Debate

Eles foram à Cracolândia para lembrar que todo dependente químico tem uma história de vida

por: Redação Hypeness

Pobreza, abandono, violência, solidão, desesperança. Elementos que se combinam comumente nas histórias de vida de quem recorre a drogas pesadas como o crack em busca de algum alívio momentâneo. Enquanto a palavra Cracolândia gera debates em São Paulo e no país, um grupo de amigos foi ao centro da capital para lembrar que existem diferentes histórias de vida entre os dependentes químicos.

“Histórias Apagadas” é o nome da série produzida por Isabella R., Júlia V., Marcelo M. e Filipe R. Aproveitando a comoção em torno de Andreas Von Richthofen, que foi encontrado sob suposto uso de drogas e gerou empatia por causa de sua trajetória conhecida para lembrar que os dramas anônimos também devem ser levados em consideração.

O grupo fotografou alguns usuários de crack no centro da capital paulista, com uma fotografia de Andreas sobre o rosto e segurando uma mensagem que questiona a diferença de avaliação feita em relação ao jovem e a dependentes químicos anônimos. Além disso, eles conversaram com os usuários para conhecer e divulgar suas histórias, buscando mais humanização.

Belinda, 37

Nascida no interior de São Paulo, foi renegada pela própria mãe e criada pelo pai, que a estuprava com frequência. Começou a usar o crack ainda jovem para “deixar a vida mais tolerável” (sic).

Arrumou um namorado para sair logo de casa, mas não imaginava que essa escolha pioraria ainda mais sua situação. Largou tudo e se mudou para a capital com ele, um cara viciado e agressivo, que a obrigava a se prostituir para comprar droga para os dois.

Hoje em dia o seu sorriso já não tem mais nenhum dente sequer – ela explica que todos caíram devido ao uso da droga e aos constantes espancamentos do seu ex. Ficou grávida, sofreu violência obstétrica em uma clínica clandestina, o único lugar acessível para dar a luz à sua filha Sassá, hoje com 12 anos.

Ela se culpa profundamente por não ter sido uma boa mãe e pede para que o grupo procure sua filha no Facebook, a última esperança de contato. “Sabrina Evelyn, com Y, anotou direitinho? Deixa eu ver se você escreveu certo.”

Depois de checar com afinco ela agradece e diz para o grupo mandaruma mensagem falando que a sua mamãe está longe mas a ama muito. “É muito importante que ela saiba o quanto eu a amo, mesmo que ela nunca vá me perdoar”, disse enquanto secava as lágrimas.

Ela pede um abraço, se recompõe e diz que a vida continua. E, antes de ir embora, agradece por esse dia, que considera especial. “Hoje eu já ganhei um salgado e um abraço.” comemora, antes de sair vagando novamente.

 

Chéri, 32

Quando se assumiu homossexual, foi expulsa de casa ainda novinha. Teve que ir tentar ganhar a vida nas ruas fazendo programas por preços ínfimos – apenas o suficiente para comprar comida. Caiu na droga porque se sentia sozinha e exausta da rotina que a violava todos os dias.

Primeiro, foi a cocaína. O crack veio logo depois – e não foi embora até hoje. Ela comenta que está descabelada e se desculpa pela bagunça que domina o colchão de espuma furado: um amontoado de latas, roupas maltrapilhas, cachimbos e sacos de salgadinho barato.

Chéri explica que não está boa para tirar foto porque levou uma surra de uns moleques outro dia desses. “Preciso decidir que roupa usar hoje”, ela diz, separando dois panos enquanto olha em pânico para todos os lados. Ela parece ansiosa. Outra usuária diz que é o ciclo da droga. “Hoje ela não está num dia bom”, conclui. 

 

Jair, 40

“Vocês podem até não acreditar, mas eu era enfermeiro”, diz Jair, que fica com os olhos instantaneamente cheios d’água. Ganhava a vida fazendo trabalho voluntário e viajando de um lugar por outro construindo casas para as pessoas carentes. Diz que já rodou o Brasil e já levantou inúmeras moradias nos próprios braços.

O trabalho era satisfatório, o fazia feliz. Até que uma tragédia aconteceu na sua família: depois de anos de espancamento, seu cunhado matou sua irmã. Dois tiros. Já era. Ela era a pessoa mais próxima de Jair, que não tinha contato com os pais. “Depois disso, foi ladeira abaixo. Perdi a vontade de viver. Por isso hoje vivo aqui.” se explica. Mas ressalta que já teve uma “vida de verdade”, antes de tudo acontecer.

Fotos e histórias via Isabella R., Júlia V., Marcelo M. e Filipe R.

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Redação Hypeness
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