Cobertura Hypeness

Festival multiarte #DáPraFazer reúne artistas, ‘fazedores’ e criativos na zona portuária do Rio

por: Gabo Vieira

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Quando recebi uma mensagem propondo a cobertura de um evento que duraria o sábado inteiro, minha primeira reação foi lamentar em silêncio pelas festinhas nas quais eu já havia confirmando presença. Mas trabalho é trabalho e não tá fácil pra ninguém, né não? Recebi um link com informações sobre o Rider #DáPraFazer, um festival gratuito que reuniria aproximadamente trocentos convidados bacanas para apresentações, oficinas, debates, festas e trocações de ideia em geral numa ode à cultura de rua do Rio de Janeiro. Pô, Hypeness, tô muito dentro!

O conceito do #DáPraFazer me fisgou logo de cara especialmente pela defesa de uma produção cultural descentralizada. Criado no longínquo bairro da Sulacap, uma espécie de Acre carioca, li satisfeito que o evento se desenrolaria por quatro sábados, em quatro pontos distintos da metrópole: Centro, Zona Norte, Baixada e Zona Oeste. E sem aquela coisa de circo itinerante que chega, se apresenta, vai embora e acabou. A proposta era juntar fazedores locais para expor o que tem rolado naquela cena e discutir o que vem pela frente.

Certo, mas o que são os tais “fazedores”? Bom, são basicamente o centro da campanha #DáPraFazer – pessoas de diferentes backgrounds que botam a cara e através de iniciativas individuais ou coletivas fazem a diferença no Rio de Janeiro. Uma galera que serve de inspiração para quem deseja pôr a mão na massa e trabalhar com música, dança, fotografia, moda, cinema, dentre outras áreas contempladas no evento.

Alô, Gamboa!

Cheguei pouco antes do meio-dia ao Galpão Gamboa, sede do festival. Para quem não sabe, a Gamboa é um bairro da zona portuária que se divide entre o charme do Rio antigo e as dificuldades de uma área humilde. Ali estão a bucólica Praça da Harmonia, o novíssimo AquaRio, o histórico Cemitério dos Ingleses.

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As crianças curtiram demais o sabadão na Gamboa (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

Em frente ao Galpão, uma molecada já se reunia no aquecimento para a Batalha do Passinho. Entre gargalhadas e provocações, eles exibiam com naturalidade a famigerada alegria nas pernas que faltou à Seleção em 2014. A “batalha” em si foi disputada por quase cinquenta concorrentes na área externa do evento, uma praça coberta por uma lona e circundada pelos trilhos do modernoso VLT carioca. É claro que os meninos deram um show, arrancando aplausos estrondosos da galera que se aglomerava ao redor da rodinha-arena. As crianças da região formaram uma espécie de área VIP, boquiabertas aos pés dos artistas do passinho.

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Os caras dão a vida no passinho (Foto: Lucas Sá/I Hate Flash)

“Os dançarinos se sentiram em casa, sentiram que o evento é deles. Tudo correu da forma que eles queriam, achei maravilhoso”, me contou Cebolinha do Passinho, mestre de cerimônias improvisado. Calçando uma Rider do Boston Celtics que me encheu de inveja, Cebolinha mostrou que é fazedor nato. Ele foi um dos criadores do Passinho em 2004, ajudou a difundir o movimento e já se apresentou em Londres e Nova York. Mas não parou por aí. Passou a estudar noções de empreendedorismo, a fazer cursos profissionalizantes e acaba de vencer um edital para dirigir uma série sobre o Passinho. “Tipo aqueles filmes americanos de dança, tá ligado?”.

Explorando o Galpão

O Galpão Gamboa é uma construção de três andares, onde funciona um espaço cultural que promove inclusão social para os moradores da região. Entrei e subi direto as escadas para o segundo andar, onde rolava uma oficina de ledwear, a primeira do dia. Orientados por Dioclau Serrano, os alunos não disfarçavam o receio de encarar a solda. Mas logo os primeiros filamentos de LED começaram a brilhar e os sorrisos da turma mostraram que o esforço valia a pena. Fofo, mas sempre fui péssimo em artes, melhor subir mais um andar.

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Alunos atentos aos ensinamentos de Dioclau (Foto: Lucas Sá
/I Hate Flash)

Lá em cima rolava o Papo de Fazedor, onde os convidados conversavam suas experiências com o público. Naquele momento, a mesa era composta por quatro produtores culturais que debatiam as dores e delícias de ocupar as ruas do Rio: Rebeca Brandão (Leão Etíope do Méier), Tay Oliveira (Brechó Gambiarra), MV Hemp (Zona Onírica) e Lina Miguel (Maracutaia e Agytoê). Perguntei para a Rebeca o que essa galera tinha em comum.

“Eu acho que o ponto de interseção entre as pessoas que compõem esse festival é o fato de você acreditar em alguma coisa e fazer. Não tem muito a ver com método ou hierarquia profissional, mas com acreditar num projeto e realizar. Outra característica dessa galera é ser multitarefa. Eu sou só produtora, mas sou uma exceção no meio. A Lina também é cantora e musicista, o MV Hemp é rapper, por aí vai”, me contava Rebeca quando foi gentilmente interrompida por Lina, que fez questão de ressaltar que não há nada “monotarefa” em ser “só produtora”. É ralação, é caos, é uma constante fazeção, já que estamos nos permitindo neologismos.

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#DáPraFazer (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

Aproveitei esta convergência de gente bonita, bacana e estilosa para fazer uma foto dos quatro no terraço, Morro da Providência lindão ao fundo, e postar no Instagram – onde só tem gente bonita, bacana e estilosa. Aliás, o que tinha de gente bem vestida no Galpão Gamboa e arredores era um absurdo. Não no sentido roupa de grife, mas naquele estilo natural mesmo, sabe? Em itálico. Voltei à área externa cogitando uma passada no O Grito Bazar, mas a real é que eu não nasci tão descolado. Minha praia é gastar horas fuçando os discos da Alive Pop Up, cuja barraquinha eu evitava até olhar para não cair em tentação.

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Ai, meu coração (Foto: Lucas Sá/I Hate Flash)

Quanta gente maneira

Por falar em estilo, ali ao lado estava o espaço Barbeiragem, onde os visitantes eram recebidos pela diva Gessica Justino – além, naturalmente, de terem à disposição os cuidados capilares de Papinho e Mineiro. “Sempre fui fazedora por uma necessidade de viver. Eu venho de um lugar em que se você não vai lá e faz, você não vive”, me contou Gessica enquanto subia as escadas do galpão para a exibição de seu filme, o curta doc “Barbeiragem”, que abriria os trabalhos do Cinemão.

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Barbeiragem no salão (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

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Barbeiragem na telona (Foto: Fernando Schlaepfer
/I Hate Flash)

Na sequência, a vez de uma das estrelas da noite. Kondzilla, o diretor que se tornou um fenômeno da internet após lançar clipes de funk como Bumbum Granada, Baile de Favela e Deu Onda. Consegui três minutinhos de sua disputada agenda para fazer umas perguntas.

“Tudo dá pra fazer. Tudo. Você só precisa de uma coisa na vida: certeza. Tendo a certeza é só seguir seu coração e trabalhar duro. Eu não saí do zero, eu saí do -100. É difícil ser reconhecido como diretor no Brasil se você não tiver sobrenome italiano. Sendo neguinho, do narigão, que veio da favela. Chegar nos lugares como diretor e a galera perguntar se você é montador, assistente de câmera não é mole. Mas eu procurei não ligar muito para preconceito, para rótulo. Acreditei, fiz e tô aqui”, me falou Kondzilla dois segundos antes de entrar em cena e ser ovacionado como um rei.

Um dos que aplaudiam Kondzilla com entusiasmo era Fernando Schlaepfer, que pouco antes era o centro das atenções ao relatar sua trajetória como criador do I Hate Flash no Papo de Fazedor. Apesar de considerar que uma hora tenha sido pouco para uma pessoa que gosta tanto de falar, o boa praça de Vila Isabel contou ter adorado a experiência enquanto era entrevistado por mim e cumprimentado por mais ou menos todo mundo.

“Sempre há mais o que fazer. A gente tá num momento, por exemplo, de grande preocupação social. De sempre querer transmitir algo – não só nos projetos autorais, mas em qualquer trabalho, mesmo que seja com uma grande marca. Pensar em representatividade é algo que faz a diferença, ainda que nossa parte às vezes seja apenas uma sugestão, uma conversa. De pouquinho em pouquinho as coisas acabam mudando”, disse Fernando.

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Fernando Schlaepfer, o cara das fotos que todo mundo usa no perfil (Foto: Lucas Sá/I Hate Flash)

De volta ao palcão

Caía a noite e o furdunço era cada vez maior na Gamboa. Eram muitos os assuntos sérios em pauta, mas a atmosfera descontraída, a música boa e a reunião de tanta gente interessante entre convidados e público geravam uma energia quase palpável. Crianças brincavam na rua, grafiteiros enchiam um painel branco de vida e cor, a galera do Maracutaia batia seus tambores e convidava o povo a dançar.

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Bota o tambor pra tocar… (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

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Os grafiteiros não poderiam ficar de fora, né (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

Do lado de dentro, o palco principal seguia seu ritmo frenético de atrações maravilhosamente diversas. Mais cedo eu havia visto uma batalha de MCs por lá, com direito a MC Tchelinho trocando uma ideia sobre a relação entre fazer rap e teatro. Agora quem se apresentava era a Lila, misturando samba, pop, eletrônico e enfrentando o assédio em “Não é Não”. Na plateia, até Arnaldo Cezar Coelho (pode isso?) curtia enquanto aguardava o show do Whipallas, banda da qual seu filho André é baterista. “Eles vão arrebentar, você vai ver”, avisou o ex-juiz. Dito e feito. Com direito a uma versão do clássico groove “September“, o Whipallas fez o Palcão inteiro dançar.

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Lila amarradona no palco (Foto: Fernando Schlaepfer/I Hate Flash)

O Galpão Gamboa não parava de receber mais gente. O Baleia fez seu som arrojado e aproveitou a presença em massa de seu público para comemorar o aniversário do vocalista Gabriel. O Fióti tava lindão de vestido branco e conseguiu elevar ainda mais o grau de ~good vibes~ do recinto com seu sangue latino.

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Fióti é o cara (Foto: Fernando Schlaepfer
/I Hate Flash)

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Bicho pegando (Foto: I Hate Flash)

Passava das dez da noite quando a fazedora mais aguardada da noite foi anunciada. Frenesi total. MC Carol entrou no palco, todo mundo berrou, ela berrou de volta, o lugar entrou em ebulição e a partir daí não posso relatar mais nada porque chegou a minha vez de abrir uma cerveja e curtir o show e as festas que só terminariam na manhã seguinte. Só sei que foi sensacional. Obrigado, #DáPraFazer, nos vemos em Madureira!

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MC Carol: epicentro (Foto: Fernando Schlaepfer
/I Hate Flash)

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Tentando pensar em uma palavra que não seja “diva” (Foto: Fernando Schlaepfer
/I Hate Flash)

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Que sábado foi esse, Gamboa?! (Foto: I Hate Flash)

O Festival Rider #DáPraFazer continua pelos próximos três sábados: 25/3 em Madureira, 1/4 em Duque de Caxias e 8/4 na Praia da Macumba.

Você pode conferir também o que rolou no sábado (25) em Madureira na nossa super cobertura. E também pode confirmar presença e participar do próximo evento que rola dia 1/04 no Soma HubAté lá! 🙂

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