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10 grandes diretoras mulheres que ajudaram a criar a história do cinema

por: Vitor Paiva

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Oferecer ao mundo um ponto de vista singular sobre uma história ou um sentimento, uma nova maneira de ver e contar algo, é parte fundamental da tarefa de um artista. O cinema permite à literalidade tal gesto de expansão e ampliação, com uma câmera na mão e uma nova ideia em uma nova cabeça – que enxergue e registre o mundo de um lugar singular. É por isso também que conhecer filmes de outros países, outras idades, outras origens, etnias e outros gêneros é tão importante: para entender que nem só de Hollywood e do cinema comercial vive essa forma de arte.

E é no mesmo sentido que a arte pode servir como um excelente meio para se perceber e questionar as injustiças e desigualdades. Se vivemos em uma sociedade como um todo machista, em que a desigualdade de gênero se impõe sobre cada área de cada atividade, naturalmente que dentro das artes – e também no cinema – não seria diferente. Oferecer espaço, descobrir, assistir e se encantar com o cinema feito por grandes mulheres, além de expandir o próprio conhecimento e, com isso, as sentimentalidades, o repertório e as experiências artísticas enquanto espectador, é também perceber tais desigualdades, e atentar para elas como forças a serem combatidas.

A história do cinema é, como todas, também a história de grandes mulheres, que tiveram de lutar contra tal sistema engessado, a fim de poderem simplesmente criar, realizar seus filmes, oferecer seus pontos de vista peculiares enquanto realizadoras e diretoras. Assim, separamos aqui uma lista de algumas dessas mulheres brilhantes e lutadoras, que ajudaram, com sua arte, talento e força, a forjar a história do cinema, no Brasil e no mundo.

1.Alice Guy Blaché (1873-1968)

Antes que alguém tivesse feito qualquer coisa, a diretora francesa Alice Guy-Blaché já tinha feito de tudo. Tendo atuado como diretora entre 1894 e 1922, ela não só é a primeira diretora do cinema francês, como provavelmente a primeira mulher a dirigir um filme na história, e uma das primeira pessoas a ser reconhecida como diretora no mundo – para além do gênero. Tendo dirigido nada menos que cerca de 700 filmes em sua carreira, Alice também produzia, escrevia e atuava em seu trabalho. Muitos de seus filmes desapareceram no tempo, mas diversos ainda podem ser vistos. Em 1922 ela se divorciou, seu estúdio foi à falência e Alice nunca mais filmou novamente. Muitas das técnicas desenvolvidas por ela, no entanto, até hoje são padrões essenciais para a feitura de um filme.

2. Cléo de Verberana (1909-1972)

Tendo começado a carreira como atriz, aos 22 anos, em 1931 a paulista Cléo de Verberana se tornou a primeira mulher brasileira a dirigir um filme que se tem notícia, com O Mistério do Dominó Preto – Cléo também produziu e atuou no filme. Um ano antes, ao lado de seu marido, ela fundou a produtora Épica Films, em São Paulo, pela qual realizou todo seu trabalho. Depois da morte de seu marido, em 1934, ela fechou sua produtora e desligou-se do cinema. Seu nome, porém, está indelevelmente marcado na história do cinema brasileiro.

3. Agnès Varda

Prestes a completar 90 anos, a cineasta belga Agnès Varda segue trabalhando e influenciando de tal forma não só o cinema como a própria afirmação feminina nas artes que não é exagero dizer se tratar de um dos maiores nomes do cinema e da arte no mundo hoje. Partindo de uma sensibilidade para a escolha de cenários reais e não-atores em seus trabalhos, e utilizando um experimentalismo estético de rara beleza e força, Varda trata, em sua obra, de questões fundamentais, como o feminino, as questões sociais e de classe, a vida real, as margens da sociedade, com um olhar documental, experimental e criativo sobre o que é ser mulher no mundo.

4. Chantal Akerman (1950-2015)

Misturando sua própria vida e a vida real como um todo com a vanguarda e a experimentação na tela, a cineasta belga Chantal Akerman marcou não só a história do cinema enquanto linguagem, como também a própria afirmação feminina – e feminista – dentro dos filmes. Seu clássico filme Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de 1975, é considerado um dos grandes trabalhos cinematográficos do século XX, e foi reconhecido pela crítica como “possivelmente a primeira obra-prima do cinema tendo o ‘feminino’ como tema.

5. Adélia Sampaio 

O fato do nome de Adélia Sampaio não ser imediatamente reconhecido não só na história do cinema brasileiro como na própria luta por igualdade social, de gênero e racial no Brasil diz muito sobre a importância de seu trabalho. Filha de empregada doméstica e de origem pobre, Adélia Sampaio tornou-se, em 1984, a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no país, com o filme Amor Maldito – que Adélia também produziu e escreveu. A quase inexistente presença de mulheres negras no próprio imaginário social a respeito do cinema brasileiro ilustra o injusto apagamento que a história cometeu contra Adélia e tantos outros nomes, mas ao mesmo tempo sublinha a força de seu trabalho, que segue, hoje, carregando dezenas de curtas e longas metragens em sua carreira.

6. Greta Gerwig

A mais jovem presença nessa lista aqui se apresenta não só por seu talento e pela qualidade de seu filme de estreia como diretora, Lady Bird, mas também pelo momento em que seu trabalho autoral começou a ganhar reconhecimento. Depois de ter atuado em diversos filmes, a americana Greta Gerwig tornou-se mais conhecida do grande público por atuar em Frances Ha. Em 2017, no auge da afirmação feminina não só em Hollywood como no mundo, ela estreou como autora e diretora com Lady Bird – que não vem sendo indicado e vencendo os mais importantes prêmios da categoria, e tornou-se um dos mais bem vistos filmes recentes pela crítica.

7. Kathryn Bigelow

O Oscar é hoje um prêmio com muito mais força comercial do que propriamente artística. Isso, porém, não diminui o tamanho do holofote político e crítico que a premiação oferece – e o impacto cultural que um filme pode alcançar através do prêmio. Por isso, a diretora americana Kathryn Bigelow afirma sua importância não somente por ter conquistado o espaço como um nome forte entre a maioria masculina a conquistar o sucesso em Hollywood, como também por ter se tornado a primeira mulher – e até aqui, a única – a ganhar, somente em 2009, o prêmio de Melhor Diretora pela academia de cinema americana, com o filme Guerra ao Terror.

8. Lucrecia Martel 

Se o cinema argentino vive desde o final dos anos 1990 um renascimento que hoje o coloca entre o mais interessantes do mundo, é também graças ao trabalho da diretora Lucrecia Martel. Já em sua estreia como diretora e autora, com La Ciénaga, de 2002, Martel foi reconhecida e premiada em todo o mundo. Buscando uma verdade bruta e tocante, a diretora, produtora e autora argentina circula suas narrativas comumente ao redor da burguesia e da vida cotidiana de seu país, e sua estreia foi considerada pela crítica americana como o melhor filme latino-americano da década. Aos 51 anos, Lucrecia ainda possui uma longa carreira pela frente, como uma das mais interessantes diretoras da atualidade.

9. Jane Campion 

Assim como Bigelow, a neozelandesa Jane Campion merece ser reconhecida não somente por seu incrível trabalho como diretora – com evidente destaque para o grande filme O Piano, de 1993 – como também por suas conquistas simbólicas e políticas dentro de academias e prêmios. Campion foi a segunda – de uma curta lista com somente quatro nomes – diretora a ser indicada ao Oscar, e tornou-se, com O Piano, a primeira (e, até aqui, a única) mulher a vencer a Palma de Ouro, o prêmio máximo do prestigiado Festival de Cannes, em 1993. Pelo mesmo filme ela também venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original.

10. Anna Muylaert

São poucos hoje os nomes que se comparam, em prestigio e reconhecimento dentro do cinema brasileiro, com o de Anna Muylaert. Depois de dirigir Durval Discos e É Proibido Fumar, Anna conquistou sucesso comercial, de crítica e prêmios em todo mundo com a obra-prima Que Horas Ela Volta?, de 2015. Tendo sensivelmente captado o espírito de uma conturbada época de erupção social e política no Brasil – da qual ate hoje ainda não parecemos ter saído – , Que Horas Ela Volta? (que em inglês ganhou o curioso título de The Second Mother, ou A Segunda Mãe) parece significar perfeitamente uma parte fundamental dos conflitos históricos que separam classes no país, e que até hoje dão o tom das relações pessoais, profissionais e sociais por aqui.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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