Roteiro Hypeness

Além do Inhotim: o que fazer em Brumadinho, cidade-sede do maior museu a céu aberto do Brasil

por: Brunella Nunes

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​Pare. Olhe. Escute. Essas três palavras, avistadas em uma placa na linha de trem que cruzou o caminho, resumem os quatros dias que passamos em Brumadinho, uma cidade de menos de 40 mil habitantes em Minas Gerais, conhecida por sediar o museu Instituto Inhotim. Indo além dos paraísos artificiais que ali habitam, pudemos ver de perto os costumes, sabores, cores e sotaques de um povo que vive ao redor de uma joia da arte contemporânea.

Foi na companhia de um bocado de gente bacana que o Hypeness fez sua primeira jornada da vida pelo município. Do feijão tropeiro às infinitas silhuetas da Serra mineira, chegamos a lugares que, segundo os guias convencionais, talvez nem chegaríamos. A distância até a pequena cidade no Vale do Paraopeba é de 62 km a partir de Belo Horizonte. O Hostel 70, que nos fez esse convite, foi a casa que nos acomodou e a primeira modalidade do tipo a se instalar na cidade. Já os passeios foram organizados pela De Role por Brumadinho, que promove experiências na cidade que sejam além do óbvio e nos levou para todos os cantos.

É triste pensar que muita gente passa por Brumadinho apenas com o intuito de visitar o museu. Perdem a chance de desbravar suas paisagens infinitas, saber de sua história, conhecer as comunidades que formam sua identidade e provar a sua gastronomia, simples, porém deliciosa. Os mineiros tem alma de tia, colo de avó. Um aconchego difícil de explicar. Não tem a ver com subserviência, mas com acolhimento, sem luxos e sem frescura. Mesmo que na timidez, chegando de mansinho, a gente consegue encontrar mesa farta, comida feita com amor e prosa para até o fim dos dias. O trem é realmente bão!

No Inhotim 

[*atualmente é necessário do comprovante de vacina amarela para entrar no parque]

Como não poderia deixar de lado o prato principal, o roteiro começa no Instituto Inhotim, com um guia que sabe tudo e mais um pouco do local. Junio Cesar da Silva nasceu exatamente ali, a 25 anos atrás. O que antes era uma pequena comunidade numa fazenda foi comprada em meados de 1980 pelo colecionador de arte e empresário da mineração Bernardo de Mello Paz. Deste episódio em diante, tudo certamente mudou, embora ainda restem algumas relíquias, como o Junior, que cresceu imerso à arte e aos jardins que dão forma ao que é hoje a maior galeria a céu aberto do Brasil.

“É uma experiência, um espaço único, que é esse casamento entre arte e botânica. O paisagismo dialoga com a arquitetura e com a coleção artística dentro dos edifícios”, contou, orgulhoso de suas origens.

Ao contrário do que dizem por aí, o projeto paisagístico exuberante não é assinado por Roberto Burle Marx e sim por Pedro NehringLuiz Carlos Orsini. Espelhos d’água, lagos, galerias, restaurantes e obras de arte espalham por uma área que triplicou o tamanho ao longo dos 12 anos de existência. Pela dimensão equivalente a 140 Maracanãs se tem acesso a 25 pavilhões e um acervo de 450 obras de arte, boa parte delas chamadas de site specifictermo usado para intervenções em espaços naturais ou urbanos.

O artista Tunga, que tem uma galeria só para expor seus trabalhos no Inhotim, foi um dos grandes incentivadores para o local se tornar aberto ao público e incentivar a arte contemporânea no Brasil. E ela não é barata. Os pequenos luxos e as grandes extravagâncias estão por todas as partes, desde a botânica, com 950 tipos de palmeiras oriundas de variadas partes do planeta, aos azulejos de Adriana Varejão (da obra Celacanto Provoca Maremoto) que valem milhões de reais, e até o valor da entrada: 44 reais para adultos. Quem quiser utilizar os carrinhos que encurtam os caminhos, pagam mais 30 reais. Às quartas-feiras o acesso é livre.

Nossas caminhadas duraram dois dias dentro do parque, com destaque para algumas obras e galerias. Em Cosmococa, Helio Oiticica e o cineasta Neville de Almeida convidam os visitantes para sentir o êxtase, a euforia e a badtrip causada pelo uso de cocaína. Não é preciso cheirar nada, apenas sentir o que as cinco salas propõem. Os ambientes imersivos garantem uma viagem quase alucinógena pelos estágios da droga. É também assinada por Helio a instalação Magic Square, vista desde a recepção do Inhotim, refletindo no lago. Um grupo de paredões coloridos são explicados por Junior como “a invenção da cor penetrável. Perceba que na cor branca onde bate o sol é diferente de onde não bate. Temos que ter uma sensibilidade para realmente ver o que o artista quer relatar. Essa obra precisa da luz do dia”. O jogo de luz e sombra muda a incidência das cores, resultando no “quadrado mágico”.

Outra galeria imperdível é a de Claudia Andujar, fotojornalista que se dedicou a não apenas clicar os índios Yanomami da Amazônia como também conviver com eles por mais de 20 anos e lutar lado a lado por seus direitos, como a demarcação de terra. As 500 imagens são lindíssimas, verdadeiras e impactantes. Resgatam e saúdam a memória de um povo que deveria nos representar.

A galeria de Cildo Meireles é uma das mais fotografadas, por causa da sala Desvio para o Vermelho: Impregnação, Entorno, Desvio, na qual a cor impregna absolutamente todos os objetos colecionados por ele entre 1967 e 1984. Lembre-se de abrir a geladeira e o guarda-roupa. Em Através, a proposta é atravessar os inúmeros obstáculos, como cercas, cortinas, grades e um chão feito com pedaços de vidro arredondados, até chegar ao seu objeto. Uma alusão aos desafios da vida e às nossas constantes limitações.

Para aguçar os sentidos, seguimos rumo à Sonic Pavilion, instalação assinada por Doug Aitken. Uma sala arredondada forrada por janelas de vidro propõe que a gente escute o som da terra a muitos palmos abaixo de onde estamos. Para tanto, foi feito um poço tubular de 202 metros de profundidade, que ecoa os barulhos naturais daquele momento presente através de um microfones e amplificadores potentes. É um espaço de meditação e contemplação do verde que nos cerca.

O dinamarquês Olafur Eliasson ainda não é tão popular no Brasil quanto é lá fora, mas sua obra está entre as mais fotografadas do museu. Viewing Machine se baseia na construção de um caleidoscópio gigante, formado por seis espelhos num tubo hexagonal. A reprodução de imagens é um cenário para incansáveis selfies e…quem sabe, um ponto para reflexão numa sociedade que se cerca cada vez mais de si mesma e suas próprias referências.

Por fim, entre os nosso passeios, destaco a galeria de Adriana Varejão, um dos principais nomes da arte contemporânea no país. Em seu espaço podemos ver a obra Linda do Rosário, que tem uma história bem interessante: foi inspirada no hotel de mesmo nome, que desabou no Rio de Janeiro e deixou dois amantes sob os escombros. Paredes de azulejos – a plataforma mais utilizada por Adriana – quebradas com vísceras em poliuretano dentro representam a tragédia amorosa e fazem alusão à ideia de que a carne é fraca. Ao olhar para cima, nos deparamos com plantas carnívoras pintadas de vermelho em outros azulejos.

O Inhotim é realmente muito belo, em todo o seu esplendor. Acho a visita guiada fundamental para entender seu propósito e valor artístico. Mas, por vezes, tive a sensação de não-pertencimento àquele universo, tão particular e extravagante. É como se o museu não se integrasse a seus arredores. Pequenas e pontuais ações em prol da comunidade são realizadas num gigantesco espaço. Dessa maneira, fica um vazio nas bordas, que precisa ser preenchido, ser equilibrado. Sair de lá é como uma volta à realidade.

Na terra das Brumas

A nossa jornada em Brumadinho foi recheada de experiências e, principalmente, de pessoas com brilho próprio. Num sábado de sol, seguimos até o distrito de São José do Paraopeba, a 26 km do centro da cidade, para conhecer os costumes da comunidade quilombola de Marinhos, que abriga aproximadamente 80 famílias oriundas de um movimento de resistência cultural, social e territorial. Nos arredores existem outras três, Ribeirão, Rodrigues e Sapé, que também conhecemos. Fomos recebidos por um abraço caloroso e simpático do líder comunitário Seu Cambão, ou Antônio Alves da Silva, que ao lado da mulher Leide Santana da Silva fundou o grupo de roça “Quem planta e cria tem alegria”, em 1980, quando duas mulheres viúvas estavam passando necessidade.

O fio dessa meada perdura até hoje. Com raízes agrícolas e sempre próximas da terra, a comunidade celebra suas origens especialmente no terceiro domingo de junho, quando acontece, tradicionalmente, a Festa da Colheita, motivo de orgulho da região.

“Com a colheita a gente vê a importância da multiplicação. Um grão plantado vira vários, é a beleza da natureza. Na festa a gente celebra a vida, é um agradecimento pelo alimento que Deus dá. É tudo de bom”, disse dona Leide.

Os fazendeiros nos arredores emprestam parte de suas terras para que os quilombolas plantem e depois acontece a celebração do alimento. “Se damos a terra preparada, o adubo e a semente, dividimos a quarta parte com eles. Se ele ajuda na terra ou na semente, dividimos a metade para cada. E o nosso grupo depois ainda faz a divisão do que é produzido”, explicou.

As famílias têm ali não só o dom de compartilhar, mas de multiplicar seus frutos. De um grão plantado e colhido com amor, faz-se a fartura que vimos na mesa de almoço, na casa de dona Leide, seu Cambão e o filho, Reinaldo Santana Silva, conhecido como Rei Batuque, que coordena o projeto sociocultural Batuque Natividade. Atividades como a construção de tambores, que engajam as crianças e proporcionam uma ligação mais forte com suas origens. Dessa maneira, surgiu a ideia de ter um espaço cultural próprio para sediar e expandir as atividades, que já está sendo construído em adobe. “Trabalhando com música, vi um impacto, entre tantos outros, cultural muito grande. Então eu quero trazer as pessoas para ter esse contato pessoal, sentir a energia do local e proporcionar uma troca de saberes”. A vivência custa R$ 150 e inclui traslado a partir de BH, café, conversas, passeio pelas atrações, almoço típico e, é claro, música baseada em muita percussão.

A questão de identidade também é trabalhada com adolescentes, que nessa fase tendem a querer cortar relações com a comunidade. A educadora Jana Janeiro, que comanda o coletivo criativo Ateliê Pele Preta, contou que atualmente as meninas estão indo ao encontro de sua autoestima e aceitação, deixando as madeixas fluírem naturalmente, se empoderando e se envolvendo nas questões ligadas a raça e gênero. Se depender de dona Leide, vão continuar aprendendo a cultivar o amor próprio.

“Eu me sinto bem de ter vindo de uma família de quilombo. Sei que meus antepassados foram escravos. Sofreram demais. Muita coisa que eles passaram não contaram pra gente, mas sabemos o que aconteceu. Mas eu acho que o mais bonito de tudo isso é a gente ter tido força para continuar, sabe. E eu tenho orgulho de ser como eu sou, de ser quilombola. Eu não tenho como ser diferente, ela ri. Saímos de lá revigorados, de encontro ao pôr do sol.

Nossos rolês noturnos eram dedicados à boa comilança. Fizemos um tour por três bares com a galera do Pubcrawl Brumadinho, comemos pratadas de  baião de dois, que é tipicamente nordestino mas muito consumido em Minas Gerais, no Hostel Moreira e conhecemos a maravilhosa cozinha do Ponto Gê, comandado pela Genilda Delabrida e sua família. Uma área de sua própria casa abriga o restaurante, que é simples, mas cheio de charme. E isso vira um mero detalhe quando você olha para o buffet.

O banquete completo tinha: vaca atolada, farofa com ovos e cebola, tomate confitado, sopa de pêra com ungu e castanha de caju, sopa de limão siciliano com cenoura e amêndoas, banana com pimenta biquinho e morango, chuchu confitado no azeite de alfazema e alecrim, repolho roxo na redução de aceto e tâmaras, chips de inhame, costelinha de porco, pernil de lata, espuma de couve-flor, vatapá de manga com coco fresco, espaguete de mamão, linguiça caseira (que está na família há mais de 100 anos), tutu de feijão e arroz de coco.

A Gê faz misturas que eu nunca tinha consumido na vida, tem o dom de criar uma culinária criativa, colorida e autoral. O que dizer de uma mulher que consegue fazer até chuchu ficar bom?! Com tanta variedade, não consegui comer exatamente tudo que foi servido (por R$ 40, à vontade), mas o que comi estava maravilhoso e aguçou minha curiosidade pelo sabor agridoce. O menu muda de acordo com o que vem da feira e da alma da cozinheira.

Professora por formação, ela sempre cozinhou e até ajudava os amigos em dias de festa, mas foi só no final de 2015 que abriu a casa onde cresceu para o público se aproximar, literalmente, de seu fogão. Um ano antes, passou por uma tragédia que mãe nenhuma deveria passar: perdeu a filha Maria Luísa, aos 19 anos, repentinamente. “Achei que eu não sobreviver. Foi uma revolta, eu não aceitava e não queria saber de mais nada. Precisei entender que nós temos um período para cumprir, que tudo é finito, nos contou. Ao se voltar para o dom de cozinhar, encontrou uma maneira de se curar e aliviar suas dores.

A minha cozinha não é empírica, é intuitiva. ​Me inspiro na comida da Ásia, do Oriente Médio e da Bahia, sempre me aproximando das ervas e dos temperos, principalmente as especiarias. E gosto muito do trabalhos dos chefs Alex Atala e Beto Pimentel!” – Gê, a doçura de pessoa por trás do restaurante Ponto Gê

No último dia na cidade, um domingão preguiçoso, levantamos da cama já com água na boca: íamos aprender a fazer pão de queijo na Casa da Horta 53, que funciona como Airbnb e nos ofereceu o workshop com direito a receita da família. Com polvilho doce, leite da vaca, ovos caipiras, margarina, queijo mineiro ralado, óleo e um pouco de creme de leite, a magia acontece. Uma mesa farta de café da manhã veio logo na sequência, porque em Minas comer nunca é demais!

Depois seguimos rumo à Cachoeira dos Carrapatos, próxima ao centro da vila de Piedade do Paraopeba. Uma pequena e pouco complexa trilha nos levou a uma linda queda d’água, com muita vegetação ao redor e, subindo nas pedras, se alcança outras pequenas quedas e um piscinão. O lugar é bem agradável para passar o dia e rolou almoço ali mesmo, um peixinho na grelha com farofa e arroz. De sobremesa: queijo com goiabada!

De volta para casa, fiquei pensando que a beleza das coisas simples foi um dos pontos altos da jornada por Brumadinho. De ver o horizonte sumindo no entardecer lá no alto da Pedra do Morcego, de sentir o vento nos cabelos, a energia da cachoeira, os cheiros maravilhosos das panelas; de ter o contato com a arte desconhecida; de ouvir desde o silêncio até as histórias de cada pessoa que participou da viagem; de lidar com as diferenças e abraçar o novo. Já dizia a tal placa do trem: pare, olhe, escute.

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Todas as fotos por Brunella Nunes

 

Agradecimentos: Hostel 70, Hostel Moreira, Hostel 300, Prefeitura de Brumadinho, Bruma Vip Turismo, Hashtag Bar, Kombosa Bar, Dom Quixote Snooker Bar, Ponto Gê, De Role por Brumadinho, Pub Crawl Brumadinho, Rei Batuque, Casa da Horta 53, Junior Cesar Guia e Instituto Inhotim. 


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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