Inspiração

‘Hora de mulheres falarem e homens ouvirem’: O discurso histórico de Oprah Winfrey contra machismo no Globo de Ouro

por: João Vieira

Oprah Winfrey fez um discurso histórico ao se tornar a primeira mulher negra a receber o Cecil B. DeMille, prêmio honorário pelo conjunto da carreira oferecido pelo Globo de Ouro.

A atriz, apresentadora de TV e empresária falou sobre o Time’s Up e o #MeToo, dois principais movimentos feitos por mulheres de Hollywood contra o assédio e abuso sexual cometido por figurões da cena cultural dos Estados Unidos, e também sobre racismo e a importância da presença da diversidade no mundo pop, especialmente para jovens crianças que os assistem pela televisão.

“Eu entrevistei e interpretei pessoas que passaram por algumas das coisas mais feias que a vida pode jogar em você, mas a qualidade única que todas elas parecem compartilhar é a habilidade de manter a esperança por uma manhã mais brilhante, mesmo durante nossas noites mais escuras”, disse ela.

 

 

 

 

Oprah Winfrey

A atriz, que atuou em filmes como “A Cor Púrpura” (1985), “Bem-amada” (1998), “O Mordomo da Casa Branca” (2013) e “Selma: Uma luta pela igualdade” (2014), lembrou do quão impactante foi para ela ver o ator Sidney Poitier se tornar o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator, em 1963, e não se escondeu da mesma responsabilidade.

Sidney Poitier

Então, eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, que saibam que um novo dia está no horizonte. E que quando este novo dia finalmente chegar, será por causa de muitas mulheres magníficas e alguns homens fenomenais, lutando duro para ter certeza de que elas se tornem as líderes que nos levem a um tempo em que ninguém jamais tenha de dizer ‘Eu também’ novamente.

Winfrey aproveitou a oportunidade também para lembrar de Recy Taylor, que morreu aos 97 anos em 28 de dezembro de 2017.

Recy, uma mulher negra, foi sequestrada e estuprada por seis homens brancos em 1944 quando voltava da igreja, em uma cidade do Alabama. Depois do crime, ela foi abandonada com os olhos vendados na beira de uma estrada. Na época, a comunidade negra saiu às ruas pedindo justiça, mas ninguém foi punido pelo crime.

Oprah lembrou que Recy, mesmo tendo sobrevivido, perdeu o direito à vida naquela noite e, durante as décadas seguintes, teve de conviver com a dor do silêncio.

“Por muito tempo, mulheres não foram ouvidas e foram desacreditadas. Ela [Recy] viveu, como muitas de nós vivemos, muito tempo em uma cultura destroçada por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, as mulheres não foram ouvidas e foram desacreditadas se elas ousassem falar a verdade diante do poder daqueles homens. Mas o tempo deles acabou”.

O posicionamento fez com que uma possível candidatura de Winfrey à Presidência dos Estados Unidos em 2020 fosse especulada na imprensa norte-americana.

A CNN publicou uma matéria dizendo ter conversado com duas fontes que seriam amigas próximas de Oprah. Elas afirmam que ela já estaria há alguns meses “pensando ativamente” em concorrer ao posto mais alto da política dos Estados Unidos.

O processo de seleção de um candidato dos Democratas, partido pelo qual Oprah certamente concorreria, só começa na segunda metade de 2018.

Veja o discurso (em inglês) abaixo:

Leia a fala de Oprah traduzida e na íntegra:

Obrigada, Reese [Witherspoon]. Em 1964, eu era uma garotinha sentada no chão de linóleo da casa da minha mãe em Milwaukee, assistindo Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator, na 36ª edição do prêmio.

Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram história: “O vencedor é Sidney Poitier”. O homem mais elegante que eu já vi subiu ao palco. Sua gravata era branca, sua pele era negra – e ele estava sendo celebrado. Nunca havia visto um homem negro ser celebrado dessa maneira.

Tentei muitas, muitas vezes explicar o que um momento como esse significa para uma garotinha, uma criança que olha a mãe passar pela porta, cansada até os ossos de limpar a casa de outras pessoas. Mas tudo o que posso fazer é citar aquela música que Sidney cantou em “Os Lírios do Campo”: “Amém, amém, amém, amém”.

Em 1982, Sidney recebeu o prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro, e eu sei que, neste momento, há algumas garotinhas assistindo eu me tornar a primeira mulher negra a receber esse mesmo prêmio.

É uma honra – é uma honra e é um privilégio compartilhar a noite com todas elas e também com os incríveis homens e mulheres que me inspiraram, que me desafiaram, que me apoiaram e fizeram minha jornada até esse ponto possível. Dennis Swanson, que apostou em mim para o talk show “A.M. Chicago”. Ele me viu no programa e disse ao Steven Spielberg, “ela é a Sophia de ‘A Cor Púpura’. Gayle, minha amiga e Stedman, meu porto seguro.

Quero agradecer à Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Sabemos que a imprensa está sob cerco nos dias de hoje. Nós também sabemos que é a dedicação insaciável para descobrir a verdade absoluta que nos impede de fechar os olhos para a corrupção e a injustiça – para tiranos e vítimas, e segredos e mentiras.

Eu quero dizer que eu valorizo ​​a imprensa mais do que nunca, enquanto tentamos navegar esses tempos complicados, o que me faz pensar nisso: o que eu sei com certeza é que falar sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos.

E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala é celebrado por causa das histórias que contamos, e este ano nós nos tornamos a história.

Mas essa não é uma história que afeta apenas a indústria do entretenimento. É uma história que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.

Então, eu quero hoje a noite expressar gratidão a todas as mulheres que sofreram anos de abuso e agressão porque elas, como minha mãe, tiveram filhos para se alimentar e contas a pagar e sonhos para perseguir. São as mulheres cujos nomes nunca conheceremos. São trabalhadoras domésticas e trabalhadoras agrícolas. Elas estão trabalhando em fábricas, em restaurantes, estão nas universidades, engenharia, medicina e ciência. Elas fazem parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios. Elas são nossos atletas nas Olimpíadas e elas são nossas soldadas nas forças armadas.

E há outra pessoa, Recy Taylor, um nome que conheço e acho que você também deveria conhecer.

Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe que caminhava para casa depois da igreja que ela frequentava em Abbeville, Alabama, quando foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada com os olhos vendados ao lado da estrada. Indo para casa, depois da igreja.

Eles ameaçaram matá-la se ela alguma vez contasse a alguém, mas sua história foi relatada à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, onde uma jovem trabalhadora, chamada Rosa Parks, se tornou a investigadora principal em seu caso e juntas buscaram justiça.

Mas a justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram perseguidos. Recy Taylor morreu há dez dias, alguns dias antes de seu aniversário de 98 anos.

Ela viveu como todos nós vivemos, muitos anos em uma cultura destruída por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sob o poder desses homens. Mas esse tempo acabou. Esse tempo acabou.

Esse tempo acabou. E eu só espero – eu só espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que sua verdade, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos, e até agora atormentadas, seguem adiante. Estava em algum lugar no coração de Rosa Parks, quase 11 anos depois, quando tomou a decisão de ficar sentada no ônibus em Montgomery, e está aqui com todas as mulheres que escolhem dizer “eu também”. E está em todo homem – todo homem que escolhe ouvir.

Na minha carreira, o que sempre tentei fazer de melhor, seja na televisão ou no cinema, é dizer algo sobre como homens e mulheres realmente se comportam. Para dizer como sentimos vergonha, como amamos e como nos enfurecemos, como falhamos, como recuamos, perseveramos e como superamos.

Entrevistei e retratei pessoas que resistiram às coisas mais feias que a vida pode oferecer, mas uma qualidade que todos parecem compartilhar é a capacidade de manter a esperança para uma manhã mais clara, mesmo durante as noites mais sombrias.

Então eu quero todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte! E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste auditório esta noite e alguns homens fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levam ao tempo em que ninguém nunca mais terá de dizer “Eu também”.

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Fotos: foto 1: LA Times/Reprodução; foto 2: Acervo Oscar; foto 3: Reprodução


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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