Debate

Atriz Evan Rachel narra estupro em depoimento poderoso no congresso dos EUA

Kauê Vieira - 01/03/2018

Em um depoimento emocionante no Congresso Nacional dos Estados Unidos, a atriz e ativista Evan Rachel Wood falou abertamente sobre os dois estupros que sofreu e as feridas psicológicas e físicas causadas pelos atos.

Defendendo a implementação da Declaração dos Direito Civis para Sobreviventes de Assédio Sexual em todos os 50 estados do país, Wood destacou também a necessidade de uma rede proteção como maneira de salvar a vida de alguém. Atualmente em apenas nove estados a lei é aplicada com correção.

“Esta lei é apenas o primeiro passo na direção de expectativas melhores em relação ao que é certo e quais parâmetros vamos esperar enquanto sociedade. O reconhecimento de direitos civis básicos a sobreviventes de assédio e violência sexual serve como primeiro passo, uma rede de proteção que pode salvar a vida de alguém. Isso é progresso e começa aqui,” disse diante dos congressistas no Capitol Hill, em Washington DC.

A atriz narrou os abusos sofridos em depoimento emocionante

Em um tempo onde os constantes abusos sexuais ganharam os holofotes e manchetes de jornais em todo o planeta, atingindo inclusive personalidades de Hollywood, como o ator Kevin Spacey, a atriz reconhece os avanços, ao mesmo que tempo em que narras as dificuldades da caminhada.

“Este último ano os grandes movimentos como o ‘Me Too’ e o ‘Time’s Up’ foram extremamente empoderadores e validaram sobreviventes, mas também foram incrivelmente difíceis. Embora ninguém precisasse me dizer que estupro é uma epidemia global, ver tantas histórias similares à minha foi ao mesmo tempo libertador e devastador. Ondas de memórias voltavam a cada vez que eu lia as palavras, ‘eu congelei’.”

Com mais de 20 anos de carreira, Evan Rachel Wood, conhecida por papeis em filmes como Tudo Pode Dar Certo e Across The Universe, disse ter sido abusada de várias maneiras e ter tido inclusive sua vida ameaçada.

“Abuso tóxico mental, físico e sexual, que começou lento, mas escalou com o tempo, incluindo ameaças à minha vida *gaslighting e lavagem cerebral. Acordar com o homem que dizia me amar estuprando o que ele achava ser meu corpo inconsciente, e a pior parte, os rituais doentios de prender minhas mãos e pés para ser mental e fisicamente torturada até meu abusador sentir que eu tinha ‘provado meu amor por ele.’”

Ressaltando a necessidade de um acompanhamento psicológico ao longo do caminho de recuperação das vítimas, a atriz citou outras mulheres engajadas, como Emma Watson, responsável pela doação de mais de R$ 4,5 milhões para campanhas que combatem o assédio sexual.

“Este foi um ponto de virada na minha vida e quando eu comecei a buscar ajuda profissional para lidar com o trauma e o desgaste mental. Outras pessoas não têm tanta sorte e, por isso, o estupro é mais do que alguns minutos de trauma, mas uma morte lenta”, salientou.


Abaixo vocês podem conferir a íntegra do poderoso discurso de Evan Rachel Wood:

“Meu nome é Evan Rachel Wood e eu sou uma artista. Mas também sou uma sobrevivente de violência doméstica e abuso sexual, e mãe solteira de um menino.

Quando eu tinha 5 anos comecei a trabalhar em filmes e todos os dias desde então tenho trabalhado para alcançar o lugar privilegiado que estou ciente de ocupar. Estou aqui hoje para usar minha posição enquanto artista, sobrevivente, mãe e ativista para trazer uma voz humana à população de 25 milhões de sobreviventes nos Estados Unidos que atualmente vivem uma situação de desigualdade sob a lei, e que desesperadamente precisam de direitos civis básicos.

Eu luto para falar com vocês hoje, porque não sei ao certo quais palavras são apropriadas para discutir este assunto. No entanto, se vocês não puderem ouvir a verdade completa, nunca vão entender empatia e eu acredito no ditado: ‘Se nós tivemos que vivê-lo, vocês deveriam ouvi-lo.’

Este último ano e os grandes movimentos como o ‘Me Too’ e o ‘Time’s Up’ foram extremamente empoderadores e validaram sobreviventes, mas também foram incrivelmente difíceis. Embora ninguém precisasse me dizer que estupro é uma epidemia global, ver tantas histórias similares à minha foi ao mesmo tempo libertador e devastador. Ondas de memórias voltavam a cada vez que eu lia as palavras, ‘eu congelei’.

Eu achava que eu era a única pessoa a ter passado por isso. Eu carreguei tanta culpa e dúvida sobre a minha resposta ao abuso. Eu aceitei minha impotência e senti que merecia aquilo de alguma forma. Por quê? Anos depois de processar e olhar para o passado, eu finalmente me perguntei, ‘por que eu me senti desta forma?’
Há dois momentos específicos de assédio que eu vivi e realmente ficaram grudados na minha mente. De fato, eles estão gravados no meu cérebro. Marcados para a vida toda, uma cicatriz mental que eu sinto todos os dias.

Minha experiência de violência doméstica foi essa.

Abuso tóxico mental, físico e sexual, que começou lento, mas escalou com o tempo, incluindo ameaças à minha vida, gaslighting e lavagem cerebral. Acordar com o homem que dizia me amar estuprando o que ele achava ser meu corpo inconsciente, e a pior parte, os rituais doentios de prender minhas mãos e pés para ser mental e fisicamente torturada até meu abusador sentir que eu tinha ‘provado meu amor por ele.’

Neste momento, enquanto eu estava imobilizada e sendo espancada e ouvindo coisas indizíveis, eu senti que eu poderia morrer, não apenas porque meu abusador me dizia, ‘Eu poderia te matar agora’. Mas porque naquele momento eu senti como se estivesse saindo do meu corpo. Eu tinha medo de fugir, ele me encontraria. Eu congelei, e foi como se eu pudesse me ver do lado de fora e pela primeira vez em meses eu senti algo, uma vergonha e um desespero profundos. Não tinha ideia do que fazer para mudar minha situação. Então me senti entorpecida, e logo não conseguia sentir mais nada. Eu não estava viva.

Minha autoestima e meu espírito estavam destruídos.

Eu estava aterrorizada e aquele medo vive comigo até hoje.

O que me machuca e me deixa com raiva, mais que o próprio estupro e abuso, é aquele pedaço de mim que foi embora, que alterou o curso da minha vida.

Por causa desse abuso e do meu espírito já despedaçado, quando fui empurrada para o chão e aprisionada em um depósito por outro agressor depois de horas em um bar, meu corpo sabia o que fazer por instinto; desaparecer, se entorpecer, fazer aquilo sumir. Ter sido estuprada e vítima de abuso antes fez com que fosse mais fácil ser estuprada novamente, e não o contrário.

Não passa um dia sem que eu ouça as palavras que este homem sussurrou no meu ouvido, ‘você vai ficar bem, você vai ficar bem, eu prometo, você vai ficar bem’ e minha voz fraca dizendo de volta ‘não, não, não, não’, até que eu me esvaísse em nada. Eu me lembro do sentimento de me fechar ou “congelar” e do choque tomando conta. Eu não conseguia emitir um som. Eu senti uma parte de mim desaparecer, uma parte que nunca voltou. Em outras palavras, eu não fiquei bem. Eu não estou bem.

Eu conhecia os sinais. Minha mãe também é uma sobrevivente, mas nem ela foi capaz de proteger a filha das mensagens que homens e mulheres recebem da sociedade, que cumprem um papel a determinar o nosso destino, ou a magia obscura do gaslighting. Algumas vezes nós não somos diminuídos somente pelos agressores, mas permanecemos lá por causa do conhecimento de que pode não haver um lugar seguro para onde ir.

A consequência do estupro é uma parte enorme da conversa que precisa de muito mais atenção, e neste caso eu posso falar pelas minhas próprias experiências. Muitas vezes falamos destes ataques como não mais do que alguns minutos de terror, mas as cicatrizes duram uma vida inteira. Não consigo enfatizar isso o suficiente.

Mesmo que estas experiências tenham ocorrido há uma década, eu ainda lido com as consequências; meus relacionamentos sofrem, meus parceiros sofrem, minha saúde mental e física sofre. Sete anos depois dos estupros; plural, eu fui diagnosticada com TEPT a longo prazo, uma doença com a qual eu tenho vivido durante todo este tempo sem saber da minha condição. Eu simplesmente pensava que havia enlouquecido. Eu lutei contra depressão, vício, agorafobia, terror noturno, muitas vezes alguém que dormia comigo acordava comigo gritando à noite e tentado respirar em uma piscina de suor, depois de algum sonho vívido do meu agressor, ouvindo ele dizer o meu nome tão alto no meu ouvido, ou alucinando uma visão da pessoa parada no canto do meu quarto. O sentimento da paralisia retorna quando há um barulho muito alto ou quando estou em casa sozinha, convencida de que alguém está vindo para me machucar eu passo a noite acordada segurando um taco de beisebol, o que começou a substituir parceiros distraídos ou ausentes à medida que confiança e toque tornaram-se mais e mais difíceis. Lutei contra automutilação, ao ponto de duas tentativas de suicídio que me colocaram em um hospital psiquiátrico por um curto período de tempo. Este foi um ponto de virada na minha vida e quando eu comecei a buscar ajuda profissional para lidar com o trauma e o desgaste mental. Outras pessoas não têm tanta sorte e, por isso, o estupro é mais do que alguns minutos de trauma, mas uma morte lenta.

Gostaria de dizer aos meus agressores que não os odeio. Sinto pena de vocês. Não estou aqui para humilhar vocês, quero entender vocês e que vocês me entendam, mas vocês precisam ouvir o que tenho a dizer primeiro.

Isso me faz pensar no meu filho, no mundo em que ele vai crescer, e no dia em que terei que explicar a ele o que é estupro e por que isso aconteceu à mãe dele.”

Gaslighting: é um tipo de abuso psicológico no qual informações são omitidas e distorcidas, favorecendo o abusador e fazendo com que a vítima duvide de sua sanidade mental e memória. 

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Foto: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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