Debate

Bullying sofrido por criança com problemas mentais mostra hostilidade das escolas

por: Kauê Vieira

Ele sempre existiu, mas nunca foi analisado como nos dias atuais. Situação caracterizada por agressões intencionais, sejam elas verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva por um ou mais alunos contra o colega, o bullying, em bom português, se refere ao brigão ou valentão.

A prática é perigosa e pode deixar rastros psicológicos e até culminar em suicídio. Mesmo diante de todos estes agravantes, muitas pessoas ainda enxergam o ato como algo corriqueiro e normal. “Sempre foi assim,” “deixa pra lá, é coisa de criança”, “no meu tempo acontecia a mesma coisa e a gente não morria.”

Porém, segundo especialistas a existência do bullying não o torna normal e muito menos impede o seu combate por meio da conscientização.

A escola pode ser uma ambiente muito hostil

“O fato de ter consequências trágicas – como mortes e suicídios – e a impunidade proporcionaram a necessidade de se discutir de forma mais séria o tema”, ressalta Guilherme Schelb, Procurador Regional da República do Distrito Federal e autor do livro Violência e Criminalidade Infanto-Juvenil falando ao site da Nova Escola.

Recentemente mais um caso foi registrado, desta vez envolvendo um estudante de uma escola pública de Capoeiras, no Agreste de Pernambuco. Em um vídeo divulgado pelo portal G1, é possível perceber o jovem acuado, encostado em uma parede enquanto outros alunos gritam como ele.

O caso causou revolta e ganhou ainda mais força com a circulação do vídeo, culminando inclusive em um protesto na frente da escola e em uma caminhada pelas ruas de Capoeiras.

As agressões verbais ao garoto também se tornaram pauta nas redes sociais, deixando muita gente transtornada, ainda mais com a informação de testemunhas de que a vítima  sofria com problemas mentais.

Te elegem a pessoa mais feia da turma no fundamental. Insistem com uns apelidos que nunca foram engraçados. Falam do…

Posted by Luiz Guilherme Prado on Sunday, March 4, 2018

 

Procurada pelo G1, a Secretaria de Educação de Pernambuco enviou uma nota garantindo que os funcionários da escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro recebem o treinamento para debater as causas e consequências do bullying. No rodapé você pode ler o texto na íntegra.

O bullying e os riscos da escola

Espaço de construção coletiva do saber, a escola deixa marcas na vida de todos, a maioria delas positivas. Todavia, para muitas pessoas o período escolar é uma verdadeiro pesadelo

As recorrentes práticas discriminatórias refletem os preconceitos presentes nas raízes da formação social brasileira. Não importa, o bullying traz consigo todos os tipos de intolerância e fobia, como o racismo, a gordofobia, a homofobia e por aí vai.

Sendo assim, dá pra concluir que a responsabilidade precisa ser divida entre educadoras e educadores, pais, a família e a sociedade de maneira geral. De cara deve-se parar de enxergar o bullying como exagero ou travesti-lo de uma simples brincadeira. Não é.

Reconhecendo a seriedade do assunto, foi criado na internet a página Bullying Não É Brincadeira, que reúne uma gama de textos com orientações, reportagens e entrevistas com especialistas e vítimas.

Sem saber como agir diante dos diversos casos de bullying presenciados durante os 20 anos de atuação como orientadora educacional, a psicóloga Valeria Rezende da Silva decidiu dedicar seu tempo para mudar este cenário. Como já dizia Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”  

Para Valeria, é fundamental pensar mais no desenvolvimento emocional dos filhos. Além disso, pais e familiares devem demonstrar interesse em saber com quem as crianças e jovens se relacionam.

“Se pensa muito pouco no desenvolvimento emocional e social dos filhos. A escola é, sem dúvida, o ambiente em que ocorrem as maiores interações sociais de crianças e jovens. E, no entanto, valorizamos pouco o clima emocional do lugar onde nossos filhos passarão maior parte de seu dia e que eu considero fundamental para o desenvolvimento global das crianças e jovens,” diz em texto publicado em seu site.

Peça fundamental na propagação e prevenção do bullying, as redes sociais podem ser ambientes cruéis, especialmente para pessoas do sexo feminino. Segundo pesquisa feita pelo site We Heart It e divulgada pela revista Time, as redes despertam um sentimento de segurança e medo.

“Bullying é constante”, escreveu uma usuária.

“Há muitas coisas ruins que os adultos não veem”, disse a outra.

“Ninguém me entende. Eles me chamam de gorda e feia. Eu quero me matar.”

Para Valéria não adianta, enquanto as instituições de ensino não encararem o problema de frente, o caminho seguirá tortuoso.

“É dever do estabelecimento de ensino, dos clubes e das agremiações recreativas assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e à intimidação sistemática (bullying),” diz.

A versão da Secretaria de Educação de Pernambuco:

“A direção, coordenação, professores e demais funcionários da EREM Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, localizada em Capoeiras, vêm a público esclarecer o episódio ocorrido na escola, em que um de nossos alunos foi vítima de atitude constrangedora praticada por colegas e cujo vídeo esta circulando nas redes sociais.

Já faz parte do cotidiano escolar a prevenção e esclarecimento das consequências da prática de quaisquer situações constrangedoras. A proposta pedagógica da escola é pautada em uma filosofia de valores, tais quais solidariedade, respeito às diferenças, bom convívio e diálogo.

Esclarecemos ainda que o episódio ocorreu no momento do almoço, em que os professores já estavam fora da sala de aula e os demais funcionários estavam organizando a entrada de alunos no refeitório, visto que no turno a escola acompanha mais de 700 alunos.

Reafirmamos o compromisso da instituição com a formação integral dos estudantes e que nenhum funcionário da escola, nunca foi e nem está sendo omisso, tão pouco conivente com qualquer atitude discriminatória contra alunos. Em relação ao ocorrido, a escola já está tomando todas as medidas necessárias junto à família do aluno, órgãos competentes de proteção ao menor, Gerência Regional de Educação, Secretaria de Educação do Estado e alunos envolvidos”, afirma a Secretaria de Educação.

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Foto: Unsplash


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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