Debate

Textão de médica no Facebook nos lembra como a tecnologia nos fez escravos do imediatismo

por: Tuka Pereira

A facilidade e velocidade com que as pessoas se comunicam hoje em dia é algo que deixaria Antonio Meucci, o verdadeiro inventor do telefone, bastante assustado e ao mesmo tempo deslumbrado.

Mas, se por um lado esta possibilidade é fascinante, a tecnologia também nos transformou em verdadeiros escravos do imediatismo.

É o dia inteiro assim:

Um simples celular com um aplicativo de mensagem agora é uma porta aberta para que as pessoas se sintam à vontade para – a qualquer hora do dia ou da noite (incluindo madrugadas), aos finais de semana ou feriados – entrarem em contato sobre questões de trabalho e exijam respostas imediatas. É o que costuma acontecer com a médica Nathália Fontana.

Depois de aguentar muitas situações, ela usou seu Facebook para fazer um desabafo e contou não ter atendido a ligação de uma mãe e esta lhe mandou uma mensagem dizendo estar insatisfeita e triste com ela.

Gente, o uso das tecnologias atuais trouxe uma liberdade e imediatismo assustadores! Eu passo horas respondendo urgências e orientando pacientes, falo com eles até mais do que respondo mensagens pessoais, porque minha família entende e respeita que eu sou mãe, tenho problemas pessoais, médica que trabalha em 3 lugares diferentes, pessoa! Então às vezes eu não vou conseguir atender alguma ligação ou vou demorar a responder alguma mensagem’. Escreveu.

Leia o desabafo completo (que reproduzimos abaixo) e, da próxima vez que pensar em perguntar sobre aquela planilha no sábado para seu colega ou sobre a pomada para sua dermatologista às 22h00, apenas não faça!

“Hoje aconteceu uma coisa muito chata, mas só resolvi falar porque, infelizmente, não foi a primeira vez. Hoje não atendi a ligação de uma mãe. Eu estava no hospital fazendo a sala de parto de um bebê. Mas eu poderia estar na minha aula de inglês (que não tenho tempo pra fazer), na academia (que não tenho tempo pra fazer), ensinando a matéria da prova de amanhã pra minha filha (que não tive tempo pra fazer) ou dormindo (o que só estou indo fazer agora 03:44 da madrugada). Eu não atendi a ligação de uma mãe. E isso a fez me mandar mensagens falando que estava totalmente insatisfeita e muito triste comigo. (Só a ponto de esclarecimento: eu não estava acompanhando o filho dela nesse quadro). Gente, o uso das tecnologias atuais trouxe uma liberdade e imediatismo assustadores! Eu passo horas respondendo urgências e orientando pacientes, falo com eles até mais do que respondo mensagens pessoais, porque minha família entende e respeita que eu sou mãe, tenho problemas pessoais, médica que trabalha em 3 lugares diferentes, pessoa! Então às vezes eu não vou conseguir atender alguma ligação ou vou demorar a responder alguma mensagem. Quando temos pacientes graves, internados ou em acompanhamento eu tiro o celular do vibratório, mas no dia a dia fica no mudo mesmo porque se não eu não faço mais nada a não ser isso! Não atendo, não trabalho, não como, não durmo. Infelizmente urgências não tem mesmo hora, mas muitas pessoas não sabem lidar com a liberdade que essas tecnologias oferecem! Já recebi 47 mensagens com “?” das 3-5 da manhã por não ter respondido se era normal a criança ter feito cocô verde sem estar sentindo mais nada, já recebi 15 fotos de remédios diferentes num sábado as 22:30 porque a mãe estava fazendo um limpa na farmácia dela e queria saber pra que cada remédio servia, já recebi mensagem me perguntando qual bóia deveria comprar pro seu filho as 00:30. Então eu tenho que filtrar alguns casos, orientar outros e, o principal: eu atendo e oriento porque quero! Médico não é obrigado a disponibilizar o celular pra paciente, eu não recebo a mais por isso e nem consulto pelo telefone. Então gente, por favor, antes de ficarem com raiva do seu médico não atender, pensem que ele também é um ser humano, pode estar vivendo seus únicos momentos com sua família ou atendendo a outros pais tão desesperados quanto vocês num hospital. Eu só mantenho o celular porque quero que saibam que tenham sim, a quem recorrer quando precisem. Mas isso não me obrigada ou me permite poder atendê-lo 24horas por dia, 7 dias todas as semanas e meses do ano, até porque em alguns hospitais nem podemos usá-lo. Desabafo total, até porque essa mãezinha em questão já foi socorrida inúmeras vezes por mim em várias noites e finais de semana e realmente era muito querida, do tipo que a gente menos espera que possa agir dessa forma. Boa noite, ops…Bom dia!”

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Imagens: Reprodução


Tuka Pereira
Jornalista há mais de uma década e 'escrevinhadora' há muito mais tempo, Tuka Pereira aborda feminismo a gatinhos fofos com a mesma empolgação. Se existe algo que gosta mais do que escrever é carimbar o passaporte. Já esteve em boa parte do mundo e todo dinheiro que ganha gasta em viagens.

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