Arte

10 discos históricos e ‘perdidos’ do rock que nunca vão chegar ao Spotify

por: Vitor Paiva

Se hoje é possível realizar um disco do quarto de casa direto para as plataformas digitais, há menos de duas décadas a gravação, mixagem e finalização de um trabalho eram processos caros e complexos. Qualquer disco era um longo projeto, que exigia uma série de sessões e gravações – desde as demos, registrando as ideias das canções em formatos “crus”, passando pelas primeiras gravações de fato, até as sessões e faixas finais. Assim, por motivos mil, muitos trabalhos de grandes artistas acabaram abortados no meio de tal processo, ou simplesmente não chegaram a sair do papel ou mesmo da cabeça do gênio que os projetava.

Existem, portanto, gravações – algumas comprovadas, outras como lendas supostas – de grandes artistas que jamais chegaram aos ouvidos ávidos dos fãs. Prince, Kurt Cobain, Beatles, Mick Jagger, a mitologia ao redor de algumas gravações é tanta que não se sabe sequer se elas de fato aconteceram, se não passaram de ideias que um dia o artista comentou – mas haverá sempre uma legião de admiradores esperando pela descoberta de uma pérola escondida em um arquivo ou em uma fita antiga.

Invariavelmente alguns desses artistas de quando em quando lançam ao mercado “novas” faixas ou discos inteiros redescobertos, mas enquanto houver música sempre haverá também gravações nunca antes lançadas dos maiores artistas da história. Separamos aqui algumas dessas mitológicas gravações que supostamente aconteceram mas que nunca ganharam a luz – quem sabe um dia elas não se tornam clássicos de nossos repertórios preferidos.

1. Jimi Hendrix – Black Gold

Reza a lenda que, em 1970, Jimi Hendrix gravou 16 faixas somente com um violão em seu apartamento em Nova Iorque para um novo projeto. As fitas teriam sido deixadas com o baterista de sua banda, a Experience, Mitch Mitchell, nos bastidores do festival da Ilha de Wight, no mesmo ano. Em 18 de setembro de 1970 o maior guitarrista de todos os tempos, porém, viria a falecer – e as gravações permaneceriam esquecidas por Mitchell e longe do conhecimento do público até 1992, quando o baterista mencionaria, em uma entrevista, a fita dada a ele por Hendrix com o título de “Black Gold” escrito na caixa. Uma música somente, no entanto, intitulada “Suddenly November Morning”, saiu em uma compilação – e nada mais. Há um disco pirata intitulado “Black Gold”, mas que não traz as tais gravações, que nunca mais foram descobertas, especialmente depois da morte de Mitch Mitchell, em 2008.

2. Kurt Cobain – disco solo

Esse é um dos casos de gravações perdidas que não sabemos sequer se de fato existem. São diversas as especulações a respeito de registros, discos e fitas perdidas envolvendo um possível disco solo de Kurt Cobain. Michael Stipe, do REM, admite que convidou Kurt para trabalhar com ele pouco antes de sua morte – a fim de tentar “salvar sua vida” do suicídio inevitável – mas que o vocalista do Nirvana simplesmente não foi ao seu encontro. Mark Lanegan, do Screaming Trees, também confirma que um disco em parceria com Kurt, cantando blues de Leadbelly, começou a ser gravado mas jamais foi concluído. Eric Erlandson, guitarrista da banda Hole, garante que em 1994, ano de sua morte, Kurt estava trabalhando em um disco solo, e que as demos desses disco existem em algum lugar. Outras pessoas, porém, afirmam que Kurt talvez tenha somente comentado com Eric ou mesmo tocado a ele algumas das canções, mas que as gravações propriamente nunca aconteceram.

3. Nirvana – “Canção em Ré”

 

Tal qual acontece com os Beatles, pelo imenso sucesso da banda o Nirvana já lançou uma série de caixas e discos com raridades, faixas perdidas, demos e gravações inéditas desde seu fim, em 1994. Ainda assim, a impressão que nos passa é que sempre haverá uma nova canção ou gravação a ser descoberta e lançada pela banda – e, segundo o produtor Butch Vig, responsável pelo clássico Nevermind, de fato há uma canção, gravada durante as sessões do disco, no tom de ré, que jamais foi lançada.


Novoselic, Grohl e o produtor Butch Vig 

Segundo Vig, a música tinha um “clima R.E.M.”, com letras que ainda não haviam sido finalizadas. Em uma entrevista junto de Dave Grohl e Krist Novoselic, o produtor lembrou da “canção em ré”, mas os próprios músicos não sabiam de qual se tratava. “Parece que teremos mais uma caixa”, brincou Dave. A canção de fato, porém, permanece um mistério, que Vig garante estar escondido nos cofres e arquivos do Nirvana.


Nirvana durante as sessões de gravação do disco ‘Nevermind’, em 1991

4. The Beatles – Carnival of Light

 

Apesar da imensa quantidade de lançamentos inéditos, caixas especiais e discos piratas – até mesmo o projeto Anthology, que lançou três discos duplos somente com gravações jamais lançadas oficialmente, ainda que na maioria de canções célebres – e de ser sem dúvida a mais estudada e pesquisada banda de todos os tempos, os Beatles ainda possuem míticas gravações que, lendas ou não, jamais chegaram aos nossos ouvidos. Um desses registros que comprovadamente existe e nunca foi lançado nem mesmo em bootlegs é a faixa “Carnival of Light”, uma gravação experimental de 14 minutos, composta por sons distorcidos, colagens de percussão, teclados, guitarras, vocais, com a participação dos quatro Beatles, tudo devidamente encharcado de efeitos. A gravação foi realizada para um evento em 1967, mas jamais foi lançada. Paul tentou inclui-la no Anthology, mas acabou vetado pelos outros membros – e “Carnival of Light” permanece um mistério inédito da mais celebrada banda da história.

5. Green Day – Cigarettes and Valentines

Alguns projetos abortados – ou, nesse caso, roubados – acabam se revelando verdadeiras bênçãos para o artista em questão. Em 2003 o Green Day estava com o disco Cigarettes and Valentines praticamente finalizado quando as fitas foram supostamente roubadas do estúdio. As poucas gravações que restaram não traziam a mesma força das gravações desaparecidas – que o vocalista e guitarrista Billy Joe Armstrong até hoje garante que eram “coisa boa”. No lugar de tentar recuperar o disco, que acabou tendo algumas músicas, como a faixa-título e “Olivia”, executadas em shows ou lançadas em coletâneas e discos ao vivo, a banda decidiu começar um novo projeto. O disco gravado na ressaca da perda foi nada menos que American Idiot, a celebradíssima ópera-rock do Green Day, que não só venceria todos os prêmios e se tornaria um imenso sucesso de vendas, como garantiria a retomada da grandeza da carreira da banda como um todo.

6. Ice Cube e Dr. Dre – Heltah Skeltah

 

Uma das mais importantes e influentes bandas de hip-hop de todos os tempos, fundadores do gangsta rap, o N.W.A. teve suas atividades encerradas em 1991. Reunindo ninguém menos que Dr. Dre, Ice Cube, Eazy-E e outros em sua lendária formação, brigas, processos e ofensas marcaram o fim da banda. Em 1994, contudo, Dre e Cube se reuniram pela primeira vez após o fim da banda, para gravarem o que seria um disco em parceria chamado “Heltah Skeltah” – o disco contaria com a participação também de The D.O.C. e Snoop Dogg. Uma faixa, intitulada “Natural Born Killaz”, chegou a ser lançada e alcançar grande popularidade, mas o projeto nunca foi levado a diante. Segundo Cube, Dr. Dre estava muito ocupado com seu trabalho como produtor, lançando Eminem e 50 Cent – e o disco jamais nunca chegou a ser concluído.

7. The Beach Boys – Smile

O mais célebre disco perdido da história da música pop é um desses que só existiu de fato na cabeça de seu criador – ainda que, curiosamente, tenha sido de certa forma lançado mais de 3 vezes. Explica-se: em 1966, Brian Wilson, o gênio por trás do som dos Beach Boys, tinha a árdua tarefa de gravar um disco seguinte à obra-prima Pet Sounds – o que deveria ter se tornado o disco Smile. Brian, porém, não só enfrentava sintomas intensos de distúrbios psicológicos, como o consumo de grandes quantidades de drogas psicodélicas, a alta expectativa, a pressão da concorrência criativa – em especial os Beatles – fizeram com que ele por diversas vezes abandonasse e recomeçasse o projeto. Em 1967, a banda conseguiu chegar a uma versão “possível” do disco, intitulada Smiley Smile, o sonho original permaneceu mesmo na cabeça de Brian – mesmo que em 2004 o próprio Wilson tenham lançado uma suposta versão “final” do que pretendia em 1966, e que em 2011 as sessões de gravação também tenham sido lançadas. O projeto inicial de Smile, começado pela banda em 1966, esse jamais foi de fato concluído.


Brian Wilson durante as gravações de ‘Pet Sounds’

8. Prince – Dream Factory

Após a morte do grande guitarrista e compositor americano Prince, em abril de 2016, descobriu-se (ou reza a lenda) que ele teria um imenso arquivo com centenas de gravações jamais lançadas em um cofre em sua casa. Seja como for, o mais célebre arquivo secreto de Prince é o disco Dream Factory, feito em 1986 como um trabalho “de banda” (no lugar do método habitual do trabalho de Prince, em que ele fazia simplesmente tudo em seus discos) com os músicos da Revolution, que haviam trabalhado com ele no mega sucesso Purple Rain. Por motivos desconhecidos – normalmente vistos como o altíssimo padrão de qualidade e a mania de controle absoluto do músico – o disco foi abortado por Prince e, ainda que algumas faixas tenham sido lançadas, o projeto como um todo nunca ganhou o mundo.


Prince com a banda Revolution

9. Neil Young – Homegrown

Baseado na dor de cotovelo pelo fim de seu relacionamento com a atriz Carrie Snodgrass, em 1974 o grande Neil Young compôs uma série de faixas acústicas, que se tornaria o projeto Homegrown – segundo Young, “um elo perdido entre [os discos] Harvest, Comes a Tide, Old Ways e Harvest Moon”. Durante as sessões, porém, o baixista Rick Danko teria sugerido que o projeto fosse abandonado, por conta das faixas serem tão pessoais que se tornavam “assustadoras”. Neil Young concluiu que o baixista tinha razão, e decidiu de fato largar o projeto – que já tinha ate mesmo uma arte pronta para a capa. Algumas faixas foram lançadas ou regravadas posteriormente, e esse permanece como mais um disco clássico de um grande artista que nunca foi concluído ou lançado.

10. Mick Jagger – com os Red Devils

 

Em 1992 o produtor Rick Rubin estava produzindo o terceiro disco solo de Mick Jagger, quando o vocalista dos Stones foi convidado para participar do show da banda de Los Angeles Red Devils. Jagger cantou duas faixas no palco, e algumas semanas depois o cantor se reencontrou com os Red Devils para uma suposta sessão de gravação. Reza a lenda que em 13 horas, 13 faixas do mais fino blues foram concluídas e gravadas. Por motivos que permanecem desconhecidos, as gravações não entraram nem no disco da banda, nem no disco de Jagger – e nunca mais foram lançadas.


A banda americana Red Devils

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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