Arte

‘Seja água, meu amigo’: O Bruce Lee filósofo, fã de psicologia e lutador inigualável

por: Vitor Paiva

A internet nos ensinou que Chuck Norris é um ser imbatível, capaz de desafiar as leis da natureza e derrotar qualquer inimigo com sua força e sua inteligência. Quando Chuck Norris pisa em uma peça de lego, é o lego que chora; ele é capaz de fazer fogo esfregando dois cubos de gelo, seu diário é o Livro dos Recordes, ele corta a faca com a manteiga e construiu o hospital em que nasceu.

Chuck Norris teria morrido há anos, mas a morte ainda não teria tido coragem de vir busca-lo. Só há um pequeno detalhe faltando ao redor de tal mística, e que não pode ser esquecido: Chuck Norris foi derrotado por Bruce Lee.

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Foi em 1972, quando Bruce Lee foi a Roma ajudar uma amiga e sua família a vencer a máfia local. O confronto aconteceu no Coliseu romano e, apesar das dificuldades e dos ferimentos – era, afinal, ninguém menos que Chuck Norris quem ele estava enfrentando – ao fim Bruce Lee humilha Norris, que mal se aguenta em pé, finalizando-o com facilidade. Ok, a luta não aconteceu de verdade, mas sim no filme “O Voo do Dragão”, mas o fato é que Chuck Norris foi derrotado – e o nome por trás de tal façanha é o de Bruce Lee.

Oi, meu nome é Bruce Lee e eu tenho uma façanha incrível: venci Chuck Norris

Se você não sabia quem foi Bruce Lee, a melhor maneira de conhecer o personagem é assistindo seus filmes (vale também para quem simplesmente deseja matar as saudades e se divertir com a obra desse grande artista). E a oportunidade perfeita virá nesse domingo, dia 25, quando o canal A&E oferecerá uma incrível maratona especial Bruce Lee com três de seus maiores clássicos em sequência: O Dragão Chinês, às 18hs, O Voo do Dragão, derrotando Chuck Norris às 20hs, e  A Fúria do Dragãoàs 22hs.

Não é exagero afirmar que, em uma indústria cultural dominada de modo geral por americanos e ingleses (com raras exceções para alguns artistas europeus), Bruce Lee é um dos únicos artistas do chamado “terceiro mundo”, (países periféricos  e em desenvolvimento), a se tornar um nome reconhecido mundialmente – talvez somente Bob Marley e Pelé estejam nessa mesma categoria.

Cena do filme O Voo do Dragão

Nascido em Hong Kong mas tendo ido para os EUA aos 18 anos, na década de 1970 Bruce Lee não só se tornou um fenômeno de popularidade como um sinônimo de filmes de luta, ajudando muito à popularização das lutas marciais orientais pelo ocidente. Seu sucesso e a estética de seus filmes e de suas lutas o elevou à condição de um verdadeiro ícone da cultura pop do século 20.

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Apesar da estetização exagerada e da dramatização das lutas, Bruce Lee foi de fato um mestre nas artes marciais, tendo treinado principalmente tai chi, kung fu, wing chun, boxe e judô desde criança. Foi duas vezes campeão de boxe em Hong Kong, antes de migrar para os EUA. Somava aos seus talentos para a luta seus conhecimentos profundos sobre filosofia oriental e ocidental. Na Universidade de Washington, Lee cursou filosofia e estudou também psicologia e teatro, em 1961.

Lee também escrevia poesia, como uma de suas formas de expressão preferida. Nessa época, ele já era também professor de artes marciais nos EUA. Em um torneio de Karatê, em meados da década de 1960, Bruce Lee foi descoberto por um produtor de Hollywood, e convidado a atuar – nascia assim o mito.

O jovem Bruce Lee

Foram cinco os principais filmes que elevaram Lee à condição de ícone idolatrado no mundo todo – tornando-se um verdadeiro herói nacional na China: Dragão Chinês, de 1971, A Fúria do Dragão, de 1972, o já citado O Voo do Dragão, também de 1972 (no qual não só Chuck Norris é derrotado, como é o único filme totalmente escrito e dirigido por Lee), Operação Dragão, de 1973, e Jogo da Morte, de 1972 – o filme incompleto de sua carreira. Bruce Lee aceitou uma proposta milionária para estrelar Operação Dragão durante a filmagem de Jogo da Morte e, quando começava a se planejar para retomar o filme, viria a falecer aos 32 anos.

Pôster do filme A Fúria do Dragão

O filme foi concluído com os mais de 100 minutos filmados previamente, com dubladores completando as falas de Lee, em uma versão incompleta mas que alcançou bastante sucesso – apesar da crítica o ter considerado de mal gosto por incluir imagens do funeral real de Lee, e por soluções gráficas e efeitos especiais toscos utilizados para solucionar sua ausência.

Cena do filme O Voo do Dragão

Bruce Lee morreu aos 32 anos de um edema cerebral, provavelmente por reação a remédios. A morte precoce e a eternização de sua juventude – condições tão comuns entre os ícones da arte e da cultura do século 20 – solidificaram ainda mais a mitologia ao seu redor, assim como as teorias conspiratórias de que teria sido assassinado pela máfia chinesa, e até mesmo de que haveria uma maldição sobre sua família (a misteriosa morte de seu filho Brandon Lee, aos 28 anos em 1993, durante uma filmagem por conta de uma falha em revólver que deveria trazer balas cenográficas mas que de fato disparou um projétil, sublinhou ainda mais a teoria da maldição).

Bruce Lee e Chuck Norris nos bastidores da filmagem

Seja como for, o fato é que Bruce Lee saiu da vida para entrar para a história, e definir toda a estética dos filmes de lutas que tanto marcariam a cultura pop vigente. Sua imagem se imortalizou em seus filmes, como os que serão exibidos na maratona do A&E Movies deste domingo. Mas não somente: as lutas marciais, a poesia e a filosofia se misturavam no trabalho desse artista.

Outro pôster

“Esvazie sua mente de modelos, formas, seja amorfo como a água”, ele disse. “Você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. Você coloca a água em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Você coloca ela em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir, a água pode destruir. Seja água, meu amigo.”

A maratona será exibida no canal A&E no próximo domingo, dia 25 – das 18h em diante.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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