Matéria Especial Hypeness

Elena Ferrante e a força feminina de uma autora que mantém secreta sua verdadeira identidade

por: Vitor Paiva

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A mística ao redor das grandes obras literárias e seus impactos fez criar-se certa mitologia sobre as personalidades por trás dos livros. Conhecer o caráter “verdadeiro” de um autor ou autora parece nos oferecer um atalho às profundezas dos próprios livros, como se o gênio de um escritor revelasse ainda mais sobre seu trabalho do que a própria escrita – e, assim, sobre nós mesmos, refletidos no texto e em como nos sentimos ao ler. Tal fetiche fomentou o sucesso e a mística de muitas obras mas, ao mesmo tempo, serviu de aprisionamento para escritores desde sempre, como se a condição de celebridade não permitisse que o livro falasse somente por si. Foi em nome de tal liberdade e autonomia que uma das mais celebradas e bem sucedidas autoras da atualidade decidiu jamais revelar sua verdadeira identidade.

Vencedora de diversos prêmios internacionais, reconhecida como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista TIME e já tendo superado os muitos milhões de livros vendidos em todo mundo, a escritora Elena Ferrante carrega seu nome como uma identidade secreta – uma marca que lhe permite escrever livre de pressões e expectativas. Elena Ferrante é um pseudônimo para encobrir a verdadeira identidade da autora de livros como os que formam sua “tetralogia napolitana” – A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Vai e de Quem fica e História da Menina Perdida – entre outros.

A “série napolitana” de Ferrante

Tal qual se faz com o artista inglês Banksy no mundo das artes ou com o inventor por trás da criação do Bitcoin, muito se especula sobre sua verdadeira identidade, e artigos já foram publicados “revelando” a pessoa por trás de Ferrante, mas o fato é que até hoje não se pode comprovar quem de fato é essa autora italiana, provavelmente da região de Nápoles, que publicou seu primeiro livro em 1991 já certa de que não revelaria seu nome e sua vida – já certa de que somente escreveria os livros.

Seu imenso sucesso é ainda mais impressionante se pensarmos o quanto a presença física do autor – em turnês de lançamento, entrevistas, reportagens e na própria exposição da vida pessoa como combustível de interesse de modo geral – na maioria dos casos é determinante para o reconhecimento de uma obra hoje. Elena Ferrante contraria todas essas regras.

A cidade de Nápoles com sua beleza e seus horrores

Especula-se que Ferrante seja uma tradutora e professora italiana, mas teorias no mundo literário afirmam mil verdades diversas sobre ela – as sugestões mais concretas sobre sua identidade, no entanto, foram todas até aqui negadas. Influenciada pela obra do escritor russo Anton Chekhov, também pela inglesa Jane Austen e dos clássicos gregos e latinos – que teria estudado e lecionado – a escrita feminina e feminista são evidentemente pontos de partida e norte fundamentais para sua escrita. São comuns as suspeitas de que sua tetralogia tenha viés autobiográfico, e a brutal e comovente honestidade e a lucidez e intensidade com que a vivencia feminina, a maternidade, o amor e os dilemas extraordinários e banais de suas personagens são retratados sublinham tal suspeita, ao mesmo tempo que a colocam em um celebrado panteão como uma das autoras mais bem sucedidas do mundo hoje.

Ilustração utilizada na coluna de Ferrante no jornal The Guardian

Ferrante raramente concede entrevistas, e quando o faz é sempre por escrito, através do intermédio de sua editora na Itália. Em tais oportunidades, porém, um pouco de seu posicionamento pode ser esclarecido. “Livros, depois de escritos, não precisam mais de seus autores”, ela disse. “Uma vez que entendi que os livros prontos fariam seu caminho pelo mundo sem mim, uma vez que soube que nada do meu eu concreto e físico jamais apareceria ao lado dos livros – como se o livro fosse um cão e eu fosse seu dono – isso me fez enxergar algo novo sobre a escrita. Eu senti como se tivesse libertado as palavras de mim”.

Apesar de reconhecida como uma ficcionista de sucesso internacional, identificada pela criação de fortes personagens femininas e pela revelação do contexto profundo da região de Nápoles, suas ancestralidades, seus vícios, sua violência, seu patriarcado, suas maravilhas e horrores ao longo de seis décadas em sua série napolitana, um dos trabalhos mais interessantes para se debruçar sobre o mistério ao redor de sua identidade que sua obra carrega é o livro Escombros.

Detalhe da capa de ‘Escombros’

Publicado em 2003, Escombros traz à luz os bastidores de sua escrita através de uma espécie de livro de memórias, no qual Ferrante responde perguntas feitas a ela por jornalistas e admiradores, assim como publica correspondências trocadas entre ela e seus editores. Pelas cartas publicadas e outras investigações é que se supõe que a autora tenha crescido em Nápoles, porém vivido algumas vezes fora da Itália; que tenha formação clássica, seja mãe, que não esteja casada e que seja uma tradutora. Ela, no entanto, nem mesmo em Escombros, revela nada maior ou mais objetivamente revelador sobre si.

Pois nem mesmo ser italiana parece ser algo que, para Ferrante, deve defina-la – quando a autora sugere algumas pistas sobre sua identidade é quando ela mais confunde os curiosos. “Eu amo meu país, mas não tenho espírito patriótico ou orgulho nacional. No mais, eu digiro pizza mal, como pouco espaguete, não falo alto, não gesticulo, odeio todas as máfias e não exclamo ‘Mamma mia!’, ela escreveu, em uma das colunas que a misteriosa autora escreve para o jornal The Guardian. “Características nacionais são simplificações que devem ser contestadas. Ser italiana, para mim, começa e termina com o fato de que eu falo e escrevo na língua italiana”.

Nápoles

Segundo sua coluna, Ferrante não se coloca assim para rejeitar sua origem italiana, muito pelo contrário: se diz italiana com orgulho, mas deseja poder ser muito mais do que somente a herança do lugar onde nasceu e cresceu. “Eu sou italiana, completamente e com orgulho. Mas se eu pudesse, eu descenderia de todas as línguas, e seria atravessada por todas. Até o terrível Google Tradutor me consola. Nós podemos ser muito mais do que aquilo que aconteceu de sermos”.

O esforço para libertar sua obra das idiossincrasias e especificidades da identidade de sua autora, no entanto, acaba paradoxalmente posicionando também o anonimato de Ferrante como um adendo igualmente determinista sobre os livros. Ainda que boa parte da crítica celebre sua escrita e suas narrativas, é evidente que o interesse sobre sua obra se dá também pela incógnita ao redor da verdadeira identidade da autora – o que coloca a questão sobre a interferência externa na leitura do livro em um perpétuo paradoxo, pois se a condição de celebridade de uma escritora pode filtrar a relação do leitor com a obra, o anonimato absoluto também acaba se impondo como um imã de interesse, para além do texto. O próprio desejo em descobrir a identidade secreta por trás da escrita necessariamente pauta em muito a relação do público, da crítica e do jornalismo especializado com o trabalho de Elena Ferrante.

A tradutora italiana Anita Raja

Em 2016 um jornalista italiano chamado Claudio Gatti, após longa investigação (feita contra a vontade da autora), teria chegado a conclusão de que Ferrante era, na verdade, a tradutora italiana Anita Raja. A alegação jamais foi confirmada (uma série de tweets assinados por Raja dizendo que ela era de fato Ferrante foram apontados como falsos por Raja e pelos editores) e o jornalista acabou sendo severamente criticado. Temeu-se que ela jamais voltasse a escrever. A investigação de Gatti era de fato profunda e contundente, e Raja permanece sendo a mais forte suspeita por trás da obra de Ferrante.

Ela, seja ela quem for, no entanto, segue simplesmente escrevendo – se comunicando e discretamente se revelando através das entrevistas bissextas, de sua coluna do The Guardian, além, é claro, dos livros. Segundo a própria, mais do que o anonimato, ela escolheu a “ausência”, para que possa se concentrar somente em escrever. Além da tetralogia napolitana supracitada, foram publicados no Brasil Crônicas do Mal de Amor, Um Estranho Amor, Os Dias do Abandono, A Filha Perdida, o infantil Uma Noite na Praia e o livro de não-ficção Escombros. Um Estranho Amor foi transformado em filme, e A Amiga Genial está sendo adaptada para uma série de TV pela HBO.

As atrizes Elisa Gel Genio e Ludovica Nasti, que interpretam Lenu e Lila na série ‘A amiga genial’,

Se a verdadeira identidade da autora permanece anônima, de fato sua vida mundana, factível, real, também permanece inalcançável, incapaz de abalar os ecos e efeitos de sua obra – como se essa vida fosse também, ou em verdade, literatura, imaginação, criação dos leitores em geral. Já os livros, esses podem ser abertos, lidos, relidos, reinterpretados, traduzidos, transformados em filmes e séries para TV – como espelhos mais puros para os leitores e leitoras se refletirem.

Neles, Elena Ferrante de fato não precisa de uma “verdadeira” identidade para justificar seus reflexos – ela é também um personagem, uma metáfora, e literatura é, afinal, ficção. Diante da pergunta sobre o motivo pelo qual não apareceria para divulgar seu primeiro livro, ela teria respondido: “Eu já fiz o suficiente por ele: eu o escrevi”. Nesse sentido, nada é ficção – e nem mesmo nossa identidade mais objetiva pode realmente ser visto como algo além de uma simples e impressionante criação.

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© fotos: divulgação/Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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