Debate

Pai de um dos nazistas de Charlottesville escreve carta aberta após conta no Twitter identificar o filho

por: Vitor Paiva

Se o presidente Donald Trump demorou dois longos dias para ter coragem de repudiar e nomear os supremacistas brancos, racistas e nazistas que marcharam na violenta manifestação de extrema direita que tomou conta da cidade de Charlottesville, no estado da Virginia, nos EUA, nos últimos dias 12 e 13 de agosto, ao menos muitas outras pessoas tiveram a bravura de fazê-lo imediatamente – inclusive o pai de um dos nazistas.

Uma conta no Twitter, precisamente batizada de Yes, You’re Racist (Sim, você é racista) está identificando e denunciando as pessoas que aparecem nas fotos da manifestação Unite The Right (Unir a direita), ocorrida na pequena cidade, que terminou com uma pessoa morta e dezenas de feridos.


A manifestação de extrema direita em Charlottesville 

Foi através da denuncia dessa conta que Pearce Tefft, pai do jovem Peter Tefft, tomou conhecimento da participação do filho e, triste porém ciente do significado de seu gesto, decidiu escrever uma carta aberta em um jornal local para repudiar de forma contundente a orientação política de seu filho.

Acima: Peter Tefft; abaixo: cartaz de “alerta nazista” a respeito das atividades de Peter. “Se você o vir, por favor faça-o ter certeza de que suas palavras e ações não são bem vindas em nossa comunidade” 

Segundo o próprio Pearce, seu filho é um “nacionalista branco declarado” que um dia afirmou que “a questão sobre nós, fascistas, não é que não acreditemos em liberdade de expressão. Você pode dizer o que quiser. Nós apenas vamos te jogar em um forno”.

Outros familiares referiram-se a Peter como um “maníaco que entrou em um buraco negro da internet e se tornou um nazista louco”, ou como alguém de quem eles sentem medo.


Peter na manifestação Unite The Right, em Charlottesville

A breve e comovente carta fala por si, e segue traduzida abaixo, como um importante documento sobre tais pessoas e o momento que o país e o mundo vivem. Outros nazistas denunciados pela conta no Twitter já estão sendo investigados, alguns já tendo perdido o emprego.

“Meu nome é Pearce Tefft, e escrevo a todos, a respeito do meu filho mais novo, Peter Tefft, um nacionalista branco declarado que tem aparecido em diversas reportagens locais nos últimos meses.

Na última sexta-feira meu filho viajou para Charlottesville, e foi entrevistado por uma equipe de jornalistas enquanto marchava ao lado de outros nacionalistas brancos, que alegadamente acabaram matando uma pessoa.

Eu, junto de todos os seus irmãos e de sua família, desejo contundentemente repudiar a retórica e as ações torpes, odiosas e racistas de meu filho. Não sabemos exatamente onde ele aprendeu tais crenças. Não foi em casa.

Tenho dividido minha casa e meu coração com amigos e conhecidos de todas as raças, gêneros e credos. Ensinei às minhas crianças que todos os homens e mulheres são iguais. Que temos de amar a todos igualmente.  

Evidentemente Peter decidiu por desaprender tais lições, para desgosto e sofrimento meu e de sua família. Estávamos em silêncio até agora, mas agora vemos que isso foi um erro. Foi o silêncio de boas pessoas que permitiu que os nazistas florescessem da primeira vez, e é o silêncio de boas pessoas que está permitindo que floresçam agora.

Peter Tefft, meu filho, não é mais bem-vindo em nossas reuniões familiares. Eu rezo para que meu pródigo filho renuncie suas crenças odiosas e volte para casa. Só assim poderei novamente sorrir.

Suas opiniões de ódio estão trazendo retóricas de ódio na direção de seus irmãos, primos, sobrinhos e sobrinhas, assim como de seus pais. Somos culpados de tal associação? Novamente, nenhuma de suas crenças ele aprendeu em casa. Nós não aceitamos e jamais aceitaremos sua deturpada visão de mundo.

Ele certa vez disse, em tom jocoso: ‘a questão sobre nós, fascistas, não é que não acreditemos em liberdade de expressão. Você pode dizer o que quiser. Nós apenas vamos te jogar em um forno’.

Peter, você vai ter que atirar nossos corpos no forno também. Por favor, filho, renuncie ao ódio, aceite e ame a todos”.

Bandeiras e saudações nazistas marcharam ao lado de bandeiras dos confederados da guerra civil americana em Charlottesville

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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