Ciência

Como casinhas de bonecas criadas por uma americana nos anos 1940 ajudaram a desvendar crimes violentos nos EUA

por: Vitor Paiva

Se hoje a ciência forense conta com a mais alta tecnologia para desvendar crimes a partir das cenas onde os delitos aconteceram – misturando física, química e biologia através dos mais refinados e modernos processos tecnológicos.

Acontece que a ciência forense deu seus primeiros passos feito fosse uma brincadeira de criança. Literalmente.

Nos anos 1940, quando tais estudos se aprofundaram pelas mãos da americana Frances Glessner Lee (também conhecida como “a mãe da ciência forense”), a tática usada por ela foram as mais simples disponíveis para a época.

Para aprimorar as capacidades investigativas de um policial, detetive, legista (ou mesmo de um curioso), era preciso recorrer às casas de bonecas desenvolvidas por Frances.

 

Filha de um industrial rico da cidade de Chicago, Frances não pôde cursar uma faculdade. O motivo? Por ser mulher. Seu irmão, que estudou em Harvard, um dia trouxe para casa um colega estudante de medicina especializado em investigações sobre causas de morte – e esse encontro disparou em Frances o interesse pelas ciências forenses.

Frances Lee construindo suas casas de bonecas

Quando enfim herdou a fortuna da família e, com isso, sua liberdade, ela decidiu, aos 52 anos, investir no Departamento de Medicina Legal de Harvard, o primeiro dos EUA. Seu departamento foi batizado de Nutshell Studies of Unexplained Death (Algo como Estudos Resumidos de Mortes Não Explicadasnutshell em inglês quer dizer “casca de noz”, e quer dizer “em resumo” ou “em suma”).

Os estudos forenses ainda eram rudimentares de modo geral, e Frances já era uma especialista, oferecendo palestras e cursos por todo país – e em cada um desses cursos, usava suas 20 casas de boneca devidamente preparadas para ilustrar e testar seus alunos. Cada uma trazia uma cena criminal real que Frances havia visitado ou autopsias que havia acompanhado. Repletas de pistas certeiras e algumas pistas falsas, as casas eram exploradas com lupas e pinças pelos alunos para desvendarem crimes.

Cada casa dessas custava uma pequena fortuna, mas tudo era patrocinado pessoalmente por Frances – que também costumava oferecer um luxuoso jantar no hotel Ritz para seus alunos após a conclusão do curso.

Com sua morte, em 1966, o departamento foi fechado, mas suas bonecas seguem em uso, como parte dos estudos de Ciência Policial também em Harvard. Cerca de 70 anos depois, as casas de bonecas da mãe das ciências forenses seguem ajudando a desvendar crimes violentos nos EUA, como parte de um seríssimo assunto de adultos.

Mais uma história de uma mulher que ajudou o mundo avançar, mas jamais viu suas criações receberem as devidas glórias.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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