Seleção Hypeness

12 melhores discos de dor de cotovelo e separação da história

por: Vitor Paiva

Que o amor e suas maravilhas, mas principalmente suas dores, servem de inspiração para compositores criarem obras imortais, canções com as quais nos identificamos e sobre as quais nos apoiamos nos momentos mais difíceis, isso todos sabem – é parte do encantamento que as canções nos provocam. Alguns artistas, porém, dedicaram-se com mais afinco à transposição de suas sentimentalidades mais profundas, especialmente em momentos pessoais de desilusão, como verdadeiros kamikazes da canção, sangrando seus corações quebrados diretamente para as faixas de uma gravação.

Não por acaso, um dos mais comemorados discos sobre separação chama-se Blood On The Tracks, ou sangue nas faixas, considerado uma das obras-primas da carreira de Bob Dylan. Lançado em 1975, ouvi-lo nos oferece de fato a sensação de que o compositor americano, tão acostumado a falar sobre o mundo, de repente virou sua sangrenta metralhadora poética para si e sua dor, diante da separação que passava com sua ex-mulher, Sara.

Há, antes e depois do disco de Dylan, porém, uma verdadeira tradição de discos compostos inteiramente por canções sobre a fossa e a dor de cotovelo. Feito fossem discos conceituais, com temas como saudade, raiva, desejo e ausência perpassando todas as canções, tais obras se imortalizam por significarem, com elegância, poesia, um tanto de desespero e tristeza, alguns dos sentimentos mais difíceis de se enfrentar, justamente quando estamos sozinhos, sentindo a falta (ou o alívio) por termos encerrado uma relação.

Como boias lançadas para náufragos, tais discos podem ajudar os que sofrem a se identificarem e compreenderem a própria dor – para assim, a supera-la. Se o caso é chorar, melhor o fazer com uma grande trilha sonora – e, como era injusto com nossos corações partidos deixar alguma obra de fora, separamos aqui não 10, mas sim os 12 melhores discos de dor de cotovelo e separação da história.

A ordem em que os discos aparecem aqui é cronológica, e não qualitativa. Os discos foram dispostos dos mais novos aos mais antigos, e não do melhor ao pior da lista. Não se trata de uma competição, mas sim de uma seleção.

Recomeçar (Tim Bernardes, 2017)

Há um tanto de coragem no gesto de Tim em realizar o disco Recomeçar – sem dúvida um dos melhores de 2017. Despido do humor peculiar de sua banda O Terno, e sem a proteção vigorosa de uma banda de rock, seu primeiro disco solo aposta em canções francas e belas para despejar o que parece ser a dor do fim de um amor. Contrariando tendências atuais de produção e composição, a honestidade aguda e a coragem de se expor, devidamente abraçadas por arranjos interessantes, fazem desse disco um trabalho tocante e, ao mesmo tempo, com o qual podemos nos identificar e assoviar pela rua – e foi esse o disco que inspirou a criação dessa lista. Destaque especial para as músicas “Não”, “Ela” e “Talvez”.

21 (Adele, 2011)

A cantora e compositora inglesa Adele tinha somente 21 anos e um disco lançado quando começou a produzir seu novo disco, batizado com justamente sua idade. Sua ideia era compor um disco mais animado e contemporâneo, mas tal projeto foi inicialmente abandonado. As dores de uma separação em andamento a fizeram recorrer ao tom confessional e emocional que marcaria seu trabalho como compositora, e retomar o disco para exorcizar a tristeza de seu coração partido nas canções – quase todas escritas por Adele em parcerias.

Da descoberta de que seu ex havia começado uma nova relação logo após sua separação nasceu a canção “Someone Like You”, um dos pontos altos do disco – que já vendeu mais de 31 milhões de cópias, indo ao topo das paradas em dezenas de países do mundo, sendo o disco mais vendido do século XXI e o quarto mais vendido em todos os tempos, tornando Adele uma das maiores estrelas da música mundial. Destaque, além da canção supracitada, para “Rumour has It” e o sucesso “Rolling in the Deep”.

(Caetano Veloso, 2006) 

Por mais que a temática sexual se faça fortemente presente em , a base do gesto criativo de realização desse que não só é um dos grandes discos de Caetano como um trabalho que renovou sua sonoridade e seu público, parece mesmo ser a separação (de Paula Lavigne, também sua empresária, com quem o cantor reataria a relação mais de uma década depois) e a solidão. Ainda que não se trate unicamente desse tema – estão lá as dores da morte e os sentimentos diante de “novas pessoas” – o universo do qual o disco parece emergir é mesmo o de um homem que se vê solteiro, sozinho e não mais jovem.

Uma nova e espetacular banda de rock, que viria a acompanhar Caetano por 10 anos nos 3 discos seguintes, foi levantada para essa empreitada. Certamente uma das grandes obras da discografia desse que é um dos grandes nomes da canção mundial, tem como destaque as faixas “Não me Arrependo”, “Odeio”, “Rocks” e “Deusa Urbana”.

Back to Black (Amy Winehouse, 2006)

 

Deixando um pouco de lado o jazz que marcou seu disco de estreia, Frank, em Back to Black a cantora inglesa Amy Winehouse não só abraçou a influência R&B como o amargor de um relacionamento turbulento, violento e sempre à beira do fim com Blake Fielder-Civil enquanto tema para o repertório desse segundo disco, todo escrito por Winehouse. Back to Black se tornaria um dos mais impactantes e bem sucedidos discos do século XXI até aqui, catapultando Amy à condição de um verdadeiro ícone contemporâneo da música popular.

Esse seria também lamentavelmente seu último disco de estúdio – sua morte, com também icônicos 27 anos em 2011, a tornaria ainda mais famosa e celebrada. Back to Black tornou-se a trilha sonora do fim do amor e da vida de Amy, mas também é simplesmente uma impressionante reunião de grandes canções por uma artista que tinha ainda muito a dar. O disco todo é digno de destaque, mas vale ressaltar a faixa que o batiza, “You Know I’m No Good”, “Tears Dry On Their Own”, “Love Is a Losing Game”, além, é claro, do hit internacional “Rehab”.

Jagged Little Pill (Alanis Morrisette, 1995)

 

Conta a história que foi justamente um coração partido o que fez a então jovem cantora pop e dançante canadense Alanis Morrissette se transformar na compositora que iria redefinir o cenário musical mundial dos anos 1990 ao lançar um dos mais vendidos e celebrados discos em todos os tempos. Jagged Little Pill, a estreia internacional de Alanis e terceiro disco de sua carreira, alcançou a marca de 33 milhões de cópias vendidas, e foi lançado quando Alanis tinha somente 21 anos recém completados.

Muitas das canções do disco foram escritas a partir da separação da cantora com o ator Dave Coulier, e a franqueza pungente e inclemente e a inteligência com que escreveu suas letras, repletas de afirmações das dores e forças femininas, seu canto original e estridente, a sonoridade alternativa e as melodias irretocáveis tomaram de assalto os ouvidos e corações dos meados dos anos 1990 e até hoje. O disco bateu todos os recordes e permanece com um marco, significado em seu repertório por destaques como “Hand In My Pocket”, “Ironic”, “Head Over Feet” e “You Oughta Know”.

El Amor Despúes Del Amor (Fito Páez, 1992)

Não é exagero afirmar que o disco El Amor Despúes Del Amor, de Fito Paez, mudou a face e o tamanho do rock argentino. Desde seu lançamento, em 1992, o sétimo disco de Fito se tornou nada menos que o mais vendido da história da música popular argentina, com cerca de 1.1 milhões de cópias. O disco, no entanto, é paradoxal, como o próprio título sugere: se, por um lado, canta a dor de sua separação de Fito com a cantora Fabiana Cantilo, por outro há a alegria pelo início de sua relação com a atriz Cecília Roth.

Participam do disco outros gigantes da música argentina, como Charly Garcia (parceiro na canção “La Rueda Mágica”) e a cantora Mercedes Sosa, entre muitos outros. Há em El Amor… uma sucessão de clássicos do cantor e compositor, com destaque para “Un Vestido Y Un Amor” (regravada por aqui por Caetano Veloso), “Dos Días En La Vida”, a música-título e a canção composta e cantada com Charly.

Here, My Dear (Marvin Gaye, 1978)

Quando se casou em 1963 com Anna Gordy, irmã de Berry Gordy, criador e dono da lendária gravadora Motown, Marvin Gaye era um artista em começo de carreira, alcançando os primeiros sucessos – Anna era 17 anos mais velha que o ele. Passados 14 anos, quando enfim se separaram depois de uma longa batalha judicial, Marvin já era um gigante da música americana e um dos grandes cantores de sua época. Para acertar o divórcio, um juiz decidiu que o próximo disco do cantor, a ser lançado em 1978, teria de ter seus lucros divididos com Anna.

Marvin pensou em lançar uma coletânea ou mesmo um disco ruim, mas rapidamente a curiosa condição judicial estabelecida lhe instigou a criar um de seus melhores trabalhos – e o batizou com esse sugestivo nome, que em português quer dizer “Aqui, minha querida”. Misturando funk, soul, gospel através de letras tocantes, tomadas por raiva, medo, arrependimento e doçura, a crítica inicialmente não recebeu bem Here, My Dear – mas, com o passar dos anos, o disco foi sendo reconhecido como de fato é: um dos melhores trabalhos de Marvin Gaye, com destaque para as faixas “When Did You Stop Loving Me, When Did I Stop Loving You”, “Anger”, “Is That Enough?” e “Anna’s Song”.

Blood on the Tracks (Bob Dylan, 1975)

 

Em meados dos anos 1970, Bob Dylan definitivamente não vivia sua melhor fase. Apesar do sucesso comercial do disco Planet Waves, lançado em 1974, e de sua imensamente bem sucedida carreira, o profeta da década anterior, tão adorado e respeitado pelo público e pela crítica, agora vivia não só um momento visto como de baixa em sua produção, como havia se separado de sua esposa, Sara.

Depois de tanto falar sobre sua geração, política, guerras, lutas civis e sentimentos gerais da humanidade, Dylan então decidiu, consciente ou inconscientemente, que era hora de falar e cantar sobre si e sua separação, com sensibilidade, raiva, saudade e consciência – e assim criou um de seus melhores discos, com, como diz o título, sangue nas faixas. Blood On The Tracks é inteiramente um destaque, mas vale mencionar obras-primas como “Tangled Up In Blue”, “You’re a Big Girl Now”, “Shelter From The Storm” e principalmente “Simple Twist Of Fate”.

Lóki? (Arnaldo Baptista, 1974)

 

Ainda que originalmente o primeiro disco solo de Arnaldo Baptista após sua saída dos Mutantes trate de angústias mais gerais, como alienação, solidão, drogas, sexo e até óvnis, há por trás de todo esse grande e louco trabalho a dor e a decepção (com doses extras de melancolia e arrependimento) por conta de seu divórcio com Rita Lee, e da dolorosa saída da cantora dos Mutantes. Em Lóki? Arnaldo realizaria seu último grande trabalho antes de atravessar um longo e tenebroso processo de deterioração psiquiátrica, aprofundado pelo uso excessivo de drogas psicodélicas, que o levaria a uma espiral de diversas internações até uma tentativa de suicídio, em 1982.

Quando fez Lóki?, porém, o músico ainda residia na linha tênue e complicada entre a genialidade e loucura, depois de ter liderado e assistido o ocaso da melhor banda da história da música brasileira. Os lampejos do gênio que Arnaldo fora ainda reluzem fortes em um disco diverso, explorando psicodelicamente o rock, o jazz e o samba, com destaque para “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?”, “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”, “Desculpe” e “Vou Me Afundar Na Lingerie”, na qual a própria Rita Lee participa fazendo backing vocals.

Dor de Cotovelo (Lupcínio Rodrigues, 1973 )

Seria um pecado inafiançável se em uma lista de discos reunindo canções sobre as dores do amor e da separação não houvesse um disco do gaúcho Lupicínio Rodrigues. Seja por sua genialidade na hora de compor sobre o fim do amor, seja pelo sem fim de músicas escritas por Lupicínio ao redor do tema, ou mesmo pelo pioneirismo em reconhecer a dor de cotovelo como um gênero, o fato é que nessa lista Lupicínio não poderia faltar. A escolha do disco se deu mais pelo ilustrativo título literal, afinal qualquer disco do cantor e compositor poderiam constar nessa seleção.

Reza a lenda que foi Lupicínio quem cunhou o termo ‘dor de cotovelo’, ao ver os homens de coração partido apoiando seus cotovelos nos balcões dos bares para beberem suas mágoas. O destaque nesse disco de 1973 é sem dúvida a canção “Judiaria”, uma das pérolas mais reluzentes da obra de Lupicínio – mas vale abrir uma exceção na lista para olhar alguns de seus outros discos, e encontrar canções maravilhosas como “Vingança”, “Esse Moços, Pobres Moços”, “Nervos de Aço”, além, é claro, da insuperável “Felicidade”.

Convite Para Ouvir Maysa Nº 2 (Maysa, 1958)

Assim como no caso de Lupicínio, quase todos os discos de Maysa, ou ao menos do início de sua carreira, poderiam constar nessa lista. Uma das mais interessantes e modernas personagens da música brasileira (além de uma grande cantora, com sua peculiar voz rouca e grave), Maysa se popularizou por músicas de “fossa”, cantando sempre as infelicidades do amor. A escolha desse que é seu terceiro disco se dá não só pela excelência da gravações e pelo imenso sucesso comercial que alcançou, mas também pela presença de possivelmente seu maior sucesso, a música “Meu Mundo Caiu”, composta exclusivamente pela cantora.

Maysa foi uma mulher à frente de seu tempo, que escolheu a carreira em detrimento de seu casamento, usava calças e cabelo curto, fumava e bebia e não se furtava em dizer o que pensava. Lamentavelmente a cantora veio a falecer em um acidente de carro na ponte Rio-Niterói em 1977, com somente 40 anos. Além do clássico supracitado, destacam-se no disco as canções “Felicidade Infeliz”, “Diplomacia” e “Bom Dia Tristeza”.

In The Wee Small Hours (Frank Sinatra, 1955)

 

Por ser um disco inteiramente ao redor de temas como solidão, separação, tristeza, depressão e o amor que se perde, In The Wee Small Hours, de Frank Sinatra, é considerado por muitos como um dos primeiros discos “conceituais” da história. Seja como for, o que importa é que se trata de um dos pontos mais altos da discografia de um dos maiores cantores da história. Sinatra não era mais um jovem cantor, entrando na casa dos 30 anos, e seu público havia perdido um tanto do interesse inflamável por ele. Mais do que isso, porém, o cantor vinha de uma sucessão de relações falidas – primeiro com sua primeira esposa, Nancy Barbato, e em seguida com a atriz Ava Gardner, a principal inspiração para o disco.

A separação de Ava derrubou Sinatra, que mergulhou na sonoridade jazzística e, de sua tristeza, lançou seu melhor disco, e um dos mais importante da década de 1950 – com destaque para “Glad To Be Unhappy”, “What Is This Thing Called Love?”, “Mood Indigo”, e principalmente “In The Wee Small Hours of the Morning”.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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