Roteiro Hypeness

Corremos São Paulo em busca das melhores cervejas feitas com frutas; e isso foi o que descobrimos

por: Brunella Nunes

Como toda boa mãe, a minha não se cansava de me dar o típico conselho materno que, até certa idade, ninguém quer saber e ainda torce o nariz: “filha, come uma fruta”. Pois bem, eu cresci (não muito) e enfim posso sentir que sou motivo de orgulho para ela, porque olha, se tem uma coisa que não tem faltado na minha rígida dieta alimentar são as frutas. Só que na cerveja.

Posso dizer que fui, também, uma boa estudante e pesquisadora, já que passei o último fim de semana de bar em bar, provando o melhor do néctar somado ao pão líquido de cada dia. Tem coisa melhor? Em dias com aquele calor brasileiro básico, fiz um Roteiro Hypeness, na verdade uma saga em busca das melhores cervejas feitas com frutas em São Paulo.

O mercado cervejeiro despontou absurdamente nos últimos anos, brotando em nós uma cultura para além da boa e velha Pilsen. Ainda somos caçulas nesse assunto em comparação com outros países, mas o potencial é gigantesco e o crescimento é progressivo. O que era apenas uma paixão nacional se tornou fonte de renda, empreendedorismo, inovação e muita, mas muita criatividade. A coisa desibernou de uma forma que hoje é quase impossível não encontrar um sabor de cerveja com um de seus ingredientes favoritos. Tem até de bacon!

A produção artesanal, feita em casa ou pequenas fábricas, ainda não se destaca no meio disso tudo mesmo que exista também um movimento forte por essa busca. Cervejas especiais ainda ficam só com 1% do mercado, embora a sede pelo novo tenha se acentuado. Dentro dessa fatia estão as Fruit Beers, nosso foco neste post, que sempre levam adição de frutas em sua composição, sendo ressaltadas no aroma e sabor. Ou seja, ela tem uma base que determina o estilo da cerveja, somada à fruta. É diferente de uma Lambic, que tem fermentação espontânea, pouco ou nenhum processo industrial, e maturação em barricas de madeira que podem ou não conter frutas. Seriam as chamadas frutadas.

A minha primeira parada foi num dos melhores endereços para cervejeiros da cidade, o Empório Alto dos Pinheiros, chamado carinhosamente de EAP. O lugar tem “apenas” TRINTA E DUAS torneiras de choppe somadas à 750 rótulos de cerveja, além de cidras, vinhos, cachaças e single malts. Perceba que eles realmente não estão pra brincadeira. Pelas prateleiras comecei pacientemente minha missão e avistei cervejas com morango, blueberry, framboesa, frutas vermelhas, taperebá, açaí, umbu, raspas de laranja… enfim, encontrei mais coisa do que eu poderia imaginar.

Eu sou daquelas trouxianes que compra alguma coisa pelo rótulo bonito, mas tentei não me seduzir por essa ideia, até porque cervejas artesanais conseguem ter os desenhos mais legais da vida em suas garrafas. Tendo essa pequena consciência, procurei bancar a adulta e não me deixar levar por isso. Deu quase certo. Também não sou uma expert em cervejas, digamos que eu sou uma degustadora-de-boteco mesmo, daquelas que tenta achar os sabores dentro da bebida, manja um pouco dos tipos, mas no final das contas entra em discussões do assunto sem nem saber do que está falando direito. Mas, como eu estava à trabalho, fui anotando todas as minhas impressões assim que degustava essas maravilhas da “natureza” (entre aspas, porque cerveja infelizmente ainda não dá em árvore).

Escolhi uma que despertou a minha curiosidade e que ao mesmo tempo eu poderia dividir com os migo tudo. A Rio de Colônia, da 2cabeças em parceria com a Freigeist Bierkultur (da Alemanha), é uma American Stout, cerveja escura, encorpada e que, em teoria, deveria ter gosto de Pitanga. Feita com flor de sal e malte torrado, sinceramente achei bom, mas estou à procura da tal fruta até hoje no meu paladar e no meu nariz, já que o aroma só me remeteu ao café, por causa da torra. Tem um toque cítrico e, apesar de ser uma cerveja escura, não achei tão pesada e encontrei um amargor suave. No final das contas, acho que poderia rolar a pitanga em outro tipo e cairia muito bem.

Colorado está lançando novidades com frutas brasileiras, sendo uma por mês até o final do ano, então eu resolvi incluir nessa parada. No EAP tinha uma delas, a Eugênia, uma Session IPA, um dos estilos de cerveja que mais gosto, com uvaia, nome que vem do Tupi e significa “fruta ácida”. É aromática, cítrica, refrescante e com sabor da fruta se acentuando no paladar à medida em que ia bebendo. Fica aquele gostinho no final da boca.

Tudo certo até aqui, saímos todos vivos. Fechamos a conta e rumo ao próximo destino. Perto dali está o Empório Sagarana, um lugar pequeno porém honesto, que eu acho bem agradável. Nas prateleiras estão disponíveis cerca de 150 rótulos de cervejas especiais e 50 de cachaças, que eu preferi nem olhar porque, né, foco na missão. Tinha umas seis opções com frutas para tomar na hora e fiquei bem curiosa com a Urbana Boo! com melancia, que foi a escolhida da vez. Foram 330 ml de pura melancia, o que me surpreendeu, porque eu achava que essa mistura não ia dar muito certo. A cerveja é uma American Wheat, cerveja americana de trigo, com aroma delicioso, sabor acentuado, suave e, às vezes, até parecia um suco mesmo.

No dia seguinte nóis tava onde? Nessa árdua pesquisa de campo. Estava no Memorial da América Latina cobrindo uma pauta com um calor de trocentos graus na cabeça, então migrei para o Capitão Barley, uma loja que se transformou em um bar bem legal com mais de 150 rótulos. Dei uma olhada na geladeira e peguei uma Tupiniquim de maracujá. É uma cerveja tipo Weiss, de trigo, que já tem adição de frutas na composição e no geral é refrescante. O aroma é muito bom e acentuado, a bebida não é nem amarga e nem doce, e o sabor é discreto mas lembra a fruta, especialmente no final do paladar.

A sede infinita que todo bom brasileirinho carrega consigo resultou em mais uma escolha: Cupuaçu Sour, da Cia. Morada Etílica. Detalhe que eu nem curto cupuaçu, mas sou uma pessoinha que topa desafios. Tudo em nome do jornalismo! A cerveja é bem aromática (usaria um perfume dessa breja), tem gosto muito acentuado, é azedinha e um tanto ácida, assim como a fruta. Acabou me lembrando uma sidra ou espumante. Acho difícil tomar mais de uma garrafa, que tem 355 ml.

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Na segunda-feira enfim chegou minha compra, a Colorado Nassau com adição de caju, que é uma das minhas frutas favoritas, então já rolou aquela empolgação. Chuva caindo lá fora e eu dentro de casa na companhia dela e das minhas anotações. A cerveja é uma White IPA, estilo que mistura American IPA e Witbier. É encorpada e ainda assim leve para uma cerveja do tipo, turva, com amargor se acentuando no final. Gostei das escolhas da marca porque são duas frutas bem tropicais, a uvaia e o caju, que casam bem com a bebida.

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Pra finalizar, a noite fui na Let’s Beer, misto de bar e loja que abre todos os dias, inclusive numa segundona acalorada. Fiquei curiosa com algumas misturas que vi e optei pela Tupiniquim Lógica Absurda, edição limitada com ameixa e framboesa na composição. O mix maluco dessa Berliner Weisse não é por acaso, porque a cerveja é inspirada no conto Alice no País das Maravilhas. A cor é um vermelho meio rosa, bem bonito; o sabor é intenso, me fez identificar as duas frutas, cítrico e ácido, me lembrando muito de uma sidra mesmo. Tem um frescor que remete ao Verão e acho que é bacana para harmonizações.

Resumo da experiência toda é que algumas cervejas com frutas exóticas, como as da Amazon Beer e até mesmo a de guaraná, da Divina, ficaram de fora. Aliás, os sabores são até mais vastos do que eu imaginava, é como se tivesse um hortifruti inteiro dentro dessas garrafas pelo tamanho da variedade que existe. Ainda assim, nessa semana de degustações, tive boas surpresas, que são ótimas escolhas para o clima tropical e o verão brasileiro. São refrescantes, com presença de frutas diferentes, sem doçura e com muita personalidade.

A Colorado é um bom exemplo disso, já que ela tem no seu DNA a produção de cervejas com ingredientes brasileiros, como a rapadura, a mandioca, o café e o mel. Nesse quesito, sabemos deixar os gringos no chinelo porque o Brasil é rico em ingredientes maravilhosos que podem sim acompanhar o malte e o lúpulo. Afinal quem disse que cerveja não pode ter fruta? Adicionar frutas na cerveja une duas coisas que sabemos produzir muito bem e que são criativas, diferentes do que estamos acostumados. Isso não só desperta novos aromas, paladares e rótulos, mas desiberna a nossa capacidade de nos reinventarmos, mesmo que seja na mesa de bar.

Tabela periódica do pão líquido: interessante!

Todas as fotos © Brunella Nunes

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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