Arte

O mítico ‘OK Computer’ do Radiohead fez 20 anos e 12 artistas interpretaram cada canção em ilustrações

por: Vitor Paiva

Em 1997 o mundo do rock parecia condenado à ressaca do século que terminava. Kurt Cobain estava morto – e com ele o Nirvana encerrava as atividades da maior banda da década – o charme do britpop demonstrava sinais de cansaço, e mais uma vez a morte do rock era anunciada como iminente e inevitável.

A única coisa que parecia interessar ao mundo com alguma aura e força eram as revoluções tecnológicas, e foi das cinzas desse cenário ao mesmo tempo apocalíptico de fim de século (e milênio!) e tecnologicamente renovador surgiu a última obra prima do rock: OK Computer, lançado pelos inglesas do Radiohead em 1997.

 OK1

Composto por doze estranhas canções – em arranjos duros, pontiagudos, com guitarras gritantes, estruturas não usuais, letras abstratas (em duras críticas ao consumismo, alienação, loucura e ao isolamento emocional que começava a se anunciar) e sonoridades abrindo espaço para o futuro experimental que esparava pelo Radiohead, tudo isso sob o desesperado e belo cantar de Thom Yorke – OK Computer distanciava-se da sonoridade pop de guitarra dos discos anteriores, e abria as portas do século que começava.

Rock Band Radiohead

Pois esse que é, de certa forma, ao mesmo tempo o último disco do século passado e o primeiro do novo século em que estamos (lançado no apagar de luzes da era de ouro da indústria fonográfica, mas já lidando com a realidade da internet e dos novos meios de comunicação – e alienação) agora completa 20 anos.

Em homenagem à data, o site Pitchfork convidou 12 artistas para traduzirem as canções em forma de ilustrações. Esses trabalhos foram reunidos em uma publicação em edição limitada, que está sendo distribuída em diversas lojas dos EUA – mas você também pode ganhar uma cópia preenchendo este formulário.

Um disco ao mesmo tempo do passado e sempre anunciando o futuro, OK Computer merece estar presente em toda e qualquer época – um trabalho fora do tempo, como toda obra prima é. Comece do começo, coloque o disco para tocar, e acompanhe cada obra tendo sua música correspondente como trilha – faixa a faixa, até o futuro, ontem.

1. Airbag – por Mario Hugo

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“Eu quis criar algo que se referenciasse tanto com a vida quanto com a morte, em sentimento quase similar ao “Grito”, de Munch. Há algo penetrante aqui – um pouco enigmático e sombrio – mas o retrato propriamente é um tanto maravilhado e inocente, como um ingênuo autorretrato. Uma agita poeira estelar risca tanto o ambiente quanto a face, igualmente, quase como se estivessem consumindo um ao outro”

2. Paranoid Android – por Erik Carter

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“Enquanto pesquisava essa canção, encontrei uma história sobre como a inspiração para a letra surgiu de um incidente em que Thom Yorke viu alguém derramar um drink em uma mulher em um bar, e ela reagiu com violência. ‘Havia um olhar nessa mulher que eu jamais havia visto antes’, o cantor disse. ‘Não consegui dormir à noite por causa do olhar’. Eu tentei imaginar esse olhar”.

3. Subterranean Homesick Alien – por Sally Thurer

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“O narrador nessa música pinta a vida terrestre como sintética e as viagens espaciais como iluminadoras, pois ver a Terra à distância coloca suas ansiedades em perspectiva, então eu quis que minha ilustração focasse na ligação entre o espaço manufaturado e o metafísico. O piso quebrado é o mundo material abrindo espaço para a verdade espiritual, para o céu”.

4. Exit Music (for a Film) – por Lala Abaddon

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“Para mim, ‘Exit Music (for a Film)’ é a faixa mais sombria do OK Computer, mas também possui essa luxúria sufocante, um desejo úmido. Essa dicotomia é representada pela fluidez e distorção em minha composição, que abrange o subconsciente dividido de uma paisagem surrealista e abstrata, abertamente nua”.

5. Let Down – por Doug John Miller

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“Comentando a globalização e a misteriosa solidão da vida moderna, ‘Let Down’ possui um particular sentimento espacial, então escolhi explorar as etéreas e ao mesmo tempo mundanas paisagens das cidades, que me são fascinantes. Eu ilustrei a canção pelas lentes de uma ‘lobotomia arquitetônica’, um termo cunhado pelo arquiteto Rem Koolhaas. Eu quis mirar uma cena que não se pode realmente tocar”.

6. Karma Police – por Maren Karlson

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“Essa peça representa a ideia de uma entidade imortal, poderosa, onisciente que nos persegue, que vê cada direção errada que tomamos em nossa jornada por nossos labirintos de erros e ignorância. Ao mesmo tempo em que estamos em eterna transformação, jamais nos tornamos infalíveis. Estamos sempre a um segundo de sermos pegos”.

7. Fitter Happier – por Max Guther

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“Melhore a si mesmo’ é o slogan da sociedade de hoje, mas se nós não nos permitirmos o descanso e o erro, estaremos sempre somente contando tempo”.

8. Electioneering – por Camilo Medina

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“‘Electioneering’ me faz pensar em um político viajando pelo país, dizendo o que as pessoas querem ouvir – mas essas mesmas pessoas serão traídas por esses indivíduos movidos somente pela cobiça e a sede de poder. É um sentimento que bate de forma especialmente contundente e próxima agora”.

9. Climbing Up the Walls – por Jesse Draxler

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“A expressão ‘Climbing up the walls’ [subindo pelas paredes] quer dizer auto-agitação através do medo, ansiedade, estresse – ser perseguido por demônios interiores. O monstro e sua vítima. A caçada a si mesmo, por você mesmo”.

10. No Surprises – por Sonnenzimmer

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“‘No Surprises’ sempre bateu como uma estranha canção de ninar, para o humano arcaico. Nós queremos que nossa interpretação da canção capturasse a exuberante sonoridade que cambaleia entre o afeto e o desespero – um equilíbrio quase impossível de uma tragédia com gosto de sacarina”.

11. Lucky – por Geriko

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“Escutamos ‘Lucky’ como um aviso direto dos anos 1990, um sonho premonitório das próximas décadas. Ao reutilizar os símbolos da canção, nós desenhamos o resultado desse sonho: uma chuva de aviões. As vítimas tem os olhos abertos, e os sobreviventes estão cegos”.

12. The Tourist – por Wang & Söderström

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A canção conta uma história metafórica sobre uma jornada que não mais sabe seu objetivo – o ponto desapareceu nas profundezas de uma busca frenética. É sobre ir rápido demais e perder as partes mais importantes. Desacelere, e o caminho irá se revelar”.

© imagens: divulgação/Pitchfork

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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