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Divertida, Corrida Maluca reúne apaixonados por carros antigos em São Paulo

por: Brunella Nunes

Quando eu era criança, me lembro bem do meu avô me levando para a escola numa Paraty, numa Kombi e numa Brasília. Além dessa memória afetiva, tenho a sensação de que era tão mais prazeroso andar nesses carros. Durante o aniversário de 463 anos de São Paulo, pude entender que não estou só nesse pensamento, do qual compartilhei com pelo menos outras 30 pessoas. Em sua 18ª edição, a Corrida Maluca SP reúne apaixonados por carros antigos para dar um rolê. Para a minha surpresa, foi realmente uma coisa de doido! 

Antes de explicar a dinâmica do evento nos próximos parágrafos, preciso confessar que eu não ligo muito pra carro. Depois dos 18 anos de idade eu sequer quis tirar carta de motorista e mal consigo diferenciar um modelo sedan de um outro qualquer. Mas tem uma ressalva aí, porque os carros antigos são donos de um charme sem igual. Além do mais, eles têm história e praticamente uma vida própria, tanto que constantemente, teimam em não “obedecer” os donos, causando os chamados perrengues. Então posso dizer que esses sim despertam o meu interesse e ganham a minha admiração.

E são pelos mesmos motivos – e muitos outros – que os amigos Luiz Miranda, Marcos Mello e José Tibiriçá se unem para fazer a Corrida Maluca SP acontecer. Em dois anos de buzinadas excêntricas pelas ruas, acontece de tudo quando estamos falando de carros com 30 anos ou mais de vida. “Na primeira vez, saímos pra dar um rolê e achamos divertido os carros que andam, porque geralmente carros antigos só ficam expostos, com aquela cordinha na frente. Começamos a fazer isso sem calendário fixo e o grupo, criado no Facebook, começou a tomar grandes proporções. O primeiro tinha 30 carros, enquanto o segundo teve 130”, explicou.

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O gosto por este universo não veio de família, já que segundo Miranda, o pai dele achava que carro bom era carro zero. “Ele tinha pavor de carro antigo, dessa coisa de quebrar na rua…já aconteceu comigo várias vezes e faz parte do rolê. Comecei em 1995, comprei um Karmann Ghia, que eu sempre quis ter, era uma paixão de infância, e só não tenho todos da indústria nacional porque não sou rico. Acho que nesse nível de perrengue, os brasileiros dão mais trabalho, porque é bem mais difícil achar peça e tudo mais”, contou, se prolongando sobre sua paixão pelo assunto. O carro antigo é um objeto de arte, conta muito sobre a história de um país, é cultural e tem muitas facetas. Ele envolve tipos diferentes de pessoas. Eu acho que carro acabou sendo mais fácil de possuir, assim como a moto, que tem grupos bem organizados e passeios regulares”.

No feriado em que a chuva resolveu nos dar uma trégua, fomos para o ponto de encontro na Rua Marquês de Itu, em frente ao Armazém Alvares Tibiriçá. Ali todo mundo estaciona, troca ideia e dicas sobre seus carros. Uma grande fila colorida de Fuscas, Paratis e Galaxies 500 já indicava que estávamos no lugar certo. Ninguém resiste às carangas vintages, todo mundo para, olha e tira foto. Os bichinhos são assediados! E pudera, quem resiste a um belo fusqueta restaurado?

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O mais interessante é que o evento é bem democrático. Pouco importa se você tem grana, se coleciona um ou 20 veículos. A coisa acontece por amor à causa e não exige associação ou pagamento de alguma taxa. Basta que o participante tenha carro ou moto clássicos, com documentação em dia, em bom estado. Depois basta chegar ao local com seu antigo no horário marcado e tenha consigo ou decorado o mapa e roteiro do passeio que publicam na fanpage. Ninguém decora! – Miranda ri. Nem ele decora e, entregando o jogo, foi o primeiro a se perder na hora de fazer o percurso do dia. “Por mais que a gente explique que é impossível seguir comboio em São Paulo, nossos corredores malucos sempre acham que vão seguir outro carro, e sempre esse outro acha que sabe onde está e basta um errar pra levar todos no erro. Mas o pessoal pouco se importa, gostam de participar.”

Na verdade, é isso o que torna esse rolê tão divertido. É a zona! E sequer existe primeiro, segundo ou terceiro lugar. É muito mais um passeio do que uma “corrida”, porque não existe prêmio e precisam garantir a segurança da galera. Pra começo de conversa, já começamos errado: o roteiro mudou algumas horas antes e foi avisado pelo Facebook. Primeira surpresa do dia! Aeee! Não entendi direito o que fariam, então já cheguei perdidona da vida. E calma lá, essa não é uma crítica. Os erros fazem parte do espírito da coisa, é o maior combustível dessa corrida. Sem eles, a experiência não seria tão legal.

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Com as carangas cheias de personalidade, até a buzina fica agradável aos ouvidos e arranca risadas de quem ouve. O barulho dos motores ecoa. Na hora de sair pelas ruas da cidade, a sensação é de que o Dick Vigarista poderia aparecer a qualquer momento. Mas ah, nem precisa de um vilão desses…os carros quebram sozinhos mesmo, sem falcatruas. O Galaxie 500 do Miranda quis dar seu show aparte, com superaquecimento, ou seja, era melhor dar uma parada. Mas isso foi lá pro final do percurso.

No final das contas, a gente nem viu o carro quebrar, porque nos perdemos, é claro. Antes, uns 30 minutos depois da partida, lá estávamos nós encostando em frente à Faculdade de Direito para esperar o resto da galera, que se dividiu em dois grupos, sem querer. Ninguém escapa ou sai ileso desse clima todo. Eu mesma fiquei tão maluca quanto a corrida, correndo pra cima e pra baixo pra fazer as fotos, saindo com a câmera pela janela do carro, e tentando seguir algum outro doido que não estivesse perdido.

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De repente, lá vem o Miranda com os outros participantes: “Vam’bora, p*rra!”. Pra não parar o trânsito, começa a correria de entrar no carro e seguir o rumo pelo Centro de São Paulo, lar dos prédios antigos que, mesmo judiados, encantam. A sensação era de estarmos numa outra década mesmo. Seguimos…até certo ponto. No meio da muvuca perto do Ibirapuera, a gente acabou desistindo. Lá estávamos nós, os pobres perdidos sem nem um carro maneiro desses para poder nos consolar.

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Os vídeos feitos pelo pessoal não me deixam mentir sobre o que é a Corrida Maluca. Acompanhe partes dessa empreitada de sucesso:

“O negócio é meio maluco mesmo. Nunca dá certo, mas sempre dá certo!”, disse o MirandaÉ bem por aí mesmo, um clima bacana, de total confraternização, onde todos são bem vindos e bem recebidos. Repetiria a dose, mesmo não tendo um carro desses. No próximo ano, os planos incluem a mudança de data. O aniversário de São Paulo estava mais caótico do que o comum, atrapalhando o percurso, então talvez seja na véspera, na madrugada do dia 24 para o dia 25. De resto, acompanhe o calendário dos caras pela página do Facebook e boa sorte, porque vai precisar!

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Para ir sabendo das gírias:

– “antigomobilista”: quem gosta de carro antigo.

– “Zé Frisinho”: quem mantém o carro zeradinho com tudo (ou o máximo possível) original e restaurado. Muito brilho. 

– “Relíquia” e “nave”: termos usados para qualquer antigo

– “Rato” ou “Ratoeira” são os modificados, enferrujados e “mal tratados”. Mas não se engane porque é judiado de propósito. Chamam também de “Hood Ride”.
– Nessa mesma pegada tem os “Hot Rods”, que são antigos década de 20 ou 30 mais pelados e montados com grandes e potentes motores.
– “Customs” e “Low Ride” para os customizados, que falamos mais nessa matéria

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Todas as fotos © Brunella Nunes e Fábio Feltrin

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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