Matéria Especial Hypeness

55 anos hoje: o lançamento de Please, Please Me, o primeiro disco dos Beatles

por: Vitor Paiva

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Foram necessários somente 32 minutos e 45 segundos divididos em 14 músicas para que um disco, há 55 anos, transformasse não somente a face do rock, mas da música popular e do mundo como um todo. Lançado no dia 22 de março de 1963, Please, Please Me, o álbum de estreia do Beatles, viria para confirmar o sucesso que a banda já vinha alcançando com o lançamento de seus dois primeiros compactos, Love Me Do e a faixa Please, Please Me, mas também para anunciar o surgimento da maior dupla de compositores populares do século XX: John Lennon e Paul Mccartney – e, com eles, a chegada de uma verdadeira revolução cultural.

Apesar da grandeza do legado ao qual Please, Please Me viria a servir como canto de abertura, sua gravação foi o oposto de uma superprodução. Se ao longo da história tornou-se comum que bandas atravessem meses a fio para a gravação de um disco, boa parte da estreia dos Beatles foi concluída em somente um dia – ou menos ainda: a sessão de gravação do disco começou às 10hs da manhã do dia 11 de fevereiro de 1963, e às 22h45 desse mesmo dia, cerca de 13 horas depois, Lennon terminou de gravar os vocais de “Twist and Shout”, faixa que encerrava o disco, concluindo as gravações.

A banda durante as sessões de gravação de Please, Please Me

Enquanto hoje qualquer notebook oferece possibilidades infinitas de gravação, à época o que os Beatles tinham para gravar era mesmo a incrível sala do estúdio Abbey Road, da EMI, talento e nada mais. O disco foi registrado em um gravador de dois canais somente, com, de modo geral, um canal para todos os instrumentos, e outro para as vozes. 10 das 14 faixas do disco foram registradas nesse dia, e hoje parece literalmente incrível supor que um disco possa ser gravado ao vivo, em um dia, quase que às pressas, com tão poucos recursos – e que o resultado possa ser tão  transformador quanto foi Please, Please Me.

As faixas “Love Me Do”, “P.S. I Love You”, “Ask Me Why” e a faixa-título já haviam sido gravadas pouco antes, para serem lançadas como compactos, mas outros clássicos como “Twist and Shout” e “I Saw Her Standing There” (que abre o disco com a inconfundível contagem de McCartney – um “one, two, three… four!” digno do que os Ramones viriam a fazer 13 anos depois), entre muitas outras, foram gravadas nesse mesmo dia. Pois, entre covers e faixas originais, o repertório é um dos pontos mais importantes do disco.

Junto do produtor George Martin, durante as gravações

Segundo a revista Rolling Stone, foi nesse disco que os Beatles “inventaram a ideia de ‘banda de rock’ como conhecemos, autossuficiente, tocando todos os instrumentos e compondo os próprios sucessos”. Além de tocarem todos os instrumentos e cantarem todas as faixas – o que na época não era comum, pois os discos eram normalmente gravados por músicos de estúdio, contratados para a gravação -, dentre as 14 faixas do disco, 8 eram de autoria de Lennon e McCartney (creditadas nesse disco como McCartney-Lennon).

Se hoje a figura do compositor que canta as próprias músicas, tão comum no universo do folk e do blues, por exemplo, dentro do rock é corriqueira, na época tal prática era um tanto inédita, salvo raros e então recentes exemplos como Buddy Holly e Chuck Berry. Não é exagero, portanto, confirmar e ir além da afirmação feita pela Rolling Stone: em Please, Please Me os Beatles inventaram a própria noção do que é uma “banda de rock”, esse conceito tão natural e fundamental para boa parte do que entendemos como música pop após o início dos anos 1960. Estão presentes no disco o vigor, a energia e a inquietação juvenil que se tornariam espécie de motor emocional, de sangue corrente do que o rock n’ roll viria a ser: jovens com corações em fúria, falando sobre e para a juventude (independentemente da idade cronológica dos que cantam), a fim de criar o som de um novo mundo.

Pois, ainda que seja evidente o impressionante processo de sofisticação e amadurecimento que a banda atravessaria ao longo dos 7 anos que se seguiriam até seu fim, em 1970, se enganam os que só reconhecem qualidade, refinamento ou significado na última metade da carreira da banda – a partir de verdadeiras obras-primas como os discos Revolver, Sgt. Pepper’s, o Álbum Branco ou Abbey Road. A força, o vigor, a qualidade vocal, a firmeza enquanto banda e a substantiva diferença que o rock apresentado pelos Beatles já em 1963 afirmava com relação a seus pares americanos – somado ao imenso talento para escrever canções irresistíveis que já se confirmava em John e Paul – foram o combustível essencial para o que se tornaria o ponto de partida de toda a revolução cultural ligada ao rock na década de 1960 e em diante. Não é possível falar de bandas de rock sem partir dos Beatles.

Ao vivo, à época do lançamento do disco

O vocabulário poético da banda, é verdade, era ainda um tanto restrito se comparado ao que viriam a criar como compositores nos anos seguintes – segundo Paul McCartney, o excesso de pronomes pessoais, como “eu”, “você”, “ela” nos títulos e letras (todas sobre amor) era uma maneira planejada de se comunicar mais diretamente com as fãs, como se as canções pudessem sempre ser de fato para cada pessoa que estivesse ouvindo. De qualquer forma há, em paralelo à energia e à vitalidade que a sonoridade da banda apresenta nesse disco, certa doçura, certa fragilidade, e principalmente uma franqueza que parecem fazer de Please, Please Me um trabalho íntimo, próximo, até hoje quente e vigoroso.

O disco custou à época 400 libras para ser feito, e basicamente registrou em disco o show que a banda já havia realizado algumas centenas de vezes nos anos anteriores, em excursões pela Inglaterra e outros países da Europa. Segundo o lendário produtor George Martin, o curto tempo utilizado pela banda para tal registro, mesmo para um experiente produtor como ele, pareceu de fato surpreendente. “Eu não sei como eles fizeram isso. Estávamos gravando o dia todo, mas quanto mais a gente seguia melhor eles soavam”, ele disse (Lennon, que estava resfriado no dia, deixou a faixa “Twist and Shout” como última voz a ser gravada, pois sabia que depois dos roucos gritos que daria ele perderia a voz – e o resultado é uma das mais celebres faixas da história do rock). O crítico e historiador Mark Lewisohn (uma das maiores autoridades internacionais sobre os Beatles), sobre o disco ter sido gravado em um dia, não se intimida em afirmar que “esses provavelmente foram os 585 minutos mais produtivos na história da gravação musical”.

A hoje icônica capa do disco, com os quatro jovens Beatles olhando para baixo do alto do vão de uma escada, foi uma fotografia feita um tanto às pressas, no próprio prédio da EMI, como uma solução improvisada para a capa.

Outras duas fotos da sessão para a capa do disco

A imagem foi clicada pelo lendário fotógrafo inglês Angus McBean, que viria a recriar a foto, em 1969, em imagem que se tornaria a capa de uma coletânea da banda.

Please, Please Me alcançaria em maio de 1963 o topo das paradas inglesas, onde permaneceu por impressionantes 30 semanas, sendo derrubado do primeiro lugar somente por With The Beatles, o segundo disco da banda (que permaneceria como o disco mais vendido da Inglaterra por 21 semanas, fazendo com que os Beatles ocupassem por mais de um ano ininterruptamente o topo das paradas inglesas).

Junto com o produtor George Martin

O disco de estreia da maior banda de todos os tempo foi lançado um ano antes dos Beatles conquistarem os EUA, com o compacto de “I Wanna Hold Your Hand” e a apresentação no programa de TV The Ed Sullivan Show, em fevereiro de 1964 – quando, com isso, conquistariam também o mundo todo.

À época do lançamento de Please, Please Me, porém, os Beatles já eram uma banda em vertiginosa ascensão na Europa, e o álbum os transformaria na maior banda do continente – como um primeiro passo concreto para que o depois foi chamado de Beatlemania.

Nenhuma outra banda se aproximaria sequer não só dos números de discos vendidos (recorde que até hoje sustentam, com números estimados que superam em muito a marca de 600 milhões de discos vendidos, como os maiores vendedores de disco da história) como principalmente do impacto cultural e da influência que os Beatles viriam a provocar. Com meros sete anos de duração a partir do lançamento do primeiro disco até o fim da banda, a verdade que os Beatles não só transformariam pra sempre a face da música pop como o próprio mundo, criando a mitologia essencial que sustenta a mística ao redor das bandas de rock até hoje – e a pedra fundamental de tal percurso foi mesmo Please, Please Me, um disco cru, rápido e pleno em energia e vigor, força e sentimentalidade, apontando ao futuro o combustível para toda grande banda de rock.

 

 

 

 

 

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© fotos: Getty Image/Pinterest/Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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