Arte

Festival aposta em velhos coretos para levar música nova aos quatro cantos do Rio

por: Gabo Vieira

Quem vive no Rio de Janeiro sabe que a concentração dos programas culturais na cidade é gritante. Embora represente uma pequena parcela da metrópole, o eixo Centro-Zona Sul acostumou-se a receber a imensa maioria dos espetáculos em cartaz. E é com o intuito de descentralizar essa produção que o Festival Circuladô encontra a partir deste sábado um novo velho abrigo para a música carioca: os coretos.

As simpáticas construções vitorianas passaram a ocupar praças e parques públicos do Rio no início do século passado. A ideia era exatamente funcionar como refúgio para a cultura popular, servindo de ponto de encontro para artistas de bairros que não contavam com teatros ou cinemas. Os anos passaram, a cidade se transformou e os coretos acabaram caindo no ostracismo.

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Mas o espaço urbano está sempre sujeito a reinvenções. Procurando formas de fazer a música carioca contemporânea circular para fora do ninho tradicional, a produtora Julianna Sá teve a grande sacada. Resgatando a antiga vocação dos coretos, montou um festival itinerante que proporciona o primeiro encontro de novos artistas com bairros de “fora do eixo”: Gamboa, Paquetá, São Cristóvão, Méier, Quintino, Marechal Hermes, Praça Seca, Realengo, Sepetiba e Vigário Geral. Nascia assim o Circuladô.

O resultado dessa bem-vinda expansão começa a ser saboreado nesse sábado, dia 5, quando o Mohandas bota a Praça da Harmonia para dançar, e segue até o fim de novembro. A curadoria, assinada por Julianna em parceria com Philippe Baptiste, foi cuidadosamente planejada. Artistas como Ava Rocha, Mahmundi e Letuce irão se apresentar em espaços que dialogam com o estilo e o astral de cada um.

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Coreto de São Cristóvão

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Mahmundi se apresenta em Marechal Hermes

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Coreto de Realengo

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Mãeana se apresenta em Sepetiba

Cada show do Circuladô será um experimento, uma troca entre músicos de primeira e uma cidade com potencialidades infinitas. Trata-se, afinal, do “remapeamento afetivo da música carioca” – é o que declara o próprio evento do festival no Facebook. Aproveite para confirmar presença e curtir de graça esses encontros que prometem demais!

Confira abaixo a programação do Festival Circuladô e um bate-papo da produtora Julianna Sá com o Hypeness.

05/11 (sáb) MOHANDAS – Coreto da Gamboa (Praça da Harmonia)

06/11 (dom) PIETÁ – Coreto do Campo de São Cristóvão

12/11 (sáb) MAHMUNDI – Coreto de Marechal Hermes (Praça XV de Novembro)

13/11 (dom) ÁLVARO LANCELLOTTI – Coreto de Quintino (Praça de Quintino Bocaiúva)

18/11 (sex) BRUNNO MONTEIRO – Coreto de Realengo (Praça do Canhão)

19/11 (sáb) MÃEANA – Coreto de Sepetiba (Praça Washington Luiz)

20/11 (dom) ZOLA STAR – Coreto de Vigário Geral (Praça Catolé do Rocha)

25/11 (sex) QINHO – Coreto da Praça Seca (Praça Bara~o da Taquara)

26/11 (sáb) AVA ROCHA – Coreto do Méier (Jardim do Méier)

27/11 (dom) LETUCE – Coreto de Paquetá (Praça São Roque)

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Coreto de Paquetá

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Mohandas abre o festival na Praça da Harmonia

Hypeness – Por que a escolha dos coretos?

Julianna Sá – Objetivamente falando, os coretos tiveram uma função cultural muito importante no Rio do início do século passado. Eles foram instalados no Brasil com a ideia de popularizar o acesso à cultura, democratizar esse acesso. Tirar a música, principalmente, dos espaços fechados, dos teatros e colocá-la na praça, ao lado do povo. A maioria dos bairros onde a gente vai fazer esse projeto tem essa característica. Subjetivamente, eu diria que ele remete a uma cidade mais íntima, mais pessoal, mais próxima. Todo lugar que tem um coreto no Rio tem um pouco uma paisagem de cidade do interior. Por exemplo, você sai do caos ali da Presidente Vargas e cai na Praça da Harmonia e de repente parece que você está em um outro mundo. Os coretos têm uma característica de afeto muito forte, de trazer as pessoas mais para perto.

H – Qual a importância de descentralizar a cena cultural do Rio?

JS – Eu diria que viver uma cena cultural mais ampla tem a ver com viver uma cidade mais verdadeira. A gente não costuma viver a cidade dentro da sua dimensão, dentro da sua potência. E ao mesmo tempo tem a ver com a vitalidade cultural da cidade. Se uma determinada cena, como essa por exemplo, que está sendo trabalhada no projeto, fica restrita a um pequeno núcleo da cidade, ela sufoca. É um gargalo que a gente precisa romper. É muito doido pensar que vários desses artistas nunca passaram do centro da cidade. A Mahmundi, por exemplo, vai se apresentar no MECA com Caetano e companhia, já tocou no México, e de repente nunca tocou na Zona Norte do Rio. E não acho que isso seja culpa dos artistas, mas de um circuito que a gente consagrou, muito com a ajuda dos jornais, de pensar a cidade culturalmente como se as manifestações estivessem concentradas aqui. Não estão. As manifestações culturais já bombam em todos os lugares. O que o projeto faz não é levar cultura a esses lugares, mas fazer circular um determinado nicho que não circula.

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Foto ©Marina Andrade

H – Como foi montar a programação, houve uma lógica na escolha dos artistas?

JS – Foi uma lógica não muito objetiva. Tem a ver com uma percepção mais delicada que eu e Phillipe (Baptiste, curador do evento) temos a respeito tanto dos lugares quanto dos artistas. O Mohandas vai tocar na Praça da Harmonia, um espaço de manifestações muito fortes durante o Carnaval, de muita festa, dança. Então a gente achou que o Mohandas, que coloca as pessoas para dançar, atendia melhor a isso. O Pietá vai tocar em São Cristóvão, que é um bairro que vive muito a música tradicional nordestina. E o Pietá dialoga com essa música regional, só que de uma forma contemporânea. A Ava Rocha vai tocar no Méier um pouco por uma percepção de ser um bairro meio centro da cidade, meio coração urbano do Rio. Realengo tem uma tradição de eventos de rock, então a gente levou o Brunno Monteiro para lá. Em Sepetiba já foi um negócio mais subjetivo. Quem vai tocar lá é a Mãe Ana, uma artista que tem um trabalho muito delicado, quase idílico, e o coreto de Sepetiba fica em frente à baía, onde só tem água e garças, um clima muito diferente da cidade. O Qinho vai tocar na Praça Seca, num coreto que é cercado de colégios e ele tem esse pop eletrônico que comunica muito com uma garotada que circula por ali. O Zola é um artista angolano, que trabalha com influências africanas na música, e vai tocar no Dia da Consciência Negra em Vigário Geral, que é onde se consolidou o Afroreggae. E por aí vai.

H – Há muita riqueza musical na cena representada por esses artistas, uma boa penetração em um determinado nicho… mas falta justamente essa expansão para outro tipo de público, não? É uma impressão, mas pode discordar à vontade.

JS – Não discordo, não, acho que está certíssimo. Existe uma cena musical muito forte, uma diversidade musical enorme, são artistas com perfis muito diferentes. Mas uma penetração muito limitada a um circuito. Falta essa expansão, falta conseguir chegar em outros lugares, outras pessoas. Ninguém ali faz música experimental cabeçuda, difícil. Não, o que tem ali é uma canção que é feita hoje. Não é anos 50 ou 60, é 2010. E é música pop no sentido de popular mesmo. Tem um potencial de comunicação enorme e precisa chegar. A gente acha que esse é um primeiro “oi”, um primeiro contato.

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