Matéria Especial Hypeness

A história por trás da foto que mudou a Guerra do Vietnã há 50 anos

por: Vitor Paiva

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No dia 01 de fevereiro de 1968, o Brigadeiro General Nguyen Ngoc Loan, chefe de Polícia Nacional do Vietnã do Sul, sem se intimidar ou mesmo tomar conhecimento da câmera fotográfica que lhe espreitava a poucos metros, e sem alterar sua feição, apontou displicentemente seu revólver para a cabeça de um prisioneiro no meio de uma rua de Saigon, e disparou.

É certo que o clique da câmera fotográfica do americano Eddie Adams ficou encoberto pelo estampido do disparo, mas a imagem é ainda hoje tão ruidosa quanto foi há quase exatos 50 anos, quando foi publicada para alterar o rumo da Guerra do Vietnã e da própria história do Século 20.

Eddie já havia coberto a Guerra da Coréia, em 1951, e vinha trabalhando há alguns anos no campo de batalha do Vietnã para a agência Associated Press, quando cruzou, nas ruas de Saigon, com a fatídica cena.

Ele inicialmente pensava se tratar de um interrogatório improvisado, até notar o general sacando sua arma – e ele então sacar sua câmera.


© Eddie Adams/AP

A imagem do exato instante da execução sumária de Nguyen Van Lem, um jovem soldado vietcong, sem uniforme, com as mãos algemadas às costas, estamparia a capa dos principais jornais americanos e do mundo nos dias seguintes, há quase exatos 50 anos.


Capa do New York Times do dia seguinte, 02 de fevereiro de 1968

Executar um prisioneiro detido, algemado, que não representa perigo algum, seja ele quem for, esteja ele do lado que estiver, é violação de qualquer acordo ou convenção de guerra internacional. o gesto do chefe de polícia se agravou intensamente diante de um dado simbólico incontornável para a então opinião pública americana: o executor não era um comunista, mas sim um membro do governo do Vietnã do Sul, aliado dos EUA – o “vilão” em questão era um amigo. O foco certo, na direção correta, no instante exato, e a brutalidade e o absurdo da Guerra do Vietnã começavam a ser desnudadas em uma fotografia.


As outras fotos da sequência de imagens que registrou a execução em Saigon © Eddie Adams/AP


O fotógrafo Eddie Adams no Vietnã, em 1965 © AP

Toda guerra esconde seus verdadeiros motivos em coleções de mentiras, que precisam ser afirmadas para sustentar seus injustificáveis propósitos, em um teatro infame ao custo de milhões de vidas – alimentado pelo medo, esse combustível infalível, que poderosos de todos os calibres aplicam sobre as populações. Com a Guerra do Vietnã não foi diferente: um conflito fadado ao fracasso, que convocou milhares e milhares de jovens principalmente americanos (mas não somente) a massacrarem outros jovens sul-vietnamitas em nome da abstrata luta contra o comunismo e, ainda assim, perderem a guerra.


Combatente vietcong morto estirado ao chão em Saigon © Eddie Adams/AP

Cerca de 60 mil americanos foram mortos no conflito, enquanto 250 mil soldados do Vietnã do Sul (aliado dos EUA), 1.1 milhão de soldados do Norte e 2 milhões de civis, em ambos lados, aproximadamente acabaram mortos ao fim do período principal da guerra, entre 1965 e 1974. Se tais reais propósitos estão sempre encobertos por essa densa nuvem de medo, mentiras e preconceitos, há quase exatos 50 anos essa única fotografia de Eddie foi capaz de começar ao menos a dissipar a cortina de fumaça e revelar a violência inócua que movia o horror no sudeste da Ásia.

Duas fotos revelando os momentos que antecederam a execução © Eddie Adams/AP

Enquanto os mestres da guerra e do poder se inflavam e enriqueciam, as populações dos países envolvidos eram massacradas sem mais nenhum propósito real à vista – não havia mais luta contra ou pelo o comunismo que justificasse tal massacre. A foto de Eddie tornou-se justamente um outro combustível para que a opinião pública internacional, e principalmente a americana, começasse a mudar sua posição a respeito da Guerra do Vietnã.


O instante do disparo, na foto que mudaria o mundo e a vida de Eddie…


..e o instante seguinte à icônica foto © Eddie Adams/AP

As mentiras se davam em todas as direções naquele fevereiro de 1968: o governo americano garantia que a guerra já estava vencida, que o inimigo encontrava-se de joelhos, enquanto as tropas do Norte e Vietcongs tomavam as ruas e até mesmo a embaixada americana em Saigon com força impressionante, no que ficou conhecido como a Ofensiva de Tet. O “inimigo” parecia revigorado, forte, até mesmo invencível – lutando em casa, no árduo campo de batalha das densas florestas do Vietnã, especialmente para jovens urbanos americanos.


Manifestações de veteranos contra a Guerra do Vietnã, nos EUA

A brutalidade era generalizada, e a foto de Eddie impactou com mais força do que qualquer noticia. Aos poucos, a guerra que era para ser justa ia revelando a impressão de ser não só uma guerra impossível de ser vencida, como de que talvez os americanos não devessem ganha-la. O supostamente inabalável patriotismo americano agora se via mais e mais diante da inexorável certeza de que não haviam mocinhos nessa briga, e que se os russos aliados aos vietcongs eram a grande ameaça, os americanos não traziam paz nem justiça – ninguém era o lado bom da luta.

A presença americana no sudeste da Ásia não fazia sentido, e a condução da guerra era, para qualquer lado, imoral – e a foto de Eddie, as várias histórias que a foto carrega naquele instante em que a arma disparou em uníssono perfeito com o disparo da câmera, impôs tais vereditos de forma gráfica e inconteste. Nos meses que sucederam a forte Ofensiva comunista de Tet e a fotografia de Eddie nos jornais, a opinião pública americana tornou-se crítica ao conflito com rapidez e força como nunca antes havia sido.


Manifestantes tomam as ruas de Los Angeles contra a guerra © Joe Kennedy/LA Times

O general que puxou o gatilho, ao fim do conflito com a derrota americana, migrou para os EUA depois de conseguir um green card. O governo dos EUA tentaria, sem sucesso, cancelar sua cidadania americana alguns anos depois, mas o general viveria no país até falecer, em 1998, cuidando de um restaurante.


O General Nguyen Ngoc Loan, dois meses depois da execução, ainda durante a guerra © Eddie Adams/AP 

O próprio Eddie assumiria, anos depois, que ainda que as fotos não mintam, elas podem contar meias-verdades. O jovem executado não era uma vítima somente, mas também um combatente e criminoso – ele havia sido detido por ter matado toda a família de outro oficial sul-vietnamita, e a retirada natural de contexto que ocorre com uma imagem tão icônica perseguiria Eddie Adams em desconforto até seu falecimento, em 2004. “Duas pessoas morreram naquela foto: o que recebeu a bala e o general Nguyen Ngoc Loan”, escreveu Eddie em um artigo para a revista Time. “O general matou o vietcong; eu matei o general com minha câmera”. Segundo o próprio Eddie, o sucesso da foto não permitiria que ele jamais esquecesse aquele momento.


Eddie segurando a foto que tanto marcaria a história e sua própria vida

Eddie Adams viria a ganhar o Prêmio Pulitzer em 1969 e mais de 500 outros prêmios ao longo de sua vida pela imagem, que seria rapidamente reconhecida como uma das mais importantes fotos já tiradas na história. Diversas outras fotos de Eddie se tornariam símbolos da guerra, mas nenhuma com o mesmo poder de síntese emocional, simbólica e política que a imagem do jovem sendo executado ofereceu – só comparada, em importância, à foto que o vietnamita Nick Ut tiraria em 1972 de uma jovem garota correndo em desespero, com o coberta coberto pela bomba líquida Napalm.


A outra foto que mudaria a história do conflito no Vietnã, 4 anos depois, em 1972 © Nick Ut

Se a foto de Eddie significou a mudança de perspectiva sobre a guerra e a participação americana, a foto de Nick a complementaria como a imagem do fim do conflito – e as duas fotos formam a certeza de que, se não há vencedores em uma guerra como tal, os perdedores são claros e evidentes, e sempre o lado mais frágil e inocente: o das pessoas.

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© Eddie Adams/AP

© Divulgação/reprodução

© Nick Ut


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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