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No Baile da Vogue, blogueira usa look racista com réplica de instrumento de tortura contra escravos

por: João Vieira

O tradicional baile de carnaval da Vogue costuma reunir os maiores fashionistas do país e alguns famosos de outras áreas. Neste ano, o tema foi Divino, Maravilhoso e propunha aos convidados uma homenagem ao Brasil.

Uma das presentes foi a youtuber Tata Estaniecki. A blogueira utilizou um adereço no rosto que lembrava uma focinheira, ao que, segundo ela, representava uma “homenagem aos escravos”.

A intenção de Tata foi reproduzir de forma “fashion” a máscara de ferro imposta aos milhões de escravos negros importados da África para o Brasil. O país, na época, era o centro da escravidão no mundo.

A “homenagem” da youtuber soa como insulto racista. As máscaras de ferro eram utilizadas para punir e torturar escravos que tentavam fugir dos casarões.

 

 

 

Em um artigo sobre os africanos fugitivos do Brasil, intitulado Esclave Marron a Rio de Janeiro, o estudioso Mister Bellel observa que a máscara tinha viés de tortura física e psicológica.

“Eles normalmente são presos em correntes e são conduzidos em grupos através de bairros da cidade onde eles carregam cargas ou varrem lixo nas ruas. Este tipo de escravo tem tanto medo disso que apesar de ter perdido toda a esperança em fugir novamente, eles não pensam em nada mais que o suicídio. Eles envenenam-se bebendo de uma só gole uma grande quantidade de bebidas fortes, ou se sufocam engolindo terra”, diz ele.

“A fim de privá-los dessa maneira de causar a sua própria morte, eles colocam uma máscara de estanho em seus rostos; a máscara tem apenas uma fenda muito estreita na frente da boca e alguns furos pequenos sob o nariz, de forma que podem respirar”.

Histórico de racismo no Baile da Vogue 

Em 2016, o Baile da Vogue resolveu homenagear a África e foi alvo de diversas acusações de racismo. “Para quem ainda não tem fantasia, o nosso guia fashion africano te ajuda a se embelezar para o Baile da Vogue 2016”, dizia o anúncio da festa na época.

A repercussão negativa se deu especialmente por imagens como as vistas abaixo:

Pedido de desculpas 

Em seu Instagram, Tata postou um vídeo – já apagado – onde pede desculpas a quem possa ter “interpretado por esse lado”. “Estou vendo alguns comentários nas minhas fotos, nunca quis ofender ninguém, peço desculpas se interpretaram por esse lado”, disse.

Quem disse ter tido a intenção de homenagear os escravos foi a própria Tata, que foi desmentida pela grife Samuel Cirnanck, que afirmou que tanto o vestido quanto o acessório de cabeça foram inspirados pelo artista plástico Gustav Klimt.

“O vestido de Tata Estaniecki Cirnanck, que faz aparte da nova coleção de Samuel Cirnanck, que será mostrada nas passarelas da próxima São Paulo Fashion Week. Uma das inspirações do vestido transparente foi a obra de Gustav Klimt e o adorno que ela usou na cabeça tem como referência as melindrosas da década de 1920 em uma roupagem contemporânea que remete ao movimento grunge”, disse um representante da marca ao site E+, do Estadão.

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Fotos: foto 1: Instagram/Reprodução; foto 2: Reprodução da internet


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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