Debate

Cliente é chamado de ‘macaco’ por funcionário do Burger King

por: Kauê Vieira

Era uma noite especial para o estudante de relações internacionais David Reginaldo de Paula Silva, que depois de comemorar seu aniversário, resolveu parar no Burger King para comer algo. Acompanhado de uma amiga diplomata, escolheu o lanche, fez o pedido e aguardava. Novamente, era uma noite especial para o jovem.

Ao receber o lanche, que saiu por cerca de R$ 38 reais, o estudante recebeu a nota fiscal, com o número de seu CPF e no lugar de seu nome a expressão “macaco”. Isso mesmo, David, um jovem negro de 24 anos, comemorando o aniversário ao lado da amiga, teve o encanto da sua noite quebrado por um velho conhecido, o racismo.

“Fiz um pedido normal. O atendente perguntou meu CPF, nome e anotou. E esperei chamar minha senha. Foi quando vi ao lado da senha o nome ‘macaco’ e fiquei assustado”, disse David ao G1.

O caso ocorreu na Zona Sul de São Paulo, na unidade do Burger King da Avenida Santo Amaro, na região de Moema.

David, estudante de relações internacionais, foi chamado de ‘macaco’ por funcionários do Burger King

Estarrecido com o ato racista, David teve ainda de aturar o riso dos três atendentes, inclusive o autor da ofensa, repetimos, racista. Mas, procurando manter a calma, o rapaz guardou o comprovante e tentou se concentrar no hambúrguer. Estava celebrando seu aniversário.

Todavia, a perversidade e a ação psicológica da discriminação racial falaram mais alto e depois de duas mordidas perdeu o apetite e foi para casa. A noite estava arruinada.

“Aí liguei para meu pai e ele falou para guardar papel. Não fiz escândalo, não questionei o atendente e também não peguei sua identificação. Cheguei a comer dois pedaços e perdi o apetite. Depois fui para casa”, revelou.

Segundo o advogado do estudante de relações internacionais, o caso não vai passar impune. Depois de registrar boletim de ocorrência por injúria racial, ele afirma que pretende acionar o Burger King na esfera cível para que a rede seja responsabilizada a pagar indenização por danos morais.

O ato de racismo aconteceu na loja da avenida Santo Amaro do Burger King

O Bruger King por sua vez disse repudiar qualquer ato de racismo e que está apurando o caso para tomar as devidas providências.

No Facebook, David se manifestou demandando a extinção do preconceito racial na sociedade brasileira. “O preconceito racial é uma ‘doença’ que deve ser eliminada da sociedade brasileira. É inadmissível que em pleno século XXI, em 2018, ainda possa acontecer esse tipo de atitude racista”.

O crime de injúria racial foi registrado na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), de São Paulo.

De um lado o crime de racismo. Do outro, David desabafando.

Injúria Racial dá cadeia?

De acordo com o artigo 140 do parágrafo 3º do Código Penal, a injúria racial está relacionada aos crimes contra a honra e que atingem o conjunto de atributos intelectuais, físicos e morais de uma pessoa. Segundo a lei, foi esta a violação cometida contra o jovem. A punição pode virar de 1 a três anos de reclusão ou multa

Já o crime de racismo, previsto na Lei n. 7.716/1989 se caracteriza quando a ofensa discriminatória é contra um grupo ou coletividade. Como o ato de impedir negros de andarem livremente pelos lugares. Neste caso são de 2 a 5 anos de prisão ou pagamento de multa

Para a ex-ministra da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) Nilma Lino Gomes, além da impunidade, o racismo no Brasil persiste pela dificuldade em reconhecer sua existência.

Um BO foi lavrado e o crime registrado como injúria racial.

O racismo brasileiro tem uma peculiaridade: a ambiguidade. É um fenômeno que se afirma através da sua própria negação. Quanto mais se nega a existência do racismo no Brasil, mais esse racismo se propaga. E essa é uma característica que nos desafia muito a superá-lo e a desvelá-lo”, declara durante entrevista para a EBC.

Para a pedagoga, primeira mulher negra a comandar uma universidade, o Estatuto da Igualdade Racial é uma ferramenta fundamental para mudar este cenário. Com mais de 65 artigos, foi instituído por meio da Lei 12.888, de 20 de julho de 2010, garantindo a “defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica”.

“O racismo brasileiro tem uma peculiaridade: a ambiguidade”, diz Nilma Lino Gomes.

“O estatuto representa hoje para o Brasil uma conquista e é uma conquista que foi organizada, demandada pelos movimentos sociais, em particular, o movimento negro. Passou por um processo de uma grande discussão no Congresso Nacional, foi ratificado pelo governo federal e efetivamente hoje podemos falar que temos, além da Constituição Federal, uma lei nacional que garante direito à população negra brasileira”, finaliza Nilma Lino Gomes.

Nota do Burger King

“O Burger King informa que tomou conhecimento do caso relatado na unidade localizada na loja da Avenida Santo Amaro, em São Paulo, e está apurando o ocorrido para que as medidas necessárias sejam tomadas. A companhia reitera que repudia todo e qualquer ato discriminatório”, conclui.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook/foto 2: Reprodução/Google Maps/foto 3: Reprodução/Facebook/foto 4: Reprodução/Facebook/foto 5: Reprodução/YouTube


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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