Arte

Abuso sexual e pensamentos suicidas: a conturbada vida de Dolores O’Riordan, líder do Cranberries

por: Redação Hypeness

Morreu na última segunda-feira (15) a cantora irlandesa Dolores O’Riordan, líder dos Cranberries, que tinha apenas 46 anos de idade.

A artista foi encontrada morta em um hotel de Londres, na Inglaterra, onde estava para uma sessão de gravações antes de uma turnê. A causa do falecimento repentino é desconhecida, mas o fato trágico não é tratado como suspeito pela polícia londrina.

Apesar de ser a artista de maior sucesso da Irlanda do Norte e comandar uma das bandas mais adoradas dos anos 1990 em todo o mundo, Dolores teve uma vida difícil. Em entrevistas ao longo da carreira, a cantora contou que foi vítima de abusos sexuais aos 8 e 12 anos de idade, ambos cometidos pela mesma pessoa, que era de confiança da família.

“Eu era só uma menina”, disse ela em conversa com a revista LIFE em 2013. Em uma atitude identificável em muitas mulheres que passam pelo mesmo trauma, Dolores resolveu se manter calada por muito tempo, se culpando pelo que havia ocorrido.

 

 

“Isso é o que acontece. Você acredita que é culpa sua. Enterrei o que aconteceu. É o que se costuma fazer – você enterra porque tem vergonha”, falou ela em uma entrevista ao Belfast Telegraph em 2014.

“Você pensa: ‘Oh, Deus, como sou horrível e repugnante. Você cria um ódio contra si mesma que é terrível. E, com 18 anos, quando fiquei famosa e minha carreira deslanchou, foi ainda pior. Aí, desenvolvi uma anorexia”, relatou.

Por muitos anos, Dolores foi incomodada por esses problemas, junto de crises nervosas, abuso de álcool e pensamentos suicidas.

Ainda na entrevista ao Belfast Telegraph, a cantora relembrou dos momentos de terror que viveu ao reencontrar seu abusador em 2011, depois de anos sem vê-lo. Pior: o encontro aconteceu no funeral de seu pai, momento de dor por si só.

Nessa entrevista, Dolores O’Riordan também revelou que tentou se matar com uma overdose em 2013. Para se recuperar, apoiou-se nos três filhos que teve com Don Burton, empresário da banda Duran Duran e de quem se separou em 2014, após 20 anos de casamento.

Ainda em 2014, a artista foi detida após ser acusada de comportamento violento contra uma aeromoça em um voo internacional. Dois anos depois, ela teve que pagar 7 mil dólares ( cerca de 22,5 mil reais) a uma organização de caridade por ter agredido um policial.

Documentos apresentados na investigação desse caso mostraram que, em 2015, Dolores foi diagnosticada com transtorno bipolar. Segundo ela, esse problema era a causa de seus surtos de agressividade.

“Há dois extremos na escala: você pode se sentir extremamente deprimida (…) e perder o interesse nas coisas que ama fazer, e logo se sentir supereufórica”, afirmou ela ao jornal Metro na época.

“Mas você só fica nesses extremos por cerca de três meses, até que vai ao fundo do poço e cai na depressão. Quando você está transtornado, não dorme e se torna muito paranoico”. E a depressão, segundo ela, “é uma das piores coisas que podem acontecer com você”.

Fisicamente, Dolores sofria com problemas na coluna, o que causou o cancelamento de vários shows dos Cranberries em maio de 2017, pouco depois de uma turnê na Europa.

The Cranberries

“O problema nas costas de Dolores está na parte média e alta da sua coluna. A respiração e os movimentos diafragmáticos associados ao canto colocam pressão nos músculos e nervos dessa área, exacerbando a dor”, explicou a banda em um comunicado emitido via Facebook.

A trágica história por trás de “Zombie”, sucesso do Cranberries 

Dolores é a compositora da maioria dos sucessos do Cranberries, e não é diferente com ‘Zombie‘, um dos grandes e mais misteriosos hits do grupo. O hit está no No Need to Argue (1994), segundo álbum do conjunto.

“Essa foi a canção mais agressiva que escrevemos. “Zombie” foi algo diferente de tudo que havíamos feito antes”, disse ela em entrevista ao site Team Rock em novembro do ano passado.

Clipe de ‘Zombie’, hit do Cranberries

A história da música é inspirada na morte de duas crianças, Tim Parry, de 12 anos, e Jonathan Ball, de 3. Os dois morreram em 20 de março de 1993 após um ataque com duas bombas de autoria do grupo armado IRA (Exército Republicano Irlandês), que instalou os artefatos em lixeiras de uma área comercial na cidade de Warrington, na Inglaterra. 50 pessoas ficaram feridas.

Jonathan Ball, de 3 anos, e Tim Parry, de 12, morreram em atentado terrorista

Outra referência é a onda de violência que assombrou a Irlanda do Norte durante décadas, especialmente entre os anos 1970 e 1980, durante os combates entre as tropas britânicas e nacionalistas irlandeses.

O IRA foi a principal organização armada católico-republicana da Irlanda do Norte, utilizando a violência para obrigar a Irlanda do Norte a se separar do Reino Unido, incorporando-se à República da Irlanda, algo que não aconteceu até hoje.

Em determinado trecho da música, Dolores canta (em tradução livre): “Em sua mente, em sua mente, eles estão lutando. Com seus tanques e suas bombas. E seus ossos e suas armas, em sua mente. Em sua mente eles estão chorando”.

Outra estrofe faz uma referência ainda mais clara ao atentado de 1993: “O coração partido de outra mãe é tomado. Quando a violência causa silêncio, devemos estar enganados”.

O sucesso do clipe também incentivou (e muito) a popularização do hit. Nele, imagens de guerra se alternavam com cenas de O’Riordan e um grupo de crianças pintados de dourado ao redor de um crucifixo.

O vídeo tem 700 milhões de visualizações no canal do Cranberries no YouTube. No passado, era presença marcadas em programas da MTV no Brasil e no mundo. A direção é de Samuel Bayer, que também fez o vídeo ‘Smells Like Teen Spirit’, um dos principais sucessos do Nirvana.

Curiosamente, o pai de Tim Parry, Colin Parry, não conhecia a homenagem ao filho até a história ser recontada nesta semana, por conta da morte de Dolores.

“Somente ontem eu descobri que o grupo dela, ou ela mesma, compuseram a música em memória do que aconteceu em Warrington”, disse ele à BBC.

“Minha mulher chegou do escritório da polícia onde estava trabalhando e me contou. Coloquei a música para tocar em meu laptop, assisti à banda cantando, vi Dolores e escutei a letra. A letra é, ao mesmo tempo, sublime e muito real”, contou.

Dolores tinha 46 anos

Para ele, o atentado em Warrington, assim como outros que ocorreram na Irlanda do Norte e em todo o Reino Unido, especialmente na Inglaterra, “afetou famílias de uma maneira real”.

“Ler a letra escrita por uma banda irlandesa de maneira tão convincente foi algo muito, muito intenso”, afirmou Parry. “A morte repentina de uma mulher tão jovem é chocante”, ele lamentou.

Dolores deixou três filhos: Taylor Baxter Burton, Molly Leigh Burton e Dakota Rain Burton.

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Fotos: foto 1: Divulgação; foto 2: Divulgação; foto 3: Youtube/Reprodução; foto 4: PA/Reprodução; foto 5: Divulgação


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