Arte

A inquietação e a liberdade como as verdadeiras homenagens ao cantor Belchior

Vitor Paiva - 02/05/2017 | Atualizada em - 06/02/2021

A alcunha de “maldito” no campo das artes e principalmente da música popular costuma significar dois polos em total paradoxo. Ofensa e celebração, o rótulo de maldito pode conferir certo selo de qualidade, como reconhecimento da grande importância de um compositor que cria seu trabalho sem se submeter às exigências estéticas do mercado. Por outro lado, o maldito é aquele que, ao decidir justamente não se submeter aos parâmetros midiáticos e mercadológicos, acaba um tanto condenado a viver à margem, sem os louros e os ouros que merecia e que tantos outros artistas, trabalhando mais claramente na tênue fronteira entre o sucesso comercial e o sucesso de crítica, acabam por ganhar.

 Belchior; Cantor

Tom Zé, Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Itamar Assumpção e Luiz Melodia são alguns bons exemplos de artistas que, ao serem considerados “malditos” (já que eles próprios provavelmente não se viram assim, nem necessariamente celebraram o rótulo) equilibraram-se entre o peso e a glória de tal título. Entre tais, sobrevoa marginal e magistral, a obra e a vida do cearense Belchior – um artista em que glória e o peso da glória se tornaram as duas faces de sua moeda, como maldição e medalha. Anarquista, libertário, iconoclasta, romântico, utópico, filosófico e cínico, Belchior foi tudo que que quis, que pôde , que lhe permitiram ser.

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Belchior não retomou os holofotes com um grande disco de retorno, não surfou em ondas de reconhecimento tardio, não aproveitou o verniz que o tempo oferece a uma carreira longeva, nem lutou para que, tantos anos depois, sua obra fosse reconhecida como o que de fato é: uma das mais prolíficas, contundentes, incorruptíveis e genuínas coleções de canções autorais da história do Brasil. O cantor e compositor nascido em Sobral, no interior do estado do Ceará, simplesmente manteve-se coerente com suas próprias palavras, desde sempre e até o fim: desinteressado por qualquer fantasia, pelo algo mais, amar e mudar as coisas lhe interessava mais.

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O artista não quis ser uma celebridade, nem obedecer aos desmandos e ao temperamento de um mercado capaz de moer corações e mentes. E quando não estava cantando, Belchior não poupava ninguém: a mídia, a indústria, o sucesso, os governos, o dinheiro, o trabalho, o capitalismo, nada estava fora do alcance de seu olhar crítico. O cantor faleceu no último dia 29 aparentemente exatamente como quis: ouvindo música, sem se submeter a nada ou ninguém, sem dar satisfações a qualquer “mestre”, como um artista tão livre quanto possível. Sempre desobedecer, nunca reverenciar, ele escreveu, como um mantra, que seguiu à risca – inclusive sobre si próprio.

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Acontece que Belchior foi um animal raro entre os malditos que, ao longo de sua carreira – e a partir especialmente de regravações célebres de canções suas, com especial destaque para Elis Regina em “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida” – alcançou bastante êxito não só de crítica, mas também comercial. A mídia, portanto, sempre soube que tinha em Belchior um artista ao mesmo tempo popular e refinado – e que, por isso, explorar o personagem seria sempre garantia de interesse do público.

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Foi assim nas últimas investidas jornalísticas para investigar o suposto “desaparecimento” do artista, sugerindo e explorando tal trajetória pelo viés da loucura, das finanças, do exótico, do bizarro – como se realmente desaparecer, ou mesmo possuir dívidas, fosse um gesto extraterreno, e não algo comum e recorrente, até mesmo um direito, mesmo que questionável em um contexto íntimo, que qualquer pessoa objetivamente possui. A maneira com que Belchior, em entrevista, rejeitou a condição de “celebridade” que lhe era atribuída e que justificaria a investigação midiática sobre seu “desaparecimento”, em favor de sua condição de “artista” – na qual, quem precisa de fato falar é a obra, e não a vida do autor – nos lembrou da verve, da inteligência e da autonomia que permitiu a ele criar uma obra realmente original e crítica no cenário da música brasileira da segunda metade da década de 1970.

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Belchior e Fagner

Quando a turma de compositores cearenses tomou a cena musical brasileira, no início dos anos 1970, o “pessoal do Ceará”, como ficou o conhecido o grupo formado por Fagner, Ednardo e Belchior, seguia uma tradição de franca oposição aos movimentos musicais dominantes anteriores – e o amoroso alvo da vez foi então a Tropicália, a poderosa influência que precisava ser enfrentada para que aquela geração pudesse trilhar seu próprio caminho – um enfrentamento como uma declaração de amor. Caetano é chamado por Belchior de “antigo compositor baiano” – que, como um dedo em riste, nos lembra que “nada é divino, nada é maravilhoso”.

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Mas Belchior cometeu tal “revisão” do cenário brasileiro feito um poeta, um filósofo: seu grande alvo era, na verdade, a ilusão. Se há elementos do gestual, da ética e do estilo de Bob Dylan na obra de Belchior, há também – e muito mais – algo de profundamente nordestino, advindo dos repentes, dos cordéis e dos poetas populares do Ceará – é essa amalgama que torna ele um artista peculiar, ao mesmo tempo refinado, quase hermético, e extremamente popular.

Pois “desaparecer” sem que isso signifique a morte de sua obra – para muito além da morte do corpo – não é para qualquer um. O poeta francês Arthur Rimbaud talvez tenha sido pioneiro quando, por volta de 1875 (cerca de exatos 100 anos antes do surgimento da turma do Ceará) largou a poesia definitivamente aos 21 anos para viajar pelo mundo, terminando seus jovens dias como um mercador de café e armas no continente africano. Rimbaud morreu aos 37 anos, na França, mas sua obra permaneceu, desde então e para sempre, como uma espécie de ponto alto e fundador da poesia moderna.

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Bob Dylan 

Outro que se deu o direito e teve a coragem de simplesmente desaparecer foi justamente Dylan. Em julho de 1966 e no auge do culto que havia se formado ao seu redor – feito fosse ele uma espécie de profeta das turbulências e revoluções dos anos 1960 – o cantor supostamente sofreu um acidente de moto que o deixou recluso por mais de um ano e meio, sem lançar discos, e quase oito anos sem fazer uma turnê. Até hoje se afirma, porém, que Dylan na realidade forjou o próprio acidente e criou o subterfúgio para tirar férias das pressões e exigências da fama. O desaparecimento, porém, viria a aumentar a mitologia ao redor do seus trabalho.

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John Lennon e Sean, no colo de Yoko, durante a segunda metade da década de 1970

John Lennon foi outro que de certa forma desapareceu, depois do nascimento de seu segundo filho, Sean, na mesma metade da década de 1970. Não foi necessário, no entanto, encenar situação alguma, e todos sabiam onde ele estava: em casa, cozinhando e cuidando de seu segundo filho. Por cinco anos o guitarrista e compositor dos Beatles permaneceu sem lançar discos, dando toda sua atenção ao pequeno Sean, alcançando uma redenção caseira para a desilusão que via então nos ecos das lutas de sua geração. Quando, em 1980, retomou os holofotes pelo lançamento do excelente Double Fantasy, Lennon não veria o ano se encerrar, assassinado em 08 de dezembro.

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É a essa lista que junta-se Belchior. Para muito além de qualquer tentativa de equivalência crítica, o importante em tal reunião é o espírito de inquietação, indignação, desilusão, e o gesto compulsivamente franco de apontar, iluminar, denunciar, gritar e sublinhar tal desilusão a qualquer custo – pela sangrenta pena do poeta.

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O cantor com sua mulher, na época em que ‘desapareceu’ e foi ‘encontrado’ pela mídia

Foi Belchior quem melhor cantou a coleção de paradoxos que regia o sonho hippie em um Brasil afogado em plena ditadura, ou dos desejos de luta já claramente inócuos contra o regime e o status quo – e, ao mesmo tempo, quem mais soube manter acesa a chama essencial do questionamento, enfrentamento e até mesmo da utopia, apesar de tudo.

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Alucinação, segundo disco de carreira de Belchior, de 1976, é sem dúvida o ponto alto de sua obra. e um dos pontos altos da história da MPB. Nele o compositor canta e enuncia como um orador, alguém consciente, a cada faixa, da relevância do que fala – e, ao mesmo tempo, como verdadeiro enigma, algo sempre ainda a ser descoberto. Na grande reunião de clássicos que é Alucinação – “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, “Como Nossos Pais”, “Velha Roupa Colorida”, “A Palo Seco” e a faixa título são algumas das canções do disco – Belchior se põe como um pensador, um louco, um professor e, na mesma medida, um cantor popular, quase tímido, vindo do interior, a fim de ver seu refrão sendo repetido pelo público.

E esses parecem ser os grandes elementos que fizeram de Alucinação um verdadeiro documento de época: o espírito de quem veio do interior para a cidade grande, de quem era jovem e começava a perder a crença nos sonhos de liberdade, de quem estava amordaçado e encurralado diante da violência do estado, da ausência de democracia, de perspectiva e utopia.

Trata-se de uma obra-prima, e a maneira com que Belchior executa seus clássicos – especialmente em oposição a como outros artistas os tocavam e cantavam – parece ressaltar algo de profético, de poético, de mais profundo do que uma mera letra de música nos versos de Alucinação. Enquanto Elis imortalizou “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” em andamentos consideravelmente mais rápidos, em Belchior tudo é tão lento quanto possível, feito uma provocação, uma provação e, ao mesmo tempo, uma explicação. É preciso suportar, merecer ouvir cada verso do disco: se for capaz, haverá uma verdade profunda ao fim das dez canções. Sentido similar pode ser encontrado no disco seguinte, Coração Selvagem, em clássicos como “Galos, Noites e Quintais”, “Todo Sujo de Batom”, “Carisma”, a faixa título e, é claro, “Paralelas”, uma das mais belas e regravadas canções de sua obra.

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Capa de Coração Selvagem

Juntam-se a tal lista outros clássicos espalhados por sua carreira, como “Na Hora do Almoço”, “Divina Comédia Humana”, “Medo de Avião”, “Comentário a Respeito de John” e a sensacional “Mucuripe” (composta junto com Fagner, que catapultou o início da carreira de ambos) e temos o início da dimensão de tal obra.

Por conta de sua morte, provavelmente muitas homenagens virão – e é justo que venham: mas o grande tributo parece ser mesmo a liberdade que aprendemos e podemos exercer com tais canções, e o sentido aplicado por nós à obra de Belchior que, mesmo que eventualmente esquecida pela mídia, é  fadada a se eternizar a cada geração que, indignada diante do mundo, sedenta por sentido, plena e furiosa em sentimentalidades, redescobre o cantor.

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© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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