Matéria Especial Hypeness

As impressões de um ‘não-usuário’ de maconha ao visitar o Uruguai depois da legalização

por: Vitor Paiva

Visitar um país pela primeira vez é sempre uma oportunidade para não só conhecer novos hábitos, crenças, culturas, comportamentos, e assim refletir e ampliar nossos próprios repertórios e maneiras de ver e estar no mundo, como de colocar em perspectiva muitas coisas que cremos e vivemos em nosso país.

Não é preciso ser um lugar especialmente exótico aos olhos brasileiros para nos oferecer questionamentos e novos aprendizados, e é o que um dos mais queridos e menores vizinhos ao sul do Brasil, o Uruguai, me ofereceu quando estive por lá, no mês de outubro, por conta de um festival literário. Dentre as muitas particularidades que esse país possui e conquistou recentemente, por motivos óbvios a maconha legalizada foi um dos destaques de tal experiência – com um detalhe importante: eu não fumo maconha.


A bela Plaza Independencia, em Montevideo

Mas já fumei, e muito. Adolesci ao longo dos anos 1990, e usei praticamente todo tipo de droga que encontrei, tendo começado cedo. Da mesma forma, parei cedo de usa-las, e aos 17 anos fumei oficialmente meu último baseado (vez ou outra, de lá pra cá, fumei outras vezes, mas sem a dedicação ou mesmo o prazer que a maconha na adolescência me trazia). Hoje as drogas que uso são as piores: álcool, cigarro, açúcar, e por aí vai – as drogas legais. E ainda assim defendo fortemente a legalização não só da maconha, como de todas as drogas.

Confesso que, de todas as drogas que usei na juventude, a maconha é a única da qual sinto saudade. E não estou falando do sentido medicinal que ela pode possuir, mas sim da própria onda, do relaxamento, das risadas, das laricas e do processo reflexivo que ela pode proporcionar. Quando deixei de fumar, porém, o fiz porquê a onda da maconha não mais estava me trazendo prazer. Certa feita, meu irmão mais novo, então adolescente, me perguntou se a maconha era uma coisa boa.

Não menti, e disse que sim, era, mas com uma singularidade importante: como toda droga, trata-se de um assunto adulto, que exige responsabilidade. Feito dirigir um carro: é delicioso e pode nos levar longe, mas é preciso ter cuidado, pois um erro ou um acaso pequeno pode provocar danos sérios. Ele entendeu. Sendo eu hoje um usuário do tabaco, adoraria poder substitui-lo por uma maconha de qualidade, comprada de forma segura, saudável, controlada e, principalmente, legal.


A “comitiva” brasileira em Montevideo para o Mundial de Poesia 2017

Das três conquistas políticas mais impactantes que o Uruguai recentemente alcançou, nem todas eram visíveis ou desfrutáveis para um turista ocasional como eu. O aborto legalizado e o casamento entre pessoas do mesmo sexo não eram uma opção viável (ainda que comemoradas e sentidas, indiretamente, nas ruas de Montevideo) mas a legalização da maconha era uma experiência que se sugeria e se oferecia cotidianamente, como algo natural, que não merecia escândalo ou estrondo – feito alguém fumando um cigarro em uma rua brasileira.


Consumidor compra maconha em farmácia no Uruguai


A maconha uruguaia

Certa vez, em Amsterdã, perguntei a um holandês que conheci, que então já devia ter quase 60 anos, o que ele achava da maconha legalizada em seu país. Ele demorou sequer para entender a pergunta. “Seria como eu perguntar o que você acha do biquíni, ou das pessoas andando sem camisa no Rio de Janeiro. Não interfere em nada na minha vida”, ele disse. “Mas a garantia de que as pessoas possam fazer isso, sem justamente incomodar ninguém, isso é importante”, completou.

Estava em Montevideo com um grupo grande de amigos e escritores do mundo todo, e logo no primeiro dia encontramos uma querida amiga uruguaia que, ao se despedir, lembrou-se que uma pessoa do nosso grupo havia lhe perguntado se tinha maconha. Ela então me pediu que abrisse a mão, e despejou um bocado da erva, verde, cheirosa e natural, como raramente se vê por aqui – e me pediu que entregasse ao tal amigo.

Essa cena aconteceu no saguão de um teatro, cheio de gente e rodeada de seguranças. Meu instinto brasileiro se acendeu na hora, e quis naturalmente esconder a maconha que preenchia minha mão. A amiga uruguaia riu, e saiu com naturalidade, sugerindo que eu relaxasse. Ninguém sequer olhou pra mim no saguão do teatro – não fazia diferença pra ninguém, feito o biquíni ou uma pessoa saindo da praia sem camisa.


A maconha generosamente oferecida ao nosso grupo, em minha mão

O ponto em questão não foi a eficácia da legalização no combate ao tráfico e à violência atrelada – a mudança no país, afinal, ainda está em processo, sendo cedo demais para qualquer análise mais profunda e efetiva – mas sim a sensação que tal mudança poderia provocar em um visitante, capaz de olhar de fora. E a resposta é tão óbvia quanto surpreendente: a sensação é nenhuma e, por isso, a mais forte.

Vi e senti várias pessoas fumando maconha nas ruas da cidade – nada muito diferente do que se vê no Rio de Janeiro ou em São Paulo – com um agravante, porém, revolucionário: não há ameaça, medo ou mesmo um crime sendo cometido. Não há a possibilidade de uma intervenção policial nem a sugestão de qualquer enfrentamento a partir de tal gesto desimportante – e isso, em verdade, melhorou e muito meu bem estar em Montevideo, mesmo sem fumar nem uma só vez.


Manifestação em Montevideo pela legalização da maconha, antes da lei ser aprovada

Pois, afinal, para além da questão criminal, o efeito propriamente da erva qualquer pessoa minimamente honesta sabe que é menor e menos ameaçador para a ordem e o bem estar alheio do que o provocado por um par de horas em uma mesa de bar regada à álcool para um consumidor de bebida.

Os tradicionais (e supostamente diabólicos) mitos a respeito da maconha hoje já podem ser lidos quase em seus opostos exatos: mais do que não fazer mal, na realidade cada vez mais se sabe o quanto a maconha potencialmente pode fazer bem à saúde – e, da mesma forma, não é somente que o indivíduo sob os efeitos da maconha não representa ameaça alguma a ninguém: em verdade fumar maconha de modo geral tranquiliza e pacifica as pessoas.

Como não fumo, meu contato com a legalização, além da generosa oferta recebida de minha amiga uruguaia e devidamente repassada aos interessados, se deu de modo geral através mesmo de minhas narinas. Perceber pessoas de todos os tipos – mais jovens, mais velhos, hipsters, hippies, executivos, endinheirados, gente comum – fumando seu baseado sem alarde ou escândalo me pareceu um sinal de civilidade invejável – como, da mesma forma, ver os casais homossexuais caminharem sem medo, e saber que mulheres, principalmente pobres, não mais morrem em mesas de abortos ilegais. Não só civilidade, como humanidade.


Fila em farmácia para compra de maconha

O único outro contato excepcional com a maconha por lá foi também exemplar, quando um desconhecido, ao meio da rua em um sábado à noite, nos ofereceu maconha para comprarmos. Agradecemos em negativa, e quando o homem foi embora, nossa amiga uruguaia riu, e se perguntou, em voz alta: “Por quê alguém compraria maconha ilegalmente no meio da rua?”. Nós, brasileiros, tivemos de nos resignar com nosso atrasado país, e concordar com ela.


‘Pepe’ Mujica, presidente do Uruguai quando da legalização

É evidente que a legalização da maconha não resolve milagrosamente todos os problemas relacionados ao tráfico, à violência e à polícia da noite para o dia, mas já está mais do que comprovado que sem esse gesto inicial não será possível sequer começar um processo realmente curativo e transformador no que diz respeito ao tráfico de drogas e suas tragédias sociais derivadas – para não falar das potenciais pesquisas e revoluções científicas e medicinais que permanecem paralisadas por conta da proibição.

Quem vive no Rio sabe que o que acontece aqui, no embate que mata diariamente tanto civis quanto policiais em números dignos de países em guerra, não é em nada um combate ao tráfico de drogas – ou, na melhor das hipóteses, sabe o quanto esse tipo de combate não dá certo.

As drogas, quando se tornam um problema, são necessariamente um assunto de saúde, e não podem ser um tema policial. Um assunto de adulto, tratado de forma infantil através de velhos pensamentos que matam pobres, policiais e civis, sem sequer tratar do problema de fato. A legalização no Uruguai, especialmente para alguém que não fuma maconha, destaca o quanto a maconha propriamente, despida de seu falso rótulo diabólico e criminoso, não assusta ninguém – pelo contrário: faz um bem enorme, imediato e futuro.

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© foto 1: Getty Images © foto 2: divulgação © foto 3: Nilson de Souza © foto 4: Andres Stapff/Reuters

© foto 5: Miguel Rojo/AFP © foto 6: divulgação © foto 7: acervo pessoal © foto 8: divulgação

© foto 9: Matilde Campodonico/AP Photo © foto 10: Andres Stapff/Reuters © foto 11: divulgação © foto 12: Andres Stapff Reuters


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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