Inovação

Depois de experimentar um trabalho diferente por dia, ele quer te ajudar a fazer o mesmo

por: Brunella Nunes

Publicidade Anuncie

Os millennials estão dando cara nova para as gerações seguintes, mas muita gente ainda está condicionada ao típico ciclo “saia da escola, faça uma faculdade e arrume um emprego para dedicar sua vida toda”. O publicitário Eduardo Talley cansou de tudo isso, largou seu cargo numa agência e se jogou em 31 trabalhos diferentes durante 31 dias. Depois de viver muitas experiências, ele quer te ajudar a fazer o mesmo e provavelmente essa ideia já te seduziu até aqui.

Era uma terça-feira quando eu e o Talley sentamos num café para ele me contar sobre “essas ideias loucas”. Entre um café e uma cerveja, me explicou melhor sobre o surgimento do “One Day Hand” (algo como “Uma Mãozinha por Dia”), projeto que funcionou muito bem e trouxe novas perspectivas de vida. E não, gente…ele não é um playboy sustentado pelos pais, como alguns criticam em comentários pela internet. Como tudo na vida, essa foi também uma escolha. Hoje o Talley vive com menos, não tem casa própria e nem o smartphone de última geração. E está feliz assim.

Depois de deixar a publicidade de lado, começou a usar o tempo livre para fazer outros trabalhos, diferentes e fora do horário comercial, e começou a chamar isso de Out to Lunch, que funcionaria como um portfólio, contando exatamente o que aprendeu. “Trabalho em hostel, uma obra de 5 meses, trabalho em montagem…só que tinha uma seção que era para trabalhos de um dia e ele começou a crescer. Aí foi quando veio esse insight de colocar as experiências de um dia apenas”, disse. E foi assim, oferecendo sua mão de obra para “uma mãozinha” que as coisas deram certo. Voluntário, assistente de food truck, bartender, assistente de floricultura e montagem de exposição de arte foram só algumas das tarefas que realizou.

eduardo-talley5

Convenhamos que, no Brasil, as pessoas ainda estão amarradas na cadeira de escritório e na ideia de que não é possível experimentar coisas novas a não ser que você seja rico. Posso afirmar, por experiência própria, que sim…muitas portas se fecham na nossa cara pelo simples fato de ter uma faculdade que não condiz com a tarefa, mesmo se for para um trabalho que sequer exige uma graduação. Fora isso, as próprias pessoas também não se entregam à essa ideia, enxergam serviços como subemprego (mesmo que façam isso numa viagem internacional) e se apoiam em discursos ultrapassados.

Para mudar essa visão, uma investigada nessa história toda foi a base da nossa conversa, afinal, eu também queria saber como tudo aconteceu e agora também quero mudar meu rumo. Essa pode ser uma pequena atitude para grandes passos.

Como aconteceram seus primeiros trabalhos “fora da caixa”?

Juntei uma grana e vendi meu carro pra fazer mestrado, só que decidi dar uma volta pelo mundo, em 2013, para fazer pesquisa de trabalho, pra ter um projeto meu. Fui pra Barcelona, que era minha base, depois segui para o Oriente Médio, Ásia, Estados Unidos, América Latina e voltei para o Brasil. Quando estive lá, foi um ano sabático. Queria ter dinheiro suficiente pra não ter que trabalhar. Só que quando cheguei lá, descobri a troca, que é muito comum em outros países. Você trabalha em troca de acomodação, comida, não exatamente por dinheiro. Um dos trabalhos mais interessantes foi quando trabalhei em São Francisco em troca de uma cama, já na reta final da viagem. Lá fiz de tudo, lavei louça, fiz limpeza, fui guia, trabalhei em recepção. Foi minha primeira rotina de trabalho fora da caixa. Quando fiz isso, nasceu esse pensamento, me liguei de que poderia fazer o mesmo no mundo todo.

Em 2014 voltei com esse pensamento, de como poderia fazer trabalhos diferentes pelo mundo e viver assim, me sustentar, assim como as pessoas lá fora fazem. Criei um plano e fui trabalhando nisso até chegar à plataforma que hoje acredito que possa ser uma ferramenta. Sobre como ganhar dinheiro, só na prática, experimentando pra saber. Em abril fiz um post no Facebook, me disponibilizando para trabalhar e teve muitos compartilhamentos, o que resultou em muitas propostas de trabalho. Mas eu também queria desafios, então bati em portas de lugares dos quais gostaria de vivenciar a rotina.

Hoje trabalho em dois lugares: um pela manhã e outro a tarde, onde eu trabalho em troca de acomodação. Faço a reforma em troca da minha moradia. Meu objetivo é continuar fazendo o One Day Hand e minha ideia é ir para o Rio de Janeiro em fevereiro.

Por que fora do Brasil é tão comum “fazer qualquer coisa” e aqui não?

Serviços são considerados subempregos. Mas lá fora, as pessoas viajam o mundo todo, sustentam famílias, tendo qualquer tipo de trabalho. Então o One Hand nasceu como uma forma de contar essa história dentro uma cultura muito fechada, muito tradicional. Por isso que nasceu essa ideia.

O que mais mudou em você depois dessa viagem?

A primeira coisa que aprendi foi a desapegar. Foi essa transformação que viabilizou as minhas escolhas, a primeira desconstrução que tive para decidir fazer o que eu quero. O que é também desapegar do trabalho, do emprego, do salário, do conforto, da zona de conforto, daquela coisa de trabalhar 11 meses intensamente e tirar férias de um mês. Viajei com pessoas muito novas, no geral, que tinham em torno de 20 anos e já estavam há dois anos na estrada. Dificilmente vi brasileiros com mais de 25 anos se propondo a fazer isso, a ficar em hostel, dividir cama, fazer essas tarefas….o número ainda é muito pequeno. Mas recomendo que todas as pessoas façam isso. Acho que as pessoas não deveriam ser “obrigadas” a estudar logo depois que saem da escola. Deviam viajar, experimentar um trabalho, não fazer nada, ter um período para respirar.

eduardo-talley

Mas não é tão fácil, é algo cultural também…hoje, dentro do país, poucos podem se dar essa folga.

Claro, eu mesmo não consegui, batalhei para estar onde estou hoje. Não sou rico, mas entendo que sou um cara privilegiado. Não tenho família para sustentar, tenho uma vantagem de ser homem, branco, ter uma profissão, dentro de um país totalmente desigual. Mas acho que tem pessoas como eu, com as mesmas condições, que não fazem. Então aconselho que experimente essa ideia, passe sua noite, hora vaga, tire uma folga pra fazer isso. O One Day Hand é para pessoas que têm condições de experimentar isso, tenham tempo e vontade, e não que estão desempregadas.

Ainda existe essa dificuldade quando vai em busca de trabalho?

Hoje tenho uma facilidade muito maior de conseguir trabalhos diferentes. Mas ainda assim, há uma resistência. No projeto recebi muitos “nãos” de lugares muito improváveis. Pessoas que falam sobre inovação, novos modelos de trabalho, possuem empresas em formatos diferentes, e que mudaram a minha visão quando recebi e-mails de resposta. Se empresas que estão a frente disso, estão contando essa história de novos modelos e tudo mais disseram não, imagina as empresas mais tradicionais, né. Ainda tem todo aquele processo de seleção, de formação, de contratação…então ainda é uma coisa muito difícil. Estou trabalhando para que isso fique cada vez mais aberto.

E as portas que se fecharam?

Voltei da viagem totalmente sem dinheiro para Brasília e me ofereci como mão de obra em um hostel. Lá foi o primeiro não que recebi, mesmo eu me propondo às condições de trabalho, salário e etc. Recebi um não de um cruzeiro por “qualificação acima do cargo”. Ainda tem aquela cultura de querer contratar uma pessoa que vai considerar aquele trabalho como o da vida dela, um trabalho que ela nunca mais vai sair. Mas o que você prefere: contratar uma pessoa que vai trabalhar muito bem por seis meses ou uma que vai trabalhar ‘ok’ por dois anos?

eduardo-talley4

O mercado ainda tem muito marketing e pouca ação, ou seja, vende uma ideia que nem sempre se sustenta…

Existem grandes empresas que carregam essa imagem e quando você conhece um funcionário, se questiona se ele realmente é feliz ali dentro e descobre que não. Ainda é um assunto muito fechado, delicado…as pessoas não entendem de uma forma muito clara. Estou aprendendo a contar a história até hoje. Ela vai mudando, vai se adaptando, e eu tento deixar o projeto de forma mais clara.

Existe algum conselho para quem quer sair do modelo de trabalho convencional?

Isso não funciona mais e não à toa larguei isso há três anos atrás. Esse pensamento mudou, de fato, quando vi esse movimento lá fora e que já começou aqui de certa forma, que são pessoas trabalhando em outras áreas, executivos abrindo food truck, fazendo horta orgânica, indo para serviços básicos. Vi isso na prática e falei “cara, pra mim não faz mais sentido”. Aquela receita dos nossos pais não funciona mais. É uma loucura a ideia de escolher o que você vai fazer para o resto da vida aos 18 anos. Muita gente não tem certeza disso.

E como você vai escolher se, ao mesmo tempo, não fez nada na sua adolescência, né…é maluco isso. Qual foi o maior estalo para seu novo estilo de vida pós-carreira tradicional em publicidade?

Tive a oportunidade de trabalhar no barco da família Schurmann, num projeto de dois anos e meio de duração, como fotógrafo e um coordenador de mídia, que meio que virou a minha chave. Foi a primeira vez que vi que precisava registrar e contar essas histórias, até pra eu conseguir outros trabalhos como esse. Foi o momento em que vi que estava dando certo a ideia, em que percebi que era isso o que eu queria. Mas também vi que não queria ficar dois anos e meio na mesma tarefa, que queria fazer qualquer trabalho, amplificar isso. Fiquei dois meses e foi um dos trabalhos mais intensos que tive.

Vejo que, nesses casos, a quantidade de trabalho é pequena, mas resultam em experiências muito intensas mesmo. Sabe me dizer de uma ou mais experiência de um dia que te marcou?

É muito difícil classificar, porque foram vários dentro dessa características. Teve um dia que eu estava exausto e fui plantar uma árvore, à trabalho mesmo. Mas é engraçado, porque é um processo de início, meio e fim, e no final vê uma árvore plantada, você o resultado. Foi muito cansativo, mas muito gratificante. Fazer luminária, cerâmica, cerveja, trabalhar numa cozinha industrial, achei incrível. Penso “poderia ficar muito tempo fazendo isso”, mas ao mesmo tempo não é algo que eu faria por muitos anos. Já outras, imagino que sim.

talley-destaque

Então você também se redescobriu em alguns pontos. A maioria das experiências foi inédita?

A maioria sim. Muitas coisas já havia feito, mas de forma diferente. Por exemplo, já trabalhei com eventos, só que trabalhar no Bloco Tarado Ni Você no meio do Carnaval foi totalmente diferente, divertido e interessante. Tem coisas que dão uma satisfação e são muito simples…se cada um plantasse uma árvore na sua calçada, imagina como São Paulo estaria. O One Day Hand vem dessa simplicidade mesmo. É um dia para experimentar muitas coisas. Tem gente que larga o mercado financeiro pra fazer cookie. Eu aprendi a fazer uma luminária participando do processo, de lixar, fazer a parte elétrica, colocar pra funcionar até acender. Você construir uma coisa diferente é uma satisfação que muita gente com 10, 30 anos de profissão já não tem mais. O que quero falar é: gente, é possível. Mesmo que seja por um dia.

Quais são os próximos passos do One Day Hand?

A ideia é criar uma plataforma para que outras pessoas possam disponibilizar trabalhos ali, temporários, para aquelas que buscam viver essa experiência. Não quero ser um agenciador. Meu objetivo é continuar trabalhando, então essa ferramenta teria que se sustentar sozinha. Estou viabilizando essa abertura agora porque é, de fato, um desafio para todo mundo. Ainda precisamos mudar muito a cultura do Brasil para pensar numa plataforma como essa. Quero muito que outras pessoas tenham a mesma oportunidade, até pelo o que já recebi de inscrições e relatos de gente, satisfeita ou insatisfeita com seus trabalhos, que quer experimentar. Cada dia que passa me surpreendo mais com o fato de que não estou sozinho.

eduardo-talley2

eduardo-talley3

Todas as fotos © One Day Hand

Publicidade


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Volkswagen recria anúncio retrô do Fusca para campanha da nova Kombi elétrica