Inspiração

Comida de verdade na grande cidade: fomos ao 3º Festival de Agricultura Urbana em SP e isso foi o que vimos

por: Luiza Ferrão

Já parou para pensar em quantas vezes ouviu amigos e familiares lamentando-se sobre a falta de contato com a natureza nas grandes cidades? E quantas vezes a resolução para curar esse mal é, por terra ou ar, percorrer quilômetros de distância até encontrar o silêncio, o verde, o cheiro de terra molhada, o som das águas que correm por rio ou mar em lugares remotos?

E por quê não podemos ter contato com o verde dentro de uma megalópole como São Paulo?”, questionou a pesquisadora e chef de cozinha Bia Goll, que junto com a jornalista e agricultora Claudia Visoni e com Regiane Nigro, organizou neste último domingo, 22 de janeiro, o 3º Festival de Agricultura Urbana no Centro Cultural São Paulo.

IMG_0044

Com feira de orgânicos, gastronomia saudável e atividades como troca de sementes, rodas de conversa sobre compostagem, hortas comunitárias, alimentação, abelhas sem ferrão; aulas de dança, yoga e exibição de filmes, o festival foi uma oportunidade para trocar experiências e levar produtos fresquinhos e livres de agrotóxicos para a casa, mesmo sem a trégua da chuva.

IMG_0055
Roda de conversa sobre hortas comunitárias com Claudia Visoni

Plantando ideias

Identificou um terreno ocioso num espaço público próximo a sua casa, como uma praça, quer semeá-lo mas não faz ideia de como começar? De acordo com a Claudia Visoni, a melhor forma de fazê-lo é ocupar, mas com o consentimento dos vizinhos e dialogando com o poder público.

Não existe hoje nenhuma legislação que regulamente a horta comunitária em São Paulo. Também não há nada que a proíba, mas de qualquer forma, estamos num limbo”, ela conta durante a roda de conversas sobre o tema. “E vivemos um momento delicado de troca de gestão” continua. É preciso batalhar, portanto, junto com subprefeitos e vereadores, para formalizar essas ocupações.

IMG_0116
Canteiros no Centro Cultural São Paulo

Mas afinal, quem não adoraria ter um canteiro adotado perto de casa, a disposição para colher temperos fresquinhos, orgânicos, que cresceram graças ao seu próprio cuidado e dedicação? De acordo com Claudia, (e por incrível que pareça aos meus olhos) quando a Horta das Corujas nasceu no bairro de Pinheiros, em 2012, algumas pessoas passavam ao redor e proferiam palavras pouco amigáveis aos voluntários que lançavam `a terra as primeiras sementes.

E com opiniões divergentes, o importante é conversar. Entender os usos do espaço que será ocupado, e os hábitos das pessoas que o frequentam. “Na horta da City Lapa, por exemplo, tinha um vizinho estrilando, querendo inviabilizá-la. E quando foram conversar descobriram que o problema era que ele não queria que o hortelã encostasse no seu muro. Plantaram o hortelã a 20 centímetros do seu terreno e uma coisa que poderia ser um drama acabou!”, conta Visoni.

As dúvidas de quem almeja conquistar esses pedacinhos de terra, porém, vão muito além: o que plantar, como fazer a compostagem sem gerar odores e atrair moscas ou larvas… De que forma agregar pessoas que possam tocar a horta no dia a dia? Uma forma prática para trocar essas e outras ideias é pedir autorização para participar dos debates da página do Facebook Hortelões Urbanos, também encabeçada por Claudia.

O corpo fala

O festival continuou com a oficina de comida de verdade, quando Bia Goll ressaltou a necessidade de ouvirmos o nosso corpo, que sinaliza o tempo todo de quais nutrientes precisa para se manter saudável. E como? Abrindo as papilas gustativas e evitando a ingestão de produtos descaradamente industrializados, como pós para temperar ou ketchup e mostarda.

IMG_0150

Precisamos mudar a nossa rotina, começar a nos limpar, mas sem estresse”, argumenta. “Prestar atenção no que ingerimos durante as refeições ao invés de olhar para a televisão ou o celular e deixar de comer comida industrializada, que tem uma alta quantidade de químicos. Porquê ao fazermos isso, deixamos que o corpo trabalhe para limpar toxinas ao invés de transformar o alimento em energia vital”.

O resultado disso na pele, segundo a pesquisadora, é a falta de disposição para cumprir as atividades do dia a dia. E como abrir as papilas gustativas para finalmente entender o que o nosso corpo nos pede? Consumindo alimentos saudáveis e que não fazem parte do nosso cardápio diário.

IMG_0074

Temos que experimentar novos hábitos, como tomar café amargo, mas sem neuras, porque comer também é um ato emocional. A casca da jabuticaba, por exemplo, é uma das frutas no mundo com mais antioxidante, que regenera todas as células. E, na maioria dos casos, só comemos a polpa e a descartamos”.

Da terrinha

Na feira de orgânicos do Festival de Agricultura Urbana, encontrei apenas produtos provenientes de hortas cultivadas na própria cidade de São Paulo! No espaço gastronômico, comida saudável, de brasileiros e refugiados, foi saboreada sem o auxílio de pratos, copos ou saquinhos plásticos. O resultado é uma quantidade ínfima de lixo gerada no final, que é posteriormente compostada por membros da organização.

IMG_0133Z

Feirinha gastronomica sem produtos industrializados

A questão da reciclagem também é uma enganação da indústria, conta Bia. “A pessoa acaba se sentindo menos culpada, por quê vai colocar a embalagem plástica para reciclar, sem saber porém que parte dela não pode ser recuperada, e inevitavelmente vira lixo”. E mesmo se puder, será por no máximo duas vezes, porquê depois vai virar lixo de qualquer jeito, esclarece.

A pesquisadora conclui: “Temos que voltar no tempo…Voltar a ter a jarrinha de vidro do leite, o saquinho do arroz que você enche novamente quando termina no mercado, como já está acontecendo em países como Berlim e Paris. E a forma mais legal de caminhar para esse lugar sem se estressar é por meio de festas! Mostrando que é possível fazer uma feira gastronômica sem gerar lixo, que é possível consumir orgânicos com preços acessíveis! É assim que praticamos o que acreditamos, de um jeito divertido e leve!“.

Todas as fotos © Luiza Ferrão

cobertura-selo

Publicidade

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Projetos levam alimento e amor a comunidades e pessoas em situação de rua durante a pandemia