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Mostra em SP desvenda a surpreendente anatomia das obras de Antoni Gaudí por meio de maquetes

por: Brunella Nunes

Você já deve ter visto de perto ou ao menos ouviu falar sobre a Casa Batlló ou a monumental igreja Sagrada Família, ambas em Barcelona. Tais obras arquitetônicas que fizeram e ainda fazem história por sua genialidade e originalidade são fruto de Antoni Gaudí, um catalão que desenvolveu seu próprio estilo para criar obras primas surpreendentes. Conhecido por métodos inovadores e por não ser fã de linhas retas, o arquiteto tem maquetes e fotografias de suas criações expostas no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde é possível ver cada curva de sua imaginação.

Chamada de Gaudí: Barcelona, 1900, a mostra reúne 46 maquetes, quatro delas em escalas monumentais, e 25 peças entre objetos e mobiliário criados pelo mestre, vindas dos acervos do  Museu Nacional de Arte da Catalunha, do Museu do Templo Expiatório da Sagrada Família e da Fundação Catalunya-La Pedrera. Além delas, complementam a mostra cerca de 40 trabalhos de outros artistas e artesãos, como Ramón Casas e Santiago Rusiñol, que compunham a cena modernista catalã do início do século 20.

Gaudí era um cara de muitos talentos. Além de arquiteto, dominava cerâmica, vitral, marcenaria e ferro forjado. Assim se vê maçanetas de metal, portas, azulejo e outras peças desenvolvidas por ele. Sua afinidade e senso para o naturalismo é predominante em cada detalhe do que já construiu. Embora fosse um racionalista, foi usando elementos lúdicos, quase que infantis, que conseguiu espalhar por Barcelona obras cheias de pequenos segredos e simbolismos. O Parque Güell é coroado com ondas sinuosas que representam o dorso de serpente em um de seus topos, pavilhões inspirados no conto de “Hansel e Gretel”, decorações que lembram cogumelos e uma escultura de salamandra, constantemente confundida com um dragão, coberta de mosaicos coloridos. Mas a espinha de um dragão aparece mesmo de forma simbólica no topo da Casa Milá e sua textura tambem marca o telhado da Casa Battló. 

Maquete de volume da Casa Milá

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Casa Battló, muito mais pálida do que a versão original

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Para entender suas obras é preciso de tempo, atenção, olho clínico. Um exemplo de como sua mente funcionava está no projeto da criação da Cripta da Colónia Güell. O arquiteto desenhava a planta e pregava um barbante em dois de seus pontos. O cordão pendurado formava um arco, uma catenária. Pequenos saquinhos com chumbo eram colocados para corresponder ao peso que um determinado ponto do arco receberia, por compressão. Isso ia deformando a catenária original até que se chegasse a um arco funicular, a forma final. Depois de completar todas as linhas estruturais do edifício com cordões, preenchia com telas os espaços restantes para obter a textura definitiva da obra. Assim que a planta estava concluída, tirava uma foto do que ficou pendurado e invertia a fotografia para chegar à forma final da construção.  

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Com sua arquitetura de forma orgânica, baseada na observação da natureza e do ser humano, Gaudí conseguiu fincar raízes tão fortes em Barcelona que seus fundamentos não só influenciaram uma geração de artistas e artesãos, como também se tornaram a base cultural e turística da cidade. A harmonia com o meio ambiente está presente não só na maneira como concebia suas obras, como em cada curva das colunas planejadas por ele, nunca “perfeitas”. Segundo o próprio Gaudí, “a linha reta é uma invenção do homem. A natureza não nos apresenta nenhum objeto monotonamente uniforme”. Esse propósito foi levado tão a sério que não por acaso ele passou 31 anos se dedicando à sua maior obra, ainda que interminada: o Templo Expiatório Sagrada Família, que foi montada como um uma montanha por fora e um bosque por dentro, onde repousam os deuses.

Na exposição podemos conhecer de perto as características desta estrutura matemática majestosa, passando por suas colunas, ornamentos, naves e até mesmo debaixo de sua cúpula enquanto se caminha pelo Tomie Ohtake. A igreja, de elementos góticos e gregos, é formada por quatro superfícies distintas: a helicóide, a hiperbolóide, a conóide e parabolóide hiperbólica. Traduzindo esses palavrões todos, significa que formas geométricas tridimensionais semelhantes a molas, cones e selas (ou uma batata Pringles) são o conjunto dessa obra-prima louca. Aliás, para quem faltou às aulas de geometria (oi!) é um sacrifício entender os termos, embora estejam expostos de maneira mecânica e metálica na mostra.

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Foto: divulgação

Uma parabolóide hiperbólica é baseada exatamente na ideia de que existem superfícies curvas geradas por linhas retas que não podem ser desenvolvidas sobre um plano. É aí que a magia de Gaudí se faz e acontece. Engenhoso e inovador, seu controle sob estruturas é quase que proveniente de uma força mutante. Basicamente, conseguiu fazer com que o concreto “dançasse” em termos de forma e geometria. E a gente entra nessa dança sem saber aonde vai dar e sai apaixonado.

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Estrutura mecânica mostra o conceito de parabolóide hiperbólica

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Como se fez o telhado das escolas da Sagrada Família com projeção digital e maquete

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Pátio do Tomie Ohtake também ganhou estruturas

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Outros artistas na mostra

Joaquim Vayreda

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Concordi González

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Santiago Rusiñol

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Ricard Canals

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Ramón Casas

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Exposição Gaudí: Barcelona, 1900 @ Instituto Tomie Ohtake | De 20.11 a 05.02.17

Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés 88) – Pinheiros SP
Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – amarela
Tel: (11) 2245.1900

Horários: de terça a domingo, das 11h às 20h

Ingressos: R$12,00 e R$6,00 (meia-entrada) disponíveis no site www.ingresse.com e na bilheteria.

Gratuidade para crianças até 10 anos, cadeirantes e deficientes físicos todos os dias e às terças-feiras para o público em geral, mediante retirada de senhas no local.

Todas as fotos © Brunella Nunes

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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