Debate

Estudante branco que fraudou cotas para negros se diz arrependido: “Fiz uma coisa erradíssima”

por: João Vieira

O estudante Vinicius Loures, de 23 anos, que ficou conhecido por fraudar o sistema de cotas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e provocar uma série de discussões sobre representatividade, se disse arrependido do que fez e abandonou a vaga que havia ocupado no curso de medicina.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Vinicius, que é loiro e branco, disse que sempre se sentiu incomodado pelo que havia feito. “Eu sabia que estava errado, sentia no olhar de pessoas que não me conheciam e não se aproximavam porque eu era o ‘manezão’ que burlou as cotas, o sem-caráter”, afirmou ele.

O estudante frequentou a faculdade por 50 dias até ser denunciado pelo movimento negro. Ele, que estou a vida toda em escola particular, entrou pelo sistema de cotas por ter se formado no ensino médio pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas (Cefet-MG).

Vinicius Loures fraudou sistema de cotas

Ele garantiu ter compreendido a revolta que se formou em volta do seu caso. “De certa forma entendi, porque eu fiz uma coisa erradíssima e isso voltou pesado. Se você é um negro que sofre todas essas situações preconceituosas na sociedade e alguém vai e rouba sua vaga, é algo que, no mínimo, gera raiva“, afirmou ao jornal.

Vinicius também disse ser a favor do sistema de cotas e que passou a entender melhor como a falta de representatividade dificulta a vida do acadêmico negro. “A partir do momento que eu comecei a ocupar o espaço de um negro, passei a perceber essa discrepância de forma muito mais nítida”, contou.

“Assim, na faculdade, os negros não chegam a 5%; na academia, que nem é dessas ‘topzeira’, a maioria é branca, as pessoas negras são a faxineira, o segurança”.

Universidade Federal de Minas Gerais

No Enem, Loures havia tirado 772 pontos, quatro a menos do que precisaria, segundo seus próprios cálculos, para entrar no subgrupo de medicina da UFMG. Viu uma oportunidade ao descobrir que, concorrendo entre candidatos autodeclarados negros, pardos ou indígenas, conseguiria a nota.

“Não parei para pensar nas consequências do ato em si, agi no impulso, não queria voltar para o cursinho nem ir para uma universidade fora de Belo Horizonte”.

Vinicius agora quer entrar do jeito certo e, para isso, disse ter conseguido até o apoio daqueles que prejudicou. “Acho que superei essa história. Recebi mensagem de estudantes negros apoiando a minha decisão [de sair da vaga], mas é uma parada que vai ficar marcada”, ressaltou.

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Fotos: foto 1: Folhapress; foto 2: Divulgação


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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