Debate

Desfile do Salgueiro exaltou mulher negra, mas acabou levantando debate sobre blackface

por: João Vieira

O Acadêmicos do Salgueiro fez um dos desfiles mais comentados e festejados durante o Carnaval do Rio de Janeiro em 2018. A tradicionalíssima escola do Morro do Salgueiro, na Tijuca, homenageou a mulher negra e a sua história de luta e demonstração de força, especialmente no Brasil.

A escola trouxe alegorias incríveis e carros representativos, como a versão negra da Pietá, escultura de Michelangelo, que traz Virgem Maria chorando a morte de seu filho, Jesus. A imagem representada na avenida levantou uma antiga discussão sobre a real origem étnica do líder religioso.

Só que o desfile acabou levantando um debate sobre outro tema, o blackface.

O nome se refere a uma prática teatral de atores que se coloriam com o carvão de cortiça para representar personagens afro-americanos de forma exagerada e caricata. O ato se tornou característico em minstrel shows nos Estados Unidos e figurou como um dos mais opressores símbolos do racismo durante o movimento dos direitos civis dos negros no país, nos anos 1960.

No caso do Salgueiro, a bateria conta com uma considerável fatia de componentes negros. Presidida por Regina Celi, a escola optou por pintar o rosto de seus integrantes de preto para alcançar o tom ideal, segundo seu coreógrafo disse em entrevista ao Extra.

Um dos componentes da ala, Rafael Leite disse que não viu problema em se pintar de preto e ressaltou que, apesar da bateria possui uma série de negros em sua composição, a questão não foi debatida em momento algum. “Sou de Minas, com família baiana, de brancos e negros. Brancos e negros nos pintamos, num enredo que falava dos negros”, disse ele.

Na web, porém, o público observou que, apesar de não haver uma caracterização desmerecedora dos negros, que é a principal bandeira do blackface, a questão da representatividade valia o debate,

Houve também quem questionasse o fato de homens terem representado mulheres na comissão de frente. Hélio Bejani, o coreógrafo, disse que não quis motivar reações negativas e defendeu a decisão.

“Não quero polêmica. Isso é uma manifestação artística, temos licença poética. O enredo é afro. E é um afro mais histórico. Precisávamos dessas feições mais escuras. Por isso, decidimos pela pintura e por usar homens representando mulheres. Queria dar uma robustez. A maquiagem era a única forma de conseguir o tom certo”, afirmou ele.

Hélio Bejani e sua comissão de frente

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Fotos: na matéria: Twitter/Reprodução; foto de capa: G1/Twitter/Reprodução


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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