Debate

Mineradora norueguesa usou dutos ‘secretos’ de rejeitos e contaminou rios na Amazônia

por: Kauê Vieira

Uma das maiores produtoras de minério do mundo, a norueguesa Hydro admitiu recentemente a responsabilidade pelo derramamento de rejeitos em nascentes de rios amazônicos.

Dividida em vários capítulos, a polêmica acontece no município paraense de Baracena e tem como protagonista a mineradora, que aliás é controlada pelo governo da Noruega. Em uma história que envolve omissão e negação de fatos, tudo começou a partir de denúncias de moradores de comunidades próximas sobre o vazamento, o que levou a Hydro a emitir uma nota chamando tais afirmações de “boatos”.  

Mineradora da Noruega é acusada de crime ambiental

Com o passar dos dias, a história ganhou novos contornos e a versão dos moradores se tornou cada vez mais consistente, o que obrigou a Hydro a voltar atrás e admitir a existência de vazamentos de soda cáustica e metais tóxicos vindos de uma barragem, agora confirmada por pesquisadores.

“Durante uma das vistorias, verificou-se a existência de uma tubulação com pequena vazão de água de coloração avermelhada na área da refinaria”, afirma a empresa. “Conforme solicitado pelas autoridades, a empresa está fazendo as investigações necessárias para identificar a origem e natureza do material, bem como realizando a imediata vedação desta tubulação,” afirmou por meio de nota.

Em entrevista à BBC Brasil, o pesquisador em saúde pública Marcelo de Oliveira Lima, responsável pelo laudo oficial, explica que “a empresa tomou atitudes graves, como a construção de uma tubulação para jogar dejetos diretamente no ambiente.”

“Houve duas constatações. Primeiro, transbordo de efluentes. Os níveis de alumínio nos rios estavam 25 vezes mais altos que os estabelecidos pela legislação. A população usa estas águas para recreação, consumo e captura de peixes,” lamenta.

Comprovado o crime ambiental, o Ministério Público Federal e do Pará enviaram à empresa um documento embargando uma de suas bacias. 

É importante ressaltar que esta não é a primeira contradição envolvendo a mineradora norueguesa. Em 2017, enquanto o governo do país nórdico criticava o desmatamento na Amazônia, um documento revelado pela BBC tornava pública uma dívida de R$17 milhões junto ao Ibama, justamente em multas por contaminação de rios.

Meio ambiente e fiscalização

O caso envolvendo a Hydro em Barcarena, município localizado no Pará, reacende uma importante discussão sobre a eficácia do poder público de fiscalizar ações realizadas por empresas e suas consequências para o meio ambiente e comunidades locais.

Em 2015, o Brasil viveu uma de suas maiores tragédias, quando a barragem da Samarco, especializada em lavagem de minério, se rompeu, matando pessoas e destruindo a cidade de Mariana (MG), além de ter despejado uma quantidade gigantesca de lama no Rio Doce, que chegou ao oceano. Todavia, até hoje o caso segue sem uma punição exata ou qualquer tipo de indenização consistente aos moradores da região. 

Moradores se reúnem para discutir caso

Temendo que a mesma situação se repita no Pará, os moradores das comunidades de Baracena se se recusam a se satisfazerem apenas com ajudas básicas por parte da Hydro – envolvida em mais de 2 mil processos de violação do meio ambiente e exigem punição e acompanhamento por parte das autoridades.

 

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Foto 1: Instituto Evandro Chagas/Reprodução/Foto 2: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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