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Astro da NBA fala de ataque de pânico em quadra e critica cultura do ‘homão da p*rra’

por: Kauê Vieira

Campeão da NBA em 2016, Kevin Love é um dos principais nomes da equipe do Cleveland Cavaliers. Conhecido por seus arremessos certeiros da linha dos três pontos, o ala-pivô virou o assunto do momento em função de uma experiência recente de ataque de pânico.

Em carta publicada no site Players Tribune, espaço usado principalmente por jogadores de basquete norte-americanos, Love revelou ter sido surpreendido com o ataque de pânico durante partida realizada no último dia 5 de novembro, contra o Atlanta Hawks.

“Ele (o ataque de pânico) veio do nada. Nunca tive nada parecido antes. Não sabia nem se isso era real. Mas de fato era tão real quanto um estiramento na coxa ou um braço quebrado. Quando sentei no banco de reservas senti meu coração batendo mais rápido do que o normal. Depois estava com dificuldades em respirar. É difícil descrever, mas parece que meu cérebro estava se descolando de minha cabeça.

Love relatou a experiência para quebrar pensamento machista

Três dias depois de ter completado 29 anos, Kevin Love passava por momentos complicados, tanto pelos problemas pessoais, quanto pela crise vivida com o Cleveland Cavaliers, criticado pelo baixo rendimento nos últimos jogos da temporada regular. Para o atleta, a pressão de ambos os lados foi decisiva para seus nervos não resistirem.

“Eu não estava dormindo bem. Na quadra alimentava outras expectativas para a temporada. Tudo estava pesando nas minhas costas. Aliás, eu sabia que algo estava errado assim que a bola subiu e a partida começou,” relata.

Cada vez mais comum em um mundo de movimento tão frenético, a síndrome do pânico é caracterizada pelo intenso medo ou mal-estar, que acompanhados de sintomas físicos e cognitivos alcançam intensidade máxima em cinco minutos, causando um medo de morrer persistente na pessoa. No Brasil, cerca de 1% da população tem um ataque de pânico por ano e 5% dos adultos relatam já terem passado por essa situação.

Em uma liga envolvendo investimentos bilionários e com uma cobrança fortíssima, o atleta precisa estar preparado não só fisicamente, mas também mentalmente. Sendo assim, o desconhecimento principalmente dos homens sobre o assunto ainda dificulta uma mudança de postura. Love inclusive revela ter tido receio de falar sobre o acontecido com seus colegas de time e dirigentes do clube. É preciso aqui levar em consideração a cultura do machismo que se desenvolve não só na NBA, mas em outras modalidades esportivas, como o próprio futebol. 

“Experiência própria, crescendo como homem estou condicionado a agir de uma determinada forma. Você aprende o que é necessário para ‘ser um homem’. É uma espécie de cartilha que diz: seja forte, não fale sobre seus sentimentos. Supere as dificuldades sozinho. Então, por 29 anos eu segui estas recomendações. E olha só, eu não estou falando nada de novo aqui.”

Depois de alguns dias, Love disse estar se sentindo melhor e em quadra isso se refletiu com uma performance de mais de 30 pontos. Entretanto, o medo de ser descoberto ainda pairava. Mas, depois de muito refletir, o atleta acabou percebendo que tinha em mãos a responsabilidade de melhorar este cenário envolvendo jogadores de alto rendimento e também seus admiradores.

“Hoje eu percebo que preciso mudar isso. Quero dividir meus pensamentos sobre a experiência com o ataque de pânico. Se você sofre silenciosamente como eu, dá pra entender os motivos de ninguém entender do que se trata. Então, quero fazer isso por mim, mas principalmente porque as pessoas não falam o suficiente sobre saúde mental. E homens e meninos estão ainda mais longe disto.

Após a publicação da carta, Love recebeu o apoio de diversas pessoas, inclusive do colega de equipe Lebron James, que demonstrou seu respeito afirmando que ele “estava mais forte do que em qualquer momento.”

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Foto: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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