Matéria Especial Hypeness

A inquietação e a liberdade como as verdadeiras homenagens ao cantor Belchior

por: Vitor Paiva

A alcunha de “maldito” no campo das artes e da música popular costuma significar dois polos, em total paradoxo: por um lado, ser um maldito pode conferir a tal artista um selo de qualidade, uma aura de grande importância, sobre um compositor que cria seu trabalho sem se submeter às exigências estéticas do mercado. Por outro, o artista maldito é, ao decidir justamente não se submeter aos parâmetros midiáticos e mercadológicos, um tanto condenado a viver à margem, não ganhar os louros e os ouros que outros artistas, que trabalham mais claramente na tênue fronteira entre o sucesso comercial e o sucesso de crítica, acabam por ganhar.

 Belchior; Cantor

Tom Zé, Jards Macalé e Luiz Melodia são hoje bons exemplos de artistas que, ao serem considerados “malditos” (já que eles próprios provavelmente não se veem assim, nem necessariamente gostam do rótulo) equilibram-se entre o peso e a glória de tal título. Poucos, no entanto, parecem ter sido tão malditos (e em tamanho paradoxo) que Belchior – um artista em que glória e peso se tornaram a mesma coisa; a mesma maldição. Anarquista, libertário, iconoclasta, romântico, utópico, filosófico e cínico, Belchior foi tudo que que quis, que pôde – que lhe deixaram ser.

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Belchior não retomou os holofotes com um grande disco de retorno, não surfou em nenhum reconhecimento tardio, não aproveitou o verniz que o tempo oferece a uma carreira longeva, nem lutou para que, tantos anos depois, sua obra fosse reconhecida como o que de fato é: uma das mais prolíficas, contundentes, incorruptíveis e genuínas coleções de canções autorais da história do Brasil. Belchior simplesmente manteve-se coerente com suas próprias palavras. Desinteressado por qualquer fantasia, pelo algo mais, amar e mudar as coisas lhe interessava mais.

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Pois quando não estava cantando, Belchior não poupava ninguém. A mídia, a indústria, o sucesso, os governos, o dinheiro, o trabalho, o capitalismo, nada estava fora do alcance de seu olhar crítico. O cantor faleceu no último dia 29, aparentemente exatamente como quis: ouvindo música, sem se submeter a nada ou ninguém, sem satisfações a qualquer “mestre”, como um artista tão livre quanto possível.

Sempre desobedecer, nunca reverenciar, ele escreveu, como um mantra, que seguiu à risca – inclusive sobre si próprio.

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Acontece que Belchior foi um tipo raro de artista maldito, pois havia, ao longo de sua carreira – a partir também de regravações célebres que outros artistas realizaram de canções suas, com evidente e especial destaque para Elis Regina em “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida” – alcançado bastante êxito não só de crítica, mas também comercial. A mídia, portanto, sempre soube que tinha em Belchior um artista ao mesmo tempo completamente popular e profundamente refinado – e que, por isso, explorar o personagem poderia sempre ser garantia de levantar o interesse do público.

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Foi assim nas últimas investidas midiáticas, que quiseram investigar o suposto “desaparecimento” de Belchior pelo viés da loucura, do aspecto financeiro, do exótico – como se realmente desaparecer, ou mesmo possuir dívidas, fosse um gesto extraterreno, e não algo comum e recorrente, até mesmo um direito que qualquer pessoa possui, mesmo que questionável.

A maneira com que Belchior, em entrevista – quando foi enfim “encontrado” – rejeitou a condição de “celebridade” que lhe era atribuída, e que justificaria a investigação midiática sobre seu “desaparecimento”, em favor de sua condição de “artista” – na qual, quem precisa de fato falar é a obra, e não a vida do autor – nos lembrou da verve, da inteligência e da autonomia que permitiu a Belchior criar uma obra realmente original e crítica no cenário da música brasileira da segunda metade da década de 1970.

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Belchior e Fagner

Quando a turma de compositores cearenses tomou a cena musical brasileira, no início dos anos 1970, o “pessoal do Ceará”, como ficou o conhecido o grupo formado por Fagner, Ednardo e, claro, Belchior, seguia uma tradição de franca oposição aos movimentos musicais dominantes anteriores – e o alvo da vez foi a Tropicália. Caetano é chamado por Belchior de “antigo compositor baiano” – e, como um dedo em riste, nos lembra que “nada é divino, nada é maravilhoso”.

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Mas Belchior cometeu tal “revisão” do cenário brasileiro como um poeta, um filósofo – um compositor que se aproxima do sentido misterioso com que Bob Dylan e sua obra se afirmaram nos EUA e no resto do mundo (com a devida proporção em termos de reconhecimento, mas com o mesmo sentimento a respeito da idiossincrasia da pessoa por trás do artista) – e seu grande alvo era, na verdade, a ilusão. Se há algo de Dylan na obra de Belchior, há também de profundamente nordestino, dos repentes e poetas do Ceará – e é essa amalgama que torna ele um artista peculiar, ao mesmo tempo refinado, quase hermético, e extremamente popular.

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O jovem Arthur Rimbaud

Pois “desaparecer” sem que isso signifique a morte de sua obra – para muito além da morte do corpo – não é para qualquer um. O poeta francês Arthur Rimbaud talvez tenha sido o primeiro, por volta de 1875, cerca de exatos 100 anos antes do surgimento da turma do Ceará, largando a poesia definitivamente aos 21 anos para viajar pelo mundo trabalhando, terminando como um mercador de café e armas no continente africano. Rimbaud morreu aos 37 anos, na França, mas sua obra permaneceu, desde então e para sempre, como uma espécie de ponto mais alto e fundador da poesia e da literatura moderna mundial.

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Bob Dylan 

Outro que se deu o direito e teve a coragem de desaparecer foi justamente Bob Dylan. Em julho de 1966 o cantor, no auge do culto que se formou ao seu redor, supostamente sofreu um acidente de moto que o deixou recluso por mais de um ano e meio, sem lançar discos, e quase oito anos sem fazer uma turnê. Muita gente afirma que Dylan teria forjado o próprio acidente, para fugir das pressões e exigências da fama. O desaparecimento, porém, parece ter aumentado a mitologia ao redor do trabalho de Dylan e seu sentido para época.

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John Lennon e Sean, no colo de Yoko, durante a segunda metade da década de 1970

John Lennon também desapareceu, depois do nascimento de seu segundo filho, Sean, na mesma metade da década de 1970. Por cinco anos o guitarrista e compositor dos Beatles permaneceu em casa, sem lançar discos, cuidando de seu filho e fazendo de sua afirmação de que o sonho havia acabado, uma redenção caseira para a desilusão que via então nos ecos das lutas de sua geração. Quando retomou os holofotes, em 1980 com o lançamento do excelente Double Fantasy, Lennon terminou o ano assassinado, em 08 de dezembro.

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E Belchior junta-se a essa lista. Para muito além de qualquer tentativa de equivalência crítica, o importante na reunião é o espírito de indignação, desilusão, e o gesto compulsivamente franco de precisar apontar, iluminar, dizer tal desilusão a qualquer custo.

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O cantor com sua mulher, na época em que ‘desapareceu’ e foi ‘encontrado’ pela mídia

Foi Belchior quem melhor cantou o verdadeiro paradoxo que regia o sonho hippie em plena ditadura, ou alguns desejos de luta já claramente inócuos contra o regime e o status quo e, ao mesmo tempo, quem mais soube manter acesa a chama essencial da indignação, apesar de tudo. Claro que alguns desses “desaparecimentos” citados podem ter trazido sofrimento e angústia, no âmbito pessoal, para as pessoas com quem os artistas, inclusive Belchior, dividia a própria vida, como seus familiares. Esse, no entanto, é tema para outra esfera, que não diz respeito à qualidade de sua obra e ao interesse público que se deve ter sobre o trabalho de um artista.

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Alucinação, segundo disco de carreira de Belchior, de 1976, é sem dúvida o ponto alto de sua obra (e um dos pontos altos da história da MPB). O compositor canta no disco como um orador, alguém que estivesse consciente de que, a cada faixa, se fala algo relevante sobre o país de então e, ao mesmo tempo, outro algo enigmático, ainda a ser descoberto. Na grande reunião de clássicos que é Alucinação – “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, “Como Nossos Pais”, “Velha Roupa Colorida”, “A Palo Seco” e a faixa título são algumas das canções do disco – Belchior canta como um filósofo, um louco, um professor e, na mesma medida, somente um cantor, quase tímido, vindo do interior.

 

E esses parecem ser os grandes espíritos capturados pelo disco, que fizeram dele um verdadeiro documento de época: o espírito de quem veio do interior para a cidade grande, de quem era jovem e começava a perder a crença nos sonhos de liberdade, de quem estava amordaçado e encurralado diante da violência do estado, da ausência de democracia, de perspectiva e utopia.

 

Trata-se de uma obra-prima, e a maneira com que Belchior executa seus clássicos – especialmente em oposição a como outros artistas os executaram – parece ressaltar algo de profético, de poético, de mais profundo do que uma mera letra de música nos versos de Alucinação.

Enquanto Elis imortalizou “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” em andamentos consideravelmente mais rápidos (assim como os Los Hermanos viriam a fazer, décadas depois, com “A Palo Seco”), Belchior canta tão lentamente quanto possível, feito uma provocação, uma provação e, ao mesmo tempo, uma explicação. É preciso suportar, merecer ouvir cada verso do disco; se for capaz, haverá uma verdade profunda ao fim das dez canções.

 

Sentido similar pode ser encontrado no disco seguinte, Coração Selvagem, em clássicos como “Galos, Noites e Quintais”, “Todo Sujo de Batom”, “Carisma”, a faixa título e, é claro, “Paralelas”, uma das mais belas e regravadas canções da obra de Belchior.

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Capa de Coração Selvagem

Juntam-se a tal lista outros clássicos espalhados por sua carreira, como “Na Hora do Almoço”, “Divina Comédia Humana”, “Medo de Avião”, “Comentário a Respeito de John” e a sensacional “Mucuripe” (composta junto com Fagner, que catapultou o início da carreira de ambos) e temos o início da dimensão de tal obra.

Depois de sua morte, muitas homenagens virão – mas o grande tributo parece ser o destino da obra de Belchior, que, ainda que quase sempre esquecida pela mídia, parece fadada a se eternizar a cada geração que, indignada diante do mundo, sedenta por sentido e plena em sentimentalidades e indignações, redescobre o cantor.

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© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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