Inspiração

A história do Pier de Ipanema, ícone da contracultura e do surf no Rio dos anos 1970

Vitor Paiva - 17/01/2017 | Atualizada em - 06/02/2021

É impossível prever qual cenário, contexto ou gesto irá provocar uma transformação cultural e se tornar o símbolo do espírito de uma época. Uma banda, uma casa de shows, um bar, um espetáculo, um livro, um poema, uma canção, um artista ou um acontecimento, cada uma dessas manifestações, em épocas e locais diferentes, já foi responsável por capturar e representar aquilo que os alemães chamaram de zeitgeist (ou “espírito da época”).

No Rio de Janeiro, mais precisamente nas areias da praia de Ipanema, na década de 1970, o que melhor capturou o espírito de então foi um objeto inanimado, frio em ferro e madeira, sem charme ou beleza especiais, mas que acabou por construir uma espécie de oásis utópico, rebelde e contracultural no coração da mais sombria fase do regime militar. Trata-se de um píer – uma construção em princípio sem charme que levava um emissário, tubulação até hoje responsável por despejar os dejetos dos bairros mais ricos da cidade diretamente no mar, e que passou a dividir a praia de Ipanema a partir do ano de 1971.

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O píer de Ipanema visto de longe

Quem poderia prever que, à altura da Rua Teixeira de Melo, em Ipanema, na faixa de areia ao redor da construção que cortava a praia e levava os tais dejetos, se formaria uma espécie de república hippie sem fronteiras? Pois o píer de Ipanema foi um sonho louco que duraria até o ano de 1975, no qual as melhores ondas seriam surfadas pelos melhores surfistas, e os mais importantes artistas se misturariam com os jovens de então para se bronzearem, mergulharem no mar, conversarem e sonharem – impulsionados por baseados, ácidos e outros combustíveis psicodélicos.

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A tal obra que possibilitou o surgimento dessa terra mágica e utópica, no entanto, inicialmente provocou ira na população – inclusive e principalmente nos jovens que viriam a habitar o que ficou conhecido como “as dunas do barato” ou “as dunas da Gal”. Era, afinal, uma estrutura feia, que levaria esgoto para o mar onde nadavam. Desse cenário tétrico (que assim permanece, considerando que boa parte do que despejamos em nossos banheiros segue sendo jogado no mar pelo mesmo emissário) nasceu poesia, cultura e resistência.

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Para fazer a tubulação chegar até o ponto correto no mar foi preciso alterar a morfologia do solo e a própria profundidade do mar, mudando assim a qualidade das ondas no local. Se antes o melhor pico para o surfe era a região do Arpoador, com a chegada do píer as ondas ali cresceram e, aos poucos, foi para lá que migraram os surfistas – para começar a tornar aquele o melhor pico da Praia de Ipanema, do Rio de Janeiro, da juventude de então.

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Os tempos eram autoritários (e quando não são?) e uma lei impedia que se surfasse nas praias cariocas após às 8 da manhã. Ninguém imaginava, porém, que alguém pudesse querer se banhar ao redor de construção tão sem charme e com função tão desgostosa, e assim tal lei acabou não valendo para a região do píer. Foi justamente ali que nasceram as melhores ondas da história da cidade.

© Mucio Scorzelli

© Mucio Scorzelli

Reza a lenda que quem primeiro surfou as formações perfeitas do mar do píer não foram os surfistas do Arpoador, mas sim, uma turma que ficou conhecida como Os Metralinhas. Formada justamente pelos irmãos mais novos dos surfistas, por serem impedidos de pegarem as boas ondas do Arpoador, Os Metralinhas migraram para a parte do Píer – onde encontraram ouro em ondas.

© Eurico Dantas

© Eurico Dantas

A areia removida para a implementação da estrutura era jogada nas laterais da praia, formando assim as tais dunas – que serviriam como uma barreira capaz de esconder dos passantes na calçada e na rua o que acontecia naquela parte da praia, transformando aquela faixa de areia numa espécie de trincheira de comportamento livre. E assim estava pronto o cenário perfeito: as ondas trouxeram a turma do surfe, que levou os jovens mais bonitos e gostosos da época de ambos os sexos – e a privacidade trouxe os artistas e os doidões. Da noite pro dia, não havia lugar melhor para se estar que não no Píer de Ipanema. Estavam formadas assim as dunas do desbunde.

© Fedoca

© Fedoca

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Fundamental lembrar que o contexto no qual esse acontecimento cultural se desenvolveu foi o da ditadura em seu período mais terrível. Praticamente todo o tempo em que o Píer permaneceu montado se deu durante o sangrento e ainda mais autoritário governo do general Emílio Garrastazu Médici, uma espécie de auge da tortura e dos crimes cometidos pela ditadura no Brasil. Assim, a afirmação de liberdade sexual e de expressão que regia as areias das dunas exigia uma bela dose de coragem e uma sadia irresponsabilidade.

Os primeiros topless foram também feitos no píer

Os primeiros toplesses aconteceram também no píer 

Sair das dunas antes do pôr-do-sol era crime inafiançável e, a partir de novembro de 1971, não havia outro lugar para se ir depois da praia que não ao show Gal a Todo Vapor, de Gal Costa, no teatro Teresa Raquel, em Copacabana. Foi o espetáculo que deu origem ao disco ao vivo Gal Fa-tal, possivelmente a obra maior de toda a discografia da cantora e um dos maiores discos ao vivo da história da música brasileira.

Gal no show A Todo Vapor

Gal no show A Todo Vapor

Era comum avistar a própria Gal nas areias de Ipanema antes do show, e a mitologia conta que foi ela a primeira a estender sua canga e se deitar sobre as dunas. Isso, somado ao nada mero detalhe de Gal ser a estrela maior da música brasileira foi o que acabou por batizar as dunas com seu nome no imaginário popular.

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Gal Costa nas areias de Ipanema

A cantora nas areias de Ipanema

A beleza e o talento de Gal, a provocativa subversão, sensual e poética, encarnada em seu show de então (dirigido pelo poeta e letrista Wally Salomão) significavam o espírito do píer – encarnando o tal do zeitgeist também em uma pessoa sobre o palco.

Gal em ação

Gal em ação

O público ia para o teatro ainda sujo de areia, muitas vezes sem sequer cobrir o corpo para além de seus trajes de banho, e faziam silêncio para ver a musa daquela geração cantar Sua Estupidez, Como 2 e 2, Charles Anjo 45, Pérola Negra, Mal Secreto, Assum Preto e, no auge do show (e, quiçá, da década) o clássico Vapor Barato, de Jards Macalé e Waly Salomão, entre muitos outros (quem não conhece o disco Gal Fa-tal, abandone esse texto agora e corra para maravilhar seus ouvidos).

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Mas Gal não era de forma alguma a única personagem a significar o local. São diversos os nomes que surgiram e se tornaram icônicos entre as dunas e o mar da Ipanema de então. Como Petit, o surfista-galã, muso da praia e, ao mesmo tempo, das festas intelectuais, que serviu de inspiração para a canção Menino do Rio, de Caetano Veloso. 

Petit, o menino do Rio

Petit, o menino do Rio

O braço no qual o dragão estava tatuado era o braço de Petit, que inspirou Caetano a imortalizar na canção o espírito das dunas.

Baby do Brasil, quando ainda se chamava Baby Consuelo, viria a gravar Menino do Rio, ela também figurinha fácil, junto com os Novos Baianos, das areias do píer.

O surfista Rico e Petit

O surfista Rico e Petit

Evandro Mesquita, antes de formar o grupo de teatro Asdrubal Trouxe o Trombone ou da banda Blitz, frequentava o local diariamente. Como também faziam Cazuza, Waly Salomão e seu irmão Jorge Salomão, Jards Macalé, o poeta Chacal, o surfista Rico de Souza, José Wilker, Glauber Rocha, Jorge Mautner, Rose di Primo, Caetano e Gil na volta do exílio, Patrícia Travassos e muito mais – todos devidamente entrosados, sem barreiras, prontos para aplaudir o pôr do sol, livres para fazerem, falarem e consumirem o que quiserem nas trincheiras desbundadas de Ipanema.

Evandro Mesquita nas areias do desbunde

Evandro Mesquita nas areias do desbunde

A contracultura carioca da década de 1970 nasceu nas areias de Ipanema como resistência à dureza do regime militar, mas também como uma maneira de se relaxar diante do comprometimento irrestrito que a década anterior exigia da juventude, que teve de oferecer no mínimo a própria vida contra a ditadura. Havia sim um sentido festivo e delirante diante do duro cenário que estava imposto sobre o país – um relaxamento corporal, sexual, libertário, que permitia aos desejos um pouco mais; bastava, no entanto, pisarem torto no asfalto para aqueles cabeludos e cabeludas estarem novamente sob a mira inclemente dos milicos. Nas areias do píer, no entanto, o oásis de liberdade moveu aquele recorte geracional a seguir em frente, fazendo girar a roda da cultura, seus desafios, símbolos e sentidos.

© Mucio Scorzelli

© Mucio Scorzelli

Ainda que tenha sido desmontado em 1975, o sentido profundo da vivência ocorrida ao redor do píer acabou por se tornar a porta aberta para o tipo de resistência libertária e jovem que permitiria o surgimento, por exemplo, de um palco como o Circo Voador, sete anos depois, no Arpoador – e muito mais.

© Fedoca

© Fedoca

O site Pier de Ipanema resgata justamente toda essa história, reunindo material diverso a respeito da memória das dunas, seus personagens e causos que tanto marcaram a época. Tanto no site quanto na página do Facebook é possível relembrar, reviver ou experimentar pela primeira vez esse gosto de liberdade.

© Fedoca

© Fedoca

Pois se justo a liberdade, a resistência, a contracultura, o convívio com as diferenças, o combate ao preconceito e a renovação estão na pauta de nossa época hoje – como necessidades fundamentais para transformações sociais urgentes – a lembrança do píer de Ipanema serve para sublinhar o quanto dos mais inesperados detalhes podem surgir transformações profundas. As possibilidades estão sempre querendo ser surfadas, na direção de um mundo mais livre – cabe a nós perceber a onda vindo, e não nos deixarmos afogar.

O restante do píer, hoje

O que resta do píer hoje

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© fotos: créditos/reprodução/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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