Debate

Ela fez um relato sobre depressão e suicídio para lembrar da importância do Setembro Amarelo

por: Mari Dutra

Uma das coisas mais difíceis quando se fala sobre depressão é encontrar alguém que foi diagnosticado com a doença e esteja disposto a falar abertamente sobre o assunto. Mas a produtora de cinema Natália Contesini, de 30 anos, tem muito a dizer sobre o assunto.

Diagnosticada com depressão aos 17 anos, ela convive com a doença há mais de uma década. Neste ano, quando a depressão falou mais alto, tentou suicídio pela primeira vez. Apesar de ser um episódio traumático, Natália sabe a importância de falar sobre o assunto e o poder do diálogo para quebrar estigmas.

Neste mês acontece a campanha Setembro Amarelo, que busca conscientizar sobre o suicídio como uma forma de prevenção. Inspirados por uma publicação feita por Natália no Facebook, em que conta sua história, decidimos conversar com ela sobre o assunto.

Hypeness – No Brasil, estima-se que mais de 5% da população seja afetada pela depressão. Apesar de ser uma doença razoavelmente comum, ainda há muito estigma em torno dela. Como foi para você ser diagnosticada com depressão e quais os principais desafios enfrentados desde o diagnóstico?

Natália No começo eu não sabia direito o que estava acontecendo. Achei que fosse uma fase. Ia passar. Mas com o passar do tempo percebi que que realmente era uma doença que eu tinha. E nessa hora foi difícil, porque era algo que ia fazer parte de mim. E muitas vezes ainda tenho dificuldade em aceitar que preciso tomar remédios regularmente e que provavelmente terei que tomá-los pra sempre. Existe uma parte de mim que ainda não aceita direito.

A pior coisa da depressão (pelo menos pra mim) é sempre me sentir por baixo. Me achar menos, me sentir incapaz, não me sentir querida. Esse sentimento é tão forte que eu realmente acho que ninguém se importa. Isso é o que mais dói. Mas a depressão também pode paralisar, o que também é muito ruim. A gente sai menos, não tem vontade de nada. E isso prejudica bastante o convívio social, familiar e profissional.

H – Você contou que chegou a tentar suicídio no início deste ano. Como está lidando com esse momento?

N – Não sei se ele foi totalmente superado ainda. Nem sei se será. Esse acontecimento é muito forte, porque não atinge só a mim, mas também a minha família e as pessoas que se importam comigo. Mas uma forma que eu encontrei de tentar elaborar melhor foi a de me abrir com as pessoas. E isso tem ajudado bastante. Faço muita terapia também, o que considero fundamental.

H – Este ano você chegou a ser internada em uma clínica psiquiátrica e percebeu que, apesar do estigma que envolve este tipo de procedimento, a internação foi uma das melhores coisas que poderia ter acontecido no seu caso. O que fez com que você chegasse a essa conclusão?

N – Quando você é internado você percebe que tem um monte de gente lá que está passando pelas mesmas coisas que você. E são pessoas normais, que têm empregos, família, e que provavelmente a gente nem imaginaria que um dia poderiam ser internados em uma clínica psiquiátrica. E isso dá um certo conforto, porque você percebe que não está sozinho nessa. E são pessoas que tem muito mais empatia com a doença, porque sabem o que estamos passando. E por causa disso a internação acabou sendo muito boa pra mim. Comecei a enxergar a minha própria doença e a mim mesma com um olhar menos julgador.

H – Em seu relato você lembra o quanto a depressão é uma doença solitária e sobre o fato de que muitas pessoas se afastam de quem está “pra baixo”. Mesmo assim, há pessoas que querem ajudar e não sabem como. Que atitudes você recomenda nesses casos?

N – Essa é uma questão bem delicada e importante. Cada pessoa é única e cada dor também, mas no geral é importante se mostrar presente, não forçar a barra, tentar entender o que está acontecendo e não julgar e ter paciência, muita paciência. E, claro, buscar ajuda de profissionais. Quando a depressão está muito forte, as pessoas não conseguem, sozinhas, buscar essa ajuda, então cabe às pessoas mais próximas levar a pessoa que está em uma crise ao médico. E isso é imprescindível.

H – Tem alguma coisa que você queira acrescentar ou algum recado para quem, assim como você, foi diagnosticado com depressão?

N – Na hora da crise as pessoas não conseguem enxergar uma saída, mas ela existe. É uma batalha diária, mas possível. E eu não sei o que pode acontecer comigo. Pode ser que eu caia de novo e eu mesma seja essa pessoa que não enxerga a saída. Mas, neste momento, em que estou em uma fase melhor, eu sei que existe um caminho. E me apego nele. 

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Mari Dutra
Criadora do Quase Nômade, contadora de histórias, minimalista e confusa por natureza, com os dois pés (e um pet) no mundo. Chega mais perto no Instagram.

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