Matéria Especial Hypeness

Como o financiamento coletivo está mudando o mercado de livros no Brasil

por: Vitor Paiva

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A passagem do tempo, na mesma medida em que traz o novo, pode matar o que não se adaptar aos tempos por vir. De quando em quando, novidades tecnológicas ou mudanças no mercado são recebidas com trombetas apocalípticas, como se viessem para acabar com produtos culturais que amamos.

O teatro teve seus dias contados, quando do surgimento do cinema, assim como o cinema, quando surgiu a TV – o telefone acabaria com os correios, o CD com o vinil, e assim por diante. O advento da internet e da tecnologia digital já foi apontado como futuro responsável pelo fim do telefone, da TV, do cinema, da indústria da música e da inteligência humana. E o mesmo é dito sobre o livro, que estaria em seus últimos dias por conta das tecnologias virtuais e dos livros e leitores eletrônicos.

Books Collection Bookstore Rows Bookshop Arranged

Ainda que muitas transformações, boas e ruins, tenham sim se dado a partir do surgimentos de novos meios de comunicação e disseminação de conteúdos, a verdade é que nada desapareceu; tudo somente se transformou – e os objetos que de fato amamos e que traziam aura em si e na experiência que proporcionam, como LPs e livros, passaram a ocupar novos espaços e sentidos.

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Se o LP foi se tornando objeto de luxo, outras novidades tecnológicas – e principalmente novas lógicas de mercado e consumo – trouxeram uma inesperada mudança na maneira dos produtos culturais serem produzidos e comercializados. O crowdfunding, ou financiamento coletivo, certamente é uma delas, e se sua força como alternativa à agonizante indústria do disco já se confirma há anos, esse método de realização cada vez mais vem se afirmando também como alternativa para escritores e editoras, a fim de se produzir e publicar livros.

Livros e Multidões

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Diego Reeberg, do Catarse

Uma postagem recente realizada por Diego Reeberg, co-fundador e VP de comunidade da plataforma de financiamento coletivo Catarse, apontou importantes dados a respeito do crowdfunding como realidade para o mercado editorial no Brasil. Segundo seu post, “uma grande editora lança 300 livros/ano [no Brasil]. Em 2016, só pelo Catarse foram 200”.

É evidente que a realidade de uma editora é bastante diferente dos meios e métodos de uma plataforma de financiamento – que funciona pela participação direta do público, visando a fabricação daquele único livro, sem objetivos de lucros maiores ou mesmo outros compromissos de investimento – , mas de qualquer forma os números impressionam.

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Exemplos de projetos literários sendo financiados no Catarse

Para Diego, mais do que competir ou resolver os dilemas da indústria do livro, o financiamento coletivo pode, através da força das mídias sociais, da proximidade entre autor e seu público e dos meios de compras online, dar vazão a uma demanda reprimida até então. “O modelo tradicional das editoras não comporta todas as soluções para o mercado editorial. Tem autores que já publicaram diversos livros por editoras e experimentam o crowdfunding para ter mais autonomia. Outros receberam ‘nãos’ de editoras e o financiamento coletivo apareceu como possibilidade”, afirma Diego, lembrando que o sistema não substitui o papel de agentes importantes do mercado editorial, como o revisor e o próprio editor, funcionando mais como uma ferramenta direta para o autor concretizar a publicação do seu livro e espalhar sua ideia.

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Apesar das especificidades do modelo, para Diego o crowdfunding oferece vantagens significativas, como a autonomia de fazer o trabalho da maneira que o autor quiser e correndo um risco financeiro menor, afinal o produto só será fabricado se ele previamente já tiver captado os recursos necessários. Dessa forma, a relação entre o autor e seu público se estreita, possibilitando que, sem os investimentos astronômicos que normalmente uma editora oferece, se consiga um alcance grande em comunicação. De forma geral, segundo Diego, o financiamento coletivo oferece a possibilidade de se criar algo que não poderia ser criado de outra forma.

Projetos independentes

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O editor Sérgio Cohn

Foi se valendo de tal abertura de possibilidades que o editor carioca Sérgio Cohn recorreu ao crowdfunding para realizar um projeto que possivelmente não poderia ser feito através de outro meio: uma coletânea de poesia contemporânea, a ser lançada não somente em livro, mas também em um LP de poesia falada. Realizado em parceria com sua própria editora, a Azougue Editorial, a coletânea Garganta ganhou vida em papel, vinil e som graças ao envolvimento de 211 investidores. O projeto se financiou através da plataforma de crowdfunding Embolacha (parceira do projeto também na realização e finalização), especializada em música, e que recentemente ampliou seus serviços para o financiamento de qualquer produto artístico.

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O LP e o livro da coletânea Garganta, de poesia contemporânea

Para Sérgio, o livro físico irá sobreviver às novas plataformas, mas outros problemas, no entanto, se agravaram, mantendo assim em crise o mercado editorial – como a ausência de políticas públicas consistentes e a leitura e o fechamento de pontos de distribuição, como livrarias de rua. “A consequência é que hoje é preciso uma reinvenção por parte das editoras de como acessar o leitor. Os caminhos tradicionais estão se estreitando, e portanto é preciso descobrir novas formas. O financiamento coletivo pode sim, para o editor, se tornar uma dessas novas formas – mas para isso será preciso se adequar às especificidades do mercado de livros“.

“O financiamento coletivo hoje segue o mesmo padrão das políticas públicas de cultura: está mais voltado para produtos do que para processos. Não dá para se fazer um financiamento coletivo de toda obra individual que se vai lançar. É um processo demorado e difícil. Por isso, por exemplo, o financiamento coletivo em forma de assinaturas, de coleções, séries ou mesmo de círculos de livros, é mais interessante para o meio editorial. É preciso pensar em projetos de médio e longo prazo, não apenas em produtos individuais, que não permitem a sobrevivência de uma estrutura editorial.”, afirma Sérgio, que reconhece vantagens e questões em ter realizado o projeto Garganta através do financiamento.

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O elenco de poetas da Garganta

“A vantagem do livro e do vinil é que era um projeto coletivo, com mais de 20 participantes no final. E por isso havia maior facilidade em divulgação em diferentes ciclos, possibilitando um maior alcance de público. A desvantagem é que o vinil de poesia é um produto diferenciado, o que demandou um maior trabalho de explicação para os possíveis contribuintes no financiamento coletivo da sua importância.”, explica. Garganta contou com 20 poetas de renome na cena literária contemporânea, o que ajudou não só a amplificar sua divulgação, como também a ampliar o interesse de investidores no projeto.

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Para Bernardo Palmeira, CEO da plataforma Embolacha, é preciso perceber que a grande força que sustenta tanto o financiamento coletivo quanto as próprias editoras é a relação com o público – noção essa que as redes sociais confirmam e amplificam, e que o financiamento coletivo pode oferecer com extrema força para um autor que procure esse método para realizar um livro. “O relacionamento direto com o público não tem preço. O financiamento coletivo não é só sobre dinheiro, mas também sobre relações pessoais, sobre confiança mútua entre o autor e sua audiência”, afirma.

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Bernardo Palmeira, da Embolacha

Por normalmente custear a fabricação de uma obra somente, um projeto de financiamento coletivo não necessita de uma enorme quantidade de investidores para ser bem sucedido. Com isso, alguns livros e projetos literários que, sob a lógica do mercado, poderiam ser considerados excessivamente restritos a um nicho, no financiamento podem se tornar iniciativas de sucesso. “Diversas histórias tidas como de nicho podem ser do interesse de muita gente. É um modelo que dá uma amplitude maior para diversidade: racial, de gênero, de opção sexual”, afirma Diego.

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Todos concordam que um dos mais importantes segredos para realizar um projeto bem sucedido de um livro via financiamento coletivo – partindo dessa relação direta entre artistas e público e, portanto, entre pessoas e não grandes corporações – é a paixão e a dedicação ao projeto. “O primeiro ponto é ter uma história que você tenha muita paixão em compartilhar. A partir daí, é fazer um bom vídeo e uma apresentação coerente, transparente e com um bom apelo visual do projeto”, afirma Diego.

“Os colaboradores do livro e do disco se reuniram de forma afetiva – foi um projeto feito por paixão pelos poetas”, corrobora Sérgio, lembrando, no entanto, que a dedicação há de ser tão intensa quanto a paixão. “Sem um comprometimento diário com o projeto, não é possível. É um processo longo e difícil, e o valor solicitado tem que ser realista com as necessidades e também com o alcance possível do trabalho frente ao público. Mas o resultado é ainda mais satisfatório”.

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Alternativa

Já que a crise do mercado editorial existe mas não ameaça a sobrevivência do livro físico, o financiamento coletivo é sim uma alternativa aos autores, e pode ser também um forte parceiro às próprias editoras. “Uma editora não é apenas uma publicadora de conteúdos, mas uma qualificadora do livro. O editor responsável realiza um diálogo crítico e ativo com o autor, a preparação de texto, a revisão, a estrutura de distribuição e o pensamento gráfico da editora costumam acrescentar muito ao produto final. Portanto, a junção de bons projetos de financiamento coletivo com editoras de qualidade é uma parceria virtuosa”, arremata Sérgio Cohn, que já possui engatilhados futuros projetos da Azougue para o formato.

Tanto o Catarse quanto a Embolacha enxergam a parceria com editoras e a iniciativa de autores em realizar seus livros por financiamento coletivo como um caminho forte para o futuro das publicações, e uma possibilidade concreta de afirmação de autores experientes – que já possuem público – e iniciantes. “O financiamento coletivo é uma realidade da qual não mais se volta atrás. Acredito que só em 20 ou 30 anos vamos entender a dimensão real que o impacto desse tipo de iniciativa pode ter na indústria cultural como um todo”, afirma Bernardo. Seja qual for a mudança pela qual passem os meios de produção e divulgação, uma coisa não muda, afinal: a importância do público. O financiamento coletivo se apresenta como uma concreta expansão dos mercados culturais por retornar ao essencial, sem intermediários: as pessoas, a obra, e a comunicação – como nos lembra Diego: “O crowdfunding é sobre você compartilhar sua história e se conectar com quem é tocado por ela”.

© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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