas, sexitas e misóginas ditas pelo candidato à presidência dos Estados Unidos. Crianças mexicanas engrossavam o coro de “Another brick in the Wall”, vestindo camisetas que diziam “Derriba el muro” (Derrube o muro). A música termina com uma frase gigante no telão: “Trump is a pig” (Trump é um porco). A plateia vai a loucura. Uma minoria faz cara feia, visivelmente desconfortável com o protesto.

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A noite termina com uma cascata de fogos orquestrada pela maravilhosa Confortably Numb.

Cansados e felizes nos juntamos a multidão que se amontoava para pegar os ônibus de volta para os hotéis. What a trip!

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Larissa Mungai é co-fundadora do Moporã, uma plataforma online de educação para vida, e é nômade digital. Sem residência fixa, ela e seu marido estão há mais de 2 anos viajando e trabalhando pelo mundo.

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