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13 anos, drogada, prostituída: a vida de Christiane F., 40 anos depois de seu histórico livro

Vitor Paiva - 05/03/2018 | Atualizada em - 03/03/2021

O muro de Berlim não havia completado um ano de sua construção e a fatiada Alemanha era então o epicentro simbólico da guerra fria quando Christiane Vera Felscherinow nasceu, em 20 de maio de 1962, na cidade de Hamburgo, a cerca de 288 quilômetros da então dividida capital do país. Hamburgo fazia parte da Republica Federal da Alemanha, a Alemanha Ocidental, no lado “capitalista” do muro e, com o segundo maior porto da Europa e sendo a segunda maior cidade alemã, à época se dava por lá um efervescente e complexo momento sociocultural, com a pobreza e a criminalidade em alta ao redor de uma insurgente e interessante cena musical protagonizada pelas bandas de rock de então.

Christiane Vera Felscherinow, a Christiane F., em 2013

Antes de se tornarem mania em todo o mundo, uma das bandas que mais se apresentaram em Hamburgo durante o início dos anos 1960 foram os Beatles, então somente um esforçado e talentoso novo grupo do noroeste da Inglaterra. A banda se apresentaria na cidade entre 1960 e o fim de 1962 mais de 250 vezes – Christiane havia completado somente 7 meses de idade, em dezembro de 1962, quando os quatro rapazes de Liverpool tocaram por lá pela última vez, deixando Hamburgo para ganharam o mundo nos meses seguintes.

Curiosamente a música teria papel importante na vida e história de Christiane, mas a herança mais direta que carregaria de sua infância em Hamburgo seria a relação com submundo da violência e da criminalidade que tomavam conta de sua cidade natal quando os Beatles se apresentavam por lá – e quando ela nasceu. A jovem alemã cresceria rumo a um destino especialmente precoce, marcado pelas drogas e pela prostituição antes mesmo de completar 14 anos. Outra marca de seu destino, porém, seria o sucesso de seu relato, contando justamente essa dura trajetória ao longo de sua infância e adolescência, no livro autobiográfico Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída.

Christiane aos 13 anos, em foto que se tornaria capa de seu livro

Lançado há 40 anos, o livro venderia milhões de cópias instantaneamente, chocando e fascinando não só a austera sociedade alemã do final dos anos 1970 como a todo o mundo ao detalhar quatro anos da vida de Christiane – dos seus 12 aos 15 anos de idade – atravessados entre o vício de heroína, o consumo desenfreado de outras drogas, a prostituição infantil, e revelando a dura realidade das ruas da Berlim ocidental da época. Três anos depois de seu lançamento, em 1981, Eu, Christiane F…. seria adaptado em filme, também alcançando vasto sucesso e transformando a personagem em um complexo ícone pop,  que revelava também o lado sombrio e real que há nas juventudes do mundo todo. Christiane se tornava ao mesmo tempo uma junkie star e uma bandeira sobre o mal das drogas; uma estrela e uma denúncia.

Aos 15 anos, época em que escreveu o livro com dois jornalistas

Por trás dessa incrível e assombrosa trajetória, havia, no entanto, uma pessoa – uma menina, atravessando tais imensas dores do crescimento sob os holofotes do mundo, e ainda lutando contra o vício e as curvas de sua própria história, migrando violentamente da pobreza extrema e da dureza das ruas de Berlim para a fama e a riqueza sem qualquer preparo ou apoio. Quando livro foi lançado, Christiane tinha somente 16 anos, e quando o filme chegou às telas, ela tinha 19. Ninguém acreditava, então, que aquela jovem perdida sobreviveria muitos anos – e até hoje não acreditam que ela ainda está viva.

Christiane em entrevista aos 18 anos

Os 40 anos de seu histórico relato, lançado em 1978 e hoje tendo alcançado mais de 5 milhões de cópias vendidas no mundo são, no entanto, também símbolo de seus 56 anos de vida, a serem completados em maio próximo. Christiane Vera Felscherinow segue viva, ainda lutando contra as drogas, vivendo dos direitos de sua história, com uma das mais famosas histórias de vício em todo o mundo. “Eu sou e vou continuar sendo uma junkie star”, ela diz, comentando o fato das pessoas até hoje lhe pedirem autógrafos e fotos. “Como um animal de feira”.

Foi quando tinha somente 6 anos de idade e sua família se mudou para Berlim que tudo desmoronou. Filha de um pai abusivo e de uma mãe negligente, com a separação de seus pais Christiane passou a se aventurar pelas pobres e perigosas ruas da cidade – antes dos dez anos já estava envolvida em pequenos furtos e começando a beber. Aos 12 anos, enquanto consumia haxixe e LSD, ela conheceu Detlef, seu namorado de então (assim como diversos outros personagens imortalizados no livro) na boate Sound. Aos 13, descobriu a heroína em um show de David Bowie, e aos 14 já se prostituía. Christiane tinha 15 anos quando se encontrou com os jornalistas Kai Herrmann e Horst Rieck e dividiu com eles sua história – que inicialmente foi publicada em uma série de artigos para a revista Stern, e depois transformada em livro.

Berlim em meados dos anos 1970, com a entrada da boate Sound à direita

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída revelou as experiências de uma geração na Alemanha que, em muito, refletia as experiências de diversos jovens pelo mundo. Ela e outros adolescentes frequentavam a estação Bahnhof Zoo, próxima ao zoológico, na região mais decadente de Berlim, onde se prostituíam, comprovam, vendiam e consumiam drogas. O estilo cru e direto com que o livro foi escrito – a força da franca e fluente exposição de uma vivência tão dura e intensa por uma criança, como que revelando um lado real, assustador inclemente e especialmente próximo da juventude de modo geral – não só ajudou no sucesso da publicação como fez de Christiane F…. um importante documento sobre o tema.

A estação de metrô Bahnhof Zoo no final dos anos 1970

Desde o lançamento e até hoje Christiane admite que jamais esteve totalmente longe das drogas – entre períodos limpos e recaídas intensas, em 2013 ela confirmou que seguia bebendo, fumando maconha e lutando contra o vício em metadona. Mesmo se livrando da heroína, o álcool e a cocaína seguiram como seus parceiros de vida por muitos anos – ela confirma que jamais quis de fato desistir das drogas. “Eu não conheço nada além disso”, afirmou há cinco anos, quando do lançamento de seu último livro, Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo – espécie de segunda biografia em continuação, lançada em 2013.

A atriz Natja Brunckhorst vivendo Christiane em cena do filme baseado no livro

Christiane no início dos anos 1980, já após o sucesso de seu relato

Depois do sucesso, Christiane contraiu hepatite C em uma seringa compartilhada no início dos anos 1980, teve cirrose hepática, foi presa algumas vezes, teve um filho em 1996, perdeu, reconquistou e novamente perdeu a custódia de sua criança, mas sempre seguiu, tão humana e franca quanto possível. “Eu morrerei em breve. Eu sei disso. Mas eu não deixei de fazer nada em minha vida. Estou bem com isso. Então, eu não recomendaria: essa não é a melhor vida para se viver, mas é a minha vida”, ela diz, na abertura de seu último livro.

Em sua casa, à época de seus 18 anos

Sendo sua essa vida, Christiane luta para não ser aprisionada na personagem que foi criada no imaginário coletivo a partir do que viveu e contou. “O que mais me incomoda é essa coisa sobre Christiane F. ‘Será que ela está limpa agora, ou não?’. Como se não houvesse nada mais para ser dito sobre mim. E eu não consigo ficar limpa. É o que todos sempre esperaram de mim. Os médicos reclamam, mas eu tenho uma vida, no fim das contas”, ela diz, expondo o paradoxo a respeito da grande vivência de sua história ser também seu maior problema.

Cena do filme

Foi a partir de tal paradoxo que sua vida se constituiu, para o mal e para o bem. Talvez não reconhecer a ambiguidade do uso de drogas em geral seja um dos mais graves e alienantes preconceitos sobre o tema – e que a história de Christiane ajuda a iluminar e combater. Para além da questão policial e de sua relação direta com a violência (provocada não pelos consumidores, mas sim pela proibição e falta de regulação), as drogas podem ser, para muitos, um alento possível, algo que lhes permite atravessar as contrariedades que a vida sempre tem. Seu perigo está justamente no imenso prazer e alívio que podem momentaneamente proporcionar, enquanto são capazes de destruir a vida de quem as usa em excesso.

Assim, uma das mais famosas viciadas em todos os tempos admitiu, em 2013, não carregar nenhum arrependimento. “A heroína é parte de quem eu sou, como poderia me arrepender? Ela me fez rica, me fez famosa. Eu viajei no jatinho do David Bowie, e tudo por causa dela”. Christiane F. se tornou uma referência para a moda, a cultura pop e jovem, e um personagem importante no debate sobre o consumo de drogas e sua época.

Por trás da personagem, porém, Christiane Vera Felscherinow segue, tentando ter uma vida que não se defina somente pelas substâncias que ingeriu e ingere, mas sim por quem ela é – uma mulher corajosa e forte, que decidiu oferecer ao mundo as próprias feridas para que, quem sabe, outras como ela não precisassem atravessar o mesmo calvário. A vida, apesar de tudo – como seu livro diz – pode ser sempre mais do que somente nossas dores e vícios.

 

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© fotos: divulgação/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutor em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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