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Primeiro time de rugby LGBTQ inclusivo é para todas as orientações sexuais, gêneros e corpos

por: Mari Zendron

Considerado violento e extremamente masculino, o rugby não era esporte para um menino gay. Era isso que Bruno Kawagoe acreditava e foi por isso mesmo que ele decidiu praticar a modalidade pouco antes de assumir a homossexualidade, ainda na faculdade. Achava que se conseguisse fazer algo muito diferente do que se espera de um homossexual, ele poderia ser o que quisesse.

Superado o desafio, Bruno, que se dedica ao rugby há oito anos, acha que é o momento de discutir e criar novas dinâmicas para os LGBTs nos esportes. Por isso, em maio de 2017, ao lado de Marcelo Cidral e Alan Alves, ele criou o primeiro time de rugby LGBTQ+ inclusivo do Brasil, o Tamanduás Bandeira.

“A gente sabe que a LGBTfobia impede muitas pessoas de praticarem esportes coletivos e por isso quisemos criar um time 100% acolhedor. E é LGBTQ+ inclusivo porque não faria sentido excluir os héteros, por exemplo”, explica Bruno.

Os treinos acontecem no sábado, às 15h, no gramado do Obelisco do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. No primeiro treino do ano, mais de 30 pessoas chegaram no horário combinado. 10 estavam ali pela primeira vez, a maioria levado por amigos que já estão no time.   

Ser acolhedor não é ser leve

Quem chega logo percebe que ambiente acolhedor é bem diferente de moleza. O treino começa com 15 minutos de corrida debaixo de um sol de janeiro, com direito àquela brisa quente que não dá trégua nem na sombra.

Lésbicas, Gays, Héteros e transexuais jogam juntos. Bruno e Alan só separam o grupo entre iniciantes e experientes porque ninguém quer tomar uma tackle (maneira de parar o jogador que está com a bola por contato físico) sem saber o que está acontecendo.

Esse foi o primeiro dia de Andrê Vinícius e ele já estava se sentindo à vontade e feliz por ter saído de casa. “O rugby pode parecer intimidador, com um ambiente machista, mas esse time vem dar novo sentido a isso. Às vezes as pessoas têm vontade, mas não tem coragem de vir. Eu tomei coragem, apareci e to muito feliz porque a gente tem que botar a cara no sol”.

O melhor corpo para jogar rugby é o seu

Além do temido tackle, os iniciantes aprendem noções de passe e queda. “As pessoas acham que é um esporte muito violento, mas há técnicas para cair e derrubar o outro sem que as pessoas se machuquem”, diz Marcelo.  

Alan assume a responsabilidade de dizer aos iniciantes que não apenas todas as orientações sexuais são bem-vindas, como todos os tipos de corpos também. “Essa já é uma inclusão que já é desse esporte. Há diversas posições no rugby e elas requerem diferentes tipos físicos”, diz Alan. Os mais leves podem ganhar velocidade e disparar com a bola, os mais pesados podem dar conta melhor da defesa. Então é aquele ditado, o melhor corpo para jogar rugby é o seu.

No grupo dos mais experientes, as jogadas são repetidas à exaustão. Se passar a bola sem olhar pro colega? Todo mundo paga dez flexões. Não dá para vacilar, os fundadores querem para este ano levar o Tamanduás Bandeira para os primeiros amistosos e para o Gay Games de Paris. “Mas a gente tem a preocupação de competir contra um time que não tenha preconceito. Em campo, não há orientação sexual. e quem tem preconceito também perde a oportunidade de jogar com pessoas diferentes”.

Bruno conta que o time não têm só conquistas em campo, mas também nos debates. Time LGBT de rugby é para galera se pegar né? Eles já ouviram. “A gente está tão concentrado nos passes, ataques e quedas que não é aqui que a gente vai pegar alguém”.

O sol se esconde e rapidamente dá lugar para uma chuva de verão, mas o treino continua porque, como diz Bruno, “somos feitos de purpurina e não de açúcar”. Marcelo já havia explicado sobre a importância de ter liberdade para fazer esse tipo de piada em campo. “A gente cresce com esse negocio que esporte em equipe é essa coisa de macho. Aqui você tem a liberdade de ser quem você é, desmunhecar, fazer brincadeira. Isso acaba refletindo no desempenho do atleta porque você se entrega mais, não tem medo de fazer contato com os colegas e não se sente inferiorizado por ser gay”.

Trans no rugby

Roberta Proença já havia jogado em times de beisebol e futebol americano fora do Brasil. “Quando você vai jogar com meninos, tem muito machismo, muita piadinha. E isso piora quando tem um LGBT no meio de um monte de macho. Já tentei jogar em time feminino e disseram que eu ia tirar o equilíbrio porque sou mais forte, o que não é verdade”.

Como principal qualidade do time, Roberta ressalta a inclusão, mas também conta que ficou surpresa como  a galera leva o time a sério. Para 2018, ela quer mais pessoas como ela, mais diversidade.  “Acho que sou a única trans do time e quero ainda mais diversidade. Mas eu fico feliz que mais meninas começaram a aparecer para jogar”.

Depois de muita corrida, tombos, tackles, sol, calor e chuva, o treino de duas horas chega ao fim, todos os participantes sentam numa roda e podem falar abertamente se algo incomodou, o que pode melhorar ou só para elogiar mesmo. Em seguida, os novatos falam por que estão ali, o que acharam. É um momento de mais união e certeza de que aquele será o primeiro de muitos treinos e conquistas.

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Mari Zendron
Mari Zen é jornalista formada pela PUC-SP e youtuber. Como jornalista, já trabalhou na G Magazine, Portal Imprensa e UOL. Há anos, escreve sobre cinema e música e sempre gostou de conversar sobre gênero e comportamento. Foi aí que criou um canal só dela no YouTube para falar dessas questões. Jura que ainda arranja um tempo para tocar violão e cantar músicas que gostaria de ter composto.

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