Roteiro Hypeness

Fomos a Dublin conhecer uma exposição sobre design que vai fazer você pensar sobre o que é violência

por: Mari Dutra

O que é violência e como ela se manifesta? Essa é uma das primeiras perguntas que saltou aos meus olhos quando entrei na Science Gallery da Trinity College, em Dublin, para ver a mostra Design e Violência, realizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de Nova York, que explora como o design pode ser usado para causar danos quando cai em mãos erradas.

Logo na entrada da sala de exposição, me deparei com uma cadeira completamente amassada, a Do Hit Chair. O objeto foi vendido na forma de um bloco de metal junto com um martelo para que os compradores pudessem martelá-lo na forma de uma cadeira. Quem preferisse, poderia comprar uma já batida, como a da foto abaixo, pelo dobro do preço.

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Mas embora alguns dos itens da mostra deixem clara a relação entre o design e a violência, como uma AK-47 exposta no local ou uma instalação que compila diversas cenas de perseguição e agressividade encontradas em desenhos do Looney Tunes, em outros casos essa linha é bem mais tênue. Um exemplo disso é uma dupla de fotografias que mostra, lado a lado, um homem branco e um negro usando o mesmo Band-Aid, no mesmo lugar do rosto. Enquanto no homem branco o curativo praticamente não aparece, ele ganha destaque na pele negra, mostrando que a violência simbólica pode estar em objetos tão simples e cotidianos quanto este.

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As obras Blockchain e Bitcoin Miner, em compensação, nos lembram sobre a opressão exercida por nosso sistema financeiro e como a moeda virtual Bitcoin pretendeu ser um meio de fugir deste sistema financeiro centralizado, em que todas as transações são rastreadas por instituições. Porém, se em princípio a moeda virtual era usada justamente para evitar a violência financeira por trás de grandes corporações, ela acabou também sendo usada para diversas atividades ilícitas, mostrando que mesmo o design que é pensado para combater a violência pode também gerá-la.

Até mesmo o mobiliário urbano pode nos surpreender ao mostrar sua faceta violenta. Todos já estamos acostumados a ver calçadas cobertas de “espinhos” contra moradores de rua – e eles também marcaram presença na mostra.

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Mas o mais impressionante nesse sentido foi o Camden Bench, um banco criado para “resistir a comportamentos criminosos e antissociais“. Todos os detalhes do móvel parecem ter sido pensados justamente para evitar esse tipo de violência: sua superfície o torna desagradável para dormir; ele não possui nenhum orifício que possa ser usado para esconder drogas, evitando o tráfico;  cavidades sob a área das pernas podem ser usadas para armazenas pertences pessoais de quem estiver sentado no banco, gerando mais segurança; e o banco é desenhado para precisar do mínimo de limpeza e manutenção possível.

Com tanta atenção aos detalhes, o banco ganhou diversos prêmios de design, mas também foi alvo de críticas. Afinal, este tipo de combate à violência não acabaria gerando justamente mais violência, ao marginalizar e discriminar ainda mais os moradores de rua?

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O controverso banco não foi o único artefato irônico presente na mostra, que também trouxe uma “munição verde”, pensada para gerar menos danos ao meio ambiente. A preocupação não é igual na hora de poupar vidas, já que as balas previam o uso em humanos ou caças. Outro dispositivo prevê a criação de uma arma de plástico criada inteiramente com uma impressora 3D e capaz de atirar apenas uma única bala.

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No segundo andar da mostra, uma área interativa pede que os visitantes escrevam sobre objetos que os assustam, enquanto outra sala é dedicada à reprodução de instalações interativas, como uma obra em que os participantes podem entrar na pele de um refugiado para acompanhar parte de sua saga em busca de uma nova vida, enquanto lembram a violência sofrida por quem precisa deixar seu país para começar de novo.

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Independente de para onde se olhe, cada espaço da mostra lembra que a violência pode estar onde menos imaginamos. Se ela se manifesta numa cadeira, num curativo ou numa bomba faz apenas com que percebamos com mais clareza o conteúdo agressivo de cada objeto – e é justamente isso que a exposição nos convida a repensar.

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Todas as fotos © Mariana Dutra

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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