Inovação

Ele quer construir uma casa de cultura e acolhimento LGBT no centro de São Paulo

Mari Dutra - 01/11/2016 às 09:37 | Atualizada em 26/01/2017 às 13:11

UPDATE: A campanha de crowdfunding foi um sucesso e arrecadou um total de R$ 112 mil para construção da Casa 1. Graças a isso, ela foi inaugurada nesta quarta-feira, 25, no bairro Bela Vista, em São Paulo. O espaço já abre com cinco residentes e terá espaço para um total de 20 pessoas, que receberão moradia e alimentação durante o período de três meses, tempo em que os voluntários do projeto buscarão ajudar os moradores de acordo com as necessidades individuais de cada um. Nessa publicação, eles explicam como funciona o processo de acolhimento.

Em 2015, ele abriu as portas do próprio apartamento para receber pessoas LGBT que haviam sido expulsas de casa. Os pedidos foram tantos que Iran Giusti percebeu que poderia fazer algo ainda maior para ajudar essas pessoas. A sementinha para o nascimento da Casa 1 estava plantada.

Embora ainda seja apenas um projeto, a Casa 1 pretende ser um espaço para o acolhimento e a cultura LGBT localizado no centro de São Paulo. A ideia é oferecer um teto para pessoas que foram expulsas de casa por sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas não só isso. O espaço também irá abrigar palestras, cursos e workshops sobre diversos temas.

E, para que ele saia do papel, uma campanha de financiamento coletivo através da plataforma Benfeitoria está buscando contribuições para custear o primeiro ano de aluguel e IPTU da casa, que deverá funcionar de maneira autossustentável, com as próprias atividades ajudando a financiar a manutenção do espaço.

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Fomos conversar com o Iran para conhecer mais sobre esse projeto incrível.

Como surgiu a ideia de criar uma casa voltada para a cultura e o acolhimento LGBT?

Tem uns 10 anos que sou militante LGBT, e profissionalmente, independente de onde eu estivesse eu tentava levar as pautas e demandas do movimento. No começo do ano eu coloquei meu sofá no AirbnB e percebi que mesmo tendo pouco espaço receber pessoas não era um incomodo.

Foi então que eu pensei: por que não oferecer esse sofá para quem precisa? Diante dos dados e dos relatos constantes, resolvi abrir o espaço para quem foi expulso de casa por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Como a procura foi super alta, acabei colocando na cabeça que precisava de uma casa para receber mais gente, e assim nasceu o projeto. A parte do centro cultural é primeiro para termos um espaço de socialização dos moradores e também de empoderamento, de orgulho da nossa comunidade.

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E você chegou a receber muita gente na sua própria casa? Como foi essa experiência?

Eu recebi duas pessoas e foi ótimo, mesmo. O grande lance é que as pessoas imaginam o acolhimento como um assistencialismo ou então um processo de cuidar do outro mas na real é basicamente ter uma outra pessoa morando junto.

A casa também vai funcionar nesse esquema. Eu tenho dito pras pessoas que a Casa 1 está mais para uma república do que para um centro de acolhimento.

Legal! E a casa também vai servir como um centro cultural oferecendo cursos, palestras e workshops. Que impacto você acredita que essa iniciativa possa gerar em relação à conscientização da causa LGBT?

Eu acredito muito que a LGBTfobia é fruto de muitas coisas, e em geral são todas muito estruturais e enraizadas como machismo e sexismo, mas existe também a questão do desconhecimento, do medo. A ideia de termos um centro cultural completamente aberto e livre para quem quiser, na região central da cidade, é a gente conviver, dialogar, fazer parte, sempre mostrando que sim, somos diferentes, todo mundo é diferente, isso não quer dizer que devemos ser tratados de forma desigual.

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E, como você é jornalista, muitos dos cursos são voltados para falar sobre comunicação e diversidade. Qual papel você acha que a mídia desempenha ou deveria desempenhar na conscientização sobre temáticas LGBT?

Eu acho que não só o jornalismo tem papel essencial nos direitos humanos, como também a publicidade. Sabe, durante muito tempo a gente foi ensinado de que a comunicação deve ser imparcial, isenta, distante e isso não faz o menor sentido. Conteúdo sempre é feito por pessoas e para pessoas, então tudo que está nesse conteúdo vai ter um efeito em alguém e é um absurdo que tenhamos ignorado isso por décadas. O que importa no conteúdo não é a imparcialidade, é a honestidade: linhas editoriais claras, posicionamentos coesos, nunca uma história vai poder ser contada por todos os lados porque eles são infinitos, o que tem que ser feito é ter o máximo de lados possíveis e a honestidade em deixar claro quais são esses lados.

Quando falamos sobre direitos humanos, direitos LGBTs não é uma questão de lados ou de posicionamentos, é uma questão do que é certo e errado. Imprensa e publicidade por décadas reverberaram machismo, misoginia e racismo e ao passo que a gente avança como militância não pode ter mais espaço para essas coisas. Por que o mesmo não acontece como o movimento LGBT?

Hoje as pessoas acham normal dizer “você pode não gostar de gays mas tem que respeitar”. Isso é absurdo, olha como seria horrível se você falasse isso sobre as mulheres, os negros, dos indígenas ou qualquer outra minoria.

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Quantas pessoas a Casa 1 pretende abrigar caso atinja a meta mínima do projeto de financiamento coletivo e como deverá ser a estrutura para o acolhimento de pessoas no espaço?

Atingindo a meta mínima nós teremos inicialmente espaço para 8 moradores. A ideia é que a casa funcione realmente como uma república então quem estiver lá vai dividir os quartos. O acolhimento vai ser feito durante a recepção dessas pessoas e ao passo que forem se estabelecendo entenderemos suas dinâmicas e buscaremos voluntários para auxiliá-las.

Não vamos ter uma estrutura pública ou engessada, a ideia é ir adaptando conforme as necessidades dos moradores e moradoras e ir ajudando conforme for possível. 

Você também pode contribuir para que a Casa 1 saia do papel fazendo sua contribuição aqui. Cada valor investido dará direito a uma recompensa assim que a casa entrar em funcionamento: quem doar R$ 20 irá ter seu nome estampado na casa, enquanto doações a partir de R$ 40 garantem um lugar em um dos wokshops, cursos ou palestras que irão rolar no espaço.

Para saber mais sobre o projeto, confira também o vídeo de apresentação da iniciativa:

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Todas as imagens: Divulgação

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Mari Dutra
Criadora do Quase Nômade, contadora de histórias, minimalista e confusa por natureza, com os dois pés (e um pet) no mundo. Chega mais perto no Instagram.

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