Matéria Especial Hypeness

‘Pantera Negra’ acerta ao falar de escravidão sem mostrar o negro como escravo

por: João Vieira

Publicidade Anuncie

O Brasil foi o centro da escravidão entre 1500 e 1856. Sob a batuta do regime colonizador português, cerca de 2 milhões de africanos sequestrados desembarcaram só na região do Porto no Rio de Janeiro, onde hoje estão localizadas as avenidas Venezuela e Barão de Tefé.

Isso quer dizer que, da cada cinco escravos no mundo todo, um desembarcava em terras fluminenses.

Os dados são da slavevoyages.org e foram lançados em 2015, contrariando a até então existente estimativa de que o Rio teria recebido pouco mais de 1 milhão de negros. Ao todo, 4,8 milhões de africanos chegaram ao litoral brasileiro, sendo que aproximadamente 300 mil morreram na viagem desumana em um navio negreiro. Os corpos, aliás, foram trazidos pra cá também.

Quase 400 anos depois, a Lei Áurea foi assinada por Princesa Isabel e Rodrigo Augusto da Silva, determinando o fim do regime escravocrata no Brasil, o último país da América a tomar tal medida. Porém, em condições absolutamente precárias de ensino, renda e necessidades básicas, e sem qualquer tipo de planejamento de igualdade de direitos por parte do governo português, os negros brasileiros não tinham a menor chance de competir por oportunidades com os brancos, o que os obrigava a seguir praticando a escravidão de maneira informal.

Ilustrações retratam a violência da escravidão no Brasil

A solução problemática dada ao período escravocrata fez com que crescesse no Brasil uma série de gerações de negros e negras que não possuem árvore genealógica e nenhum tipo de relação com seus ancestrais. A nós, foi entregue um sobrenome português e uma passagem só de ida para o futuro, sem sequer ter a chance de saber sua origem.

Valorize seus ancestrais 

Toda essa origem sofrida dos negros é debatida durante o filme Pantera Negra‘, que aborda as origens do personagem da Marvel em seu primeiro filme solo. Os acontecimentos datam após a batalha que o herói enfrentou junto dos Vingadores. Ele retorna ao seu país, Wakanda, onde se torna rei e precisa enfrentar uma série de conflitos éticos com sua própria raça.

O rei T’Challa em ‘Pantera Negra’

Vivido por Chadwick Boseman, o rei T’Challa precisa corrigir os erros do seu pai e enfrentar as consequências dos atos dele, que, por desdobramentos dramáticos, fez surgir a revolta no vilão Killmonger, interpretado por Michael B. Jordan.

O vilão Killmonger

O filme, protagonizado e dirigido por negros, reproduz a ideia que a comunidade defende sobre a capacidade da raça de ajudar a comandar o futuro da humanidade. Wakanda é um país visto por todas as nações como de terceiro mundo. Porém, possui tecnologia avançada e que faz questão de esconder de todos, tudo por conta do medo de que os colonizadores, mais uma vez, os roubem.

Foi assim no Brasil, é assim na África.

Apesar de todos os avanços, a ancestralidade e as tradições – que, diga-se, nada têm a ver com misticismo – continuam tendo seu protagonismo, mostrando que o negro sabe, sim, valorizar suas origens, a fé, e ainda assim avançar no mundo tecnológico.

Falar sobre o escravidão sem mostrar o negro como escravo 

O que diferencia ‘Pantera Negra‘ de produções brasileiras que falam sobre o passado sangrento dos negros, é que a história não precisa mostrar um negro sendo chicoteado para provar seu ponto de vista. A ideia da violência da qual os escravos foram alvo está implícita nos olhares, nos diálogos e até nas piadas.

Talvez o grande atrativo do filme e a razão pela qual ele esteja atraindo tantos de nós ao cinema é o fato de, finalmente, termos a possibilidade de ver um de nós na tela sem que seja como doméstica, motorista, bandido, sofrendo racismo constante ou tendo sempre que cumprir um papel de “cota” nas tramas nacionais.

Único negro entre os protagonistas de ‘A Força do Querer’, novela das 21h recente da Globo, Sabiá era chefe do tráfico de drogas

‘Pantera Negra‘ é um exemplo para os senhores brancos das produções artísticas brasileiras sobre como atingir a comunidade negra de forma positiva, que traga benefícios para essa fatia – a maior, aliás – da sociedade brasileira. Ao invés de mostrar um negro ouvindo xingamentos racistas, mostre-o vencendo, prosperando dentro dessa sociedade que aborda como bandido uma judoca campeã olímpica por ela ser negra.

Também é um exemplo para nós, negros brasileiros. Nos roubaram a possibilidade de conhecer nossos ancestrais, mas isso não quer dizer que não devemos valorizar nossas origens de alguma forma. Nossa história não começou aqui. Ela se inicia nos países africanos de onde nossos parentes foram retirados à força. É nosso dever proteger e valorizar os movimentos de cultura afro, as religiões de origem afro e tudo aquilo que veio do continente que, até hoje, vive em nosso sangue.

A cultura afro resiste no Brasil

Estamos longe de ‘Pantera Negra’ em termos de representatividade por aqui, mas quem tem força para mudar isso somos nós mesmos, negros que estamos lotando salas de cinema Brasil afora. Que assim seja, e o que o exemplo trazido das sessões, mesmo que em 3D, com acento que vibra e combo mega de pipoca, seja o de que somos, sempre e absolutamente, reis e rainhas.

Ficha técnica: 

Data de lançamento: 15 de fevereiro de 2018 (Brasil)
Direção: Ryan Coogler
Música composta por: Ludwig Göransson
Figurino: Ruth E. Carter
Roteiro: Ryan Coogler, Jack Kirby, Joe Robert Cole

Publicidade Anuncie

Fotos: foto 1: Arquivo; foto 2: Divulgação; foto 3: Divulgação; foto 4: TV Globo/Divulgação; imagem 5: Giphy/Reprodução; foto 6: Pixabay


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Artista usa body painting para se disfarçar de tartaruga marinha; consegue enxergar?