Matéria Especial Hypeness

Ginecologia feminista e alternativa empodera as mulheres com o autoconhecimento

por: Brunella Nunes

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Nunca me esqueço do dia em que uma amigona minha me chamou no Whatsapp para fazer perguntas sobre a vagina. Descobri que ela nunca havia olhado entre suas próprias pernas. Quando recebi esse tema para a matéria, voltei a pensar nisso… Quantas mulheres como ela não existem no mundo? Mulheres que não olham (ou tocam) a própria genitália. Mas existe um caminho para mudar esse e outros conceitos: a ginecologia feminista. Aliada a métodos alternativos e naturais, incentiva a busca pelo autoconhecimento.

O seu corpo é o seu templo. É a sua fonte de energia, de prazer, de vida. Engraçado notar o quanto se negligencia seu estado, o quanto se desconhece as suas próprias formas, cheiros, texturas e mecânica. Existe uma maquininha que funciona muito bem por baixo da sua pele, sabia? E se ela não está bem, você deveria saber. E mais: deveria saber o que fazer.

Passando por um longo e aparentemente interminável processo de reconhecimento, uma luta por identidade, as mulheres enfim estão comprometidas em simplesmente ser, no sentido mais pleno dessa palavra. As que ainda não estão é porque não descobriram ou se dão o direito de não descobrir as maravilhas do empoderamento. A palavra, embora cansada, ainda cai bem para ilustrar a magnitude de pequenas grandes atitudes na vida do público feminino, desde denúncias de assédio até a cobrança por salários iguais ou maiores ao de seus colegas do sexo oposto.

Dentro da área médica, os dilemas sempre foram constantes. Para mim e para tantas outras. Chegar num consultório e ter que encarar, pelo menos 70% das vezes, um homem desinteressado em ouvir não é muito animador, especialmente se o que queremos é exatamente alguém que nos entenda de “de dentro pra fora”, de maneira plena. Embora não possamos generalizar, afinal existem os bons profissionais, é bem difícil convencê-los de que nem sempre eles saberão mais do que você.

Ginecologia, na minha opinião, tem a ver com o sentir  —  desde a dor de cabeça quando você não está a fim de sexo, até o muco que sai da vagina quando você está exatamente no modo oposto, subindo pelas paredes. É intuitivo e, por vezes, incontrolável. E se boa parte das nossas reações são ligadas com o emocional, não há como desligar a área da medicina desse viés. A mulher é sim um ser complexo, e isso não tem nada a ver com o seu nível de sensibilidade ou personalidade.

Caça às bruxas

A partir dos anos 1960 e 1970 as mulheres já haviam começado a ir atrás de respostas que fugiam dos padrões médicos. As “hippies” carregam até hoje a ideia de nadar contra a maré, e infelizmente ainda são vistas com olhar torto por quem não entende nada sobre métodos alternativos, descentralização, controle sobre as próprias escolhas, etc. Uma das grandes pesquisadoras na área, a naturopata, escritora e feminista Rina Nissim falou rapidamente comigo por e-mail. Peguei emprestado na biblioteca (sim, foi uma tarefa um tanto nostálgica!) o Manual de Ginecologia Natural para Mulheres, escrito por ela, no qual discorre sobre todo o sistema reprodutor feminino, suas complexidades, sintomas, causas e soluções naturais. É um guia sobre um dos principais pontos do nosso corpo.

Envolvida com as questões femininas, ela acredita que para entender sobre a resistência de algumas mulheres em relação às ferramentas que nos empoderam, é preciso voltar mais ainda no tempo, mais precisamente no final da Idade Média e no começo do pré-capitalismo.

Os doutores, a igreja e as pessoas no poder organizaram um ataque massivo contra as mulheres, as bruxas, que tinham conhecimento sobre plantas medicinais, que estavam curando os mais pobres de seus males porque os métodos eram mais eficientes do que dos médicos. Foram queimadas após confissões feitas sob tortura*. É também neste período de tempo que a relação com nossos corpos foi quebrada e ainda é problemática hoje”, explicou.

Foi na América Latina, em países como Argentina, Chile e Uruguai, que se desenvolveu o resgate de tais saberes ancestrais, de métodos não-convencionais que poderiam ajudar a saúde íntima da mulher, além de promover a autonomia, é claro. E o interesse não se apagou, digamos que foi apenas abafado por interesses diversos, especialmente das indústrias farmacêutica e alimentícia. Somente o livro citado acima, escrito por Rina e atualizado a cada nova impressão, chegou a vender 250 mil cópias em sete idiomas. A abordagem de autoajuda parece interessar as mulheres jovens novamente porque elas percebem a importância de retomar o poder sob seus corpos enquanto enfrentam os ataques do sistema, como medidas contra o aborto em vários países, pressões econômicas devido ao neoconservadorismo muito cruel e sem qualquer oposição séria”, argumentou. Ou seja, essas escolhas também são políticas e provavelmente farão com que você nunca mais seja a mesma.

Fazendo o papel da “bruxa”, essas mulheres que resolvem ir em busca de respostas mais claras, de empoderamento e conhecimento ao redor não só da medicina, mas de tudo o que diz respeito a si, acabam enfrentando inúmeras resistências, enfrentamentos e até mesmo ofensas em relação às suas escolhas pessoais. Assim foi o caminho de muitas profissionais na área, como a da médica ginecologista Bel Saide.

Formada há 12 anos em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ela passou boa parte da faculdade perdida entre a razão e o coração. “Desde sempre me senti não muito identificada, principalmente com o meio, que é muito elitizado, e com a maneira de lidar com os pacientes. Aprendemos uma medicina muito mecânica. É muita informação, ciência, química, fisiologia, patologia…e falha muito na parte humana. Essas matérias são consideradas secundárias”, contou ao Hypeness.

Depois de passar pela área da obstetrícia, chegou até os estudos sobre humanização do parto, aprendido com doulas e enfermeiras de todo o Brasil, e atuou por 11 anos na maternidade do Sistema Único de Saúde. Ou seja, conhece de perto a realidade da saúde pública. No meu processo de busca, acabei conhecendo o feminismo, que foi muito responsável por esse aprofundamento. Comecei a compreender mais profundamente o que era ser mulher, me conectar aos ciclos femininos, às redes de mulheres. Nesse meio conheci terapeutas e naturólogas, que acabaram me apresentando a um curso de ginecologia natural. E me encontrei, logo no primeiro módulo”. Hoje, faz atendimentos personalizados e propaga informação através de seu site, o Ginecologia Natural.

Caçando ainda mais as “bruxas modernas” para engrossar o caldo dessa poção mágica que leva ao autoconhecimento, fui até o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde (visto nas fotos acima), o único do tipo que tive conhecimento em São Paulo. O ambulatório foi uma iniciativa da pediatra Maria José de Oliveira Araújo, que o fundou em 1984 para melhorar e expandir os atendimentos oferecidos ao público feminino, sob o viés feminista.

Atualmente, também atende homens e crianças, mas o foco continua sendo aproximar as mulheres de sua autonomia, seus direitos e sua saúde. Ainda entre as especialidades estão: saúde mental, saúde geral, parteiras, nutrição, acupuntura, astrologia, direito e o Grupo Reflexivo de Homens. A ginecologista e uma das diretoras do coletivo, Halana Faria, se envolveu com o feminismo ainda na faculdade e explica as motivações de sua atuação.

No nosso jeito de fazer, as questões trazidas pelas mulheres passam por uma reinterpretação feminista. Nesse percurso terapêutico a mulher é escutada com cuidado e nós, médicas e obstetrizes, somos como tradutoras que a auxiliam a entender seus processos de desequilíbrio.

A cultura da doença

Indo além do corpo feminino, existe uma coisa chamada cultura da doença e medicalização. Sabemos que o medo é uma das principais armas de controle de massa. É com base em um dos principais medos da humanidade que a medicina tradicional e as farmácias se alimentam: o medo da morte. Como o ser humano ainda não encontrou uma maneira de se livrar da morte súbita, então ele se mune de todas as formas possíveis contra a doença. Qual? Todas. Qualquer uma. E se não tiver uma, a gente inventa, não tem problema. “Isso implica numa série de comprimidos onde um vai curar o sintoma do outro. A saúde não dá lucro. As indústrias farmacêutica e alimentícia lucram muito com a roda da doença. Mas nós focamos nossos esforços na saúde e não na doença. A alimentação também é um ponto crucial nesse processo”, aponta Bel.

Desde muito cedo as famílias são instruídas a recorrer a um médico, profissional esse que — em boa parte dos casos — receita remédio até para dor no dedinho do pé. A partir dali, você deve estar comprometido a realizar check-ups de saúde mesmo que não esteja sentindo nada anormal ou sequer esteja com alguma doença. Aí entra uma questão: como a gente vai saber o que é o estado de normalidade se não conhecemos nossas próprias vísceras?

O buraco é, literalmente, mais embaixo. A cultura da doença fica tão enraizada que não nos permitimos sentir dores ou incômodos. Não nos damos chances à observação, ao reconhecimento de sintomas que, em cerca 50% dos casos, são apenas sintomas, uma simples reação do organismo (devido a rotina, alimentação, estado mental, etc), e não doenças, segundo a médica de família atuante do Coletivo, Luiza Cadioli.

A rotina ginecológica é uma invenção. Na maioria dos problemas de saúde, o ideal é a gente investigar quando a pessoa tem sintoma, mas temos que tomar muito cuidado para não pedir coisas desnecessárias e uma mulher que antes era saudável começar a achar que estar doente por conta de exames alterados. Os exames podem ter alterações que não necessariamente trazem impactos ruins para a saúde. Por exemplo, ultrassom de mama não deveria estar na rotina para mulheres que não sentem nada e têm baixo risco de câncer. Não tem necessidade.

O organismo é algo tão particular e tão influenciado por fatores pessoais, que fica difícil padronizar receitas, diagnósticos, métodos ou procedimentos de cura. Mas a gente sabe que na prática não é assim, especialmente para as mulheres, que possuem um sistema reprodutor bem complexo e bem ligado com as alterações em seu corpo, sejam hormonais, físicas ou psíquicas. Na medicina convencional as mulheres são um verdadeiro poço de problemas construídos pelo excesso de exames que as levam a inquietação e desgaste emocional (ferida de colo do útero, cisto de ovário, mioma). Há um enorme paternalismo e os profissionais parecem sempre saber o que é melhor para as mulheres sem considerar sua opinião. As mulheres sentem que não são ouvidas. Grande parte do nosso trabalho, além de desmedicalizar, é desdiagnosticar, argumenta Halana.

Luiza aproveita para acrescentar ao raciocínio que desde muito cedo o corpo da mulher é entregue à um profissional que vai dizer o que está certo e o que está errado. “Independente da gente poder oferecer opções, quando a mulher traz um incômodo, às vezes ela não está incomodada, apenas cumprindo uma rotina que foi ensinada, por insegurança. Ao invés de conversar sobre o que é normal e o que pode ser feito, já vem a medicalização”. E quem lucra com a roda da doença? Planos de “saúde”, farmacêuticas, laboratórios, etc, que não têm o mínimo de transparência em suas ações. A cobaia somos nós.

Medicina convencional X feminista

A principal — ou mais notável — diferença entre a medicina convencional e a feminista é o modo de operação. Não é preciso, de forma alguma, rejeitar os ensinamentos acadêmicos e científicos para poder abraçar a ginecologia feminista. Na verdade, as duas deveriam ser sinônimos. Halana aproveita para adicionar mais um fator que, atualmente, ainda as diferenciam. “Percebemos que as mulheres têm buscado alternativas ao sistema médico convencional pelos motivos já expostos acima, mas cabe a quem faz um contraponto oferecer verdade às mulheres ao invés de sustentar problemas de saúde que não existem.

Bel me explicou que as bases para os tratamentos holísticos que oferece são simplesmente aquelas que não separam a saúde por categoria:É também conhecida como medicina integrativa, que é olhar o ser como um todo, porque está tudo ligado. O ser é uma unidade e uma coisa vai influenciar na outra. E as pessoas só vão compreender isso através da informação, que não deve ser detida pelo médico”. Halana complementa a ideia. “Uma abordagem realmente integrativa de saúde tem que considerar que corpo e mente são parte de um todo, que a maneira como se vive, come e trabalha tem impacto sobre nossa saúde. Que nossas relações e inclusive nosso sistema político e econômico interferem em nossa saúde. Isso é básico”.

As metodologias aplicadas dentro da ginecologia feminista e natural são analisadas de acordo com o estilo de vida, condição financeira e de saúde de cada paciente. Entre as soluções para seus males ou apenas em prol de seu bem-estar se incluem ervas medicinais, fitoterápicos, aromaterapia, acupuntura, massagens, meditação, banho de assento, mudanças na alimentação e remédios, porque dependendo da gravidade do problema, é possível sim contar com eles. Para mim, a fitoterapia é fonte inesgotável de autonomia. Poder plantar e repassar mudas e conhecimento para cuidar de si mesma, de uma família ou comunidade é algo muito poderoso”, analisa Halana. A fitoterapia, que seria basicamente o uso seguro e racional de plantas medicinais, está entre as opções oferecidas pelo SUS, que disponibiliza até um curso online sobre o assunto.

No Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, um dos pontos mais interessantes em consultório é o autoexame. Com este recurso, as mulheres aprendem a olhar para dentro de si, literalmente falando, para entender a mecânica genital. A médica instrui a paciente a manusear os instrumentos de trabalho, como o espéculo, que abre a vagina, e junto com um espelho a mulher vai se olhando e recebendo as informações necessárias. A observação rotineira é uma grande aliada na hora de identificar corrimento, ovulação, candidíase, entre outros sinais. Foi essa experiência que Paula Lisboa teve em sua consulta, pela primeira vez na vida.

Cansada da medicalização e das intervenções desnecessárias em seu corpo, a atriz me contou que teve dificuldades em encontrar uma opção que aliasse bolso e perfil. Mas quando achou, tudo ao seu redor se transformou junto com ela.

“Muda muita coisa. Muda o olhar para todo o seu organismo. A forma como seu corpo funciona…que há coisas fisiológicas e não problemáticas. Coisas que você deve conhecer e não abafar, com remédios, com estética, com coisas irreais. Isso entra na gravidez, no parto, na amamentação e também na educação dos nossos filhos. E a gente fica meio diferentão. Às vezes somos criticadas, mas quando a gente se junta, você fala: bom, eu não estou louca!”.

Para ela, o mais importante é ter escolhas, ter as informações e ser consciente. Durante esse processo, a filha de 12 anos, Teresa, teve o primeiro ciclo menstrual e se consultou com a doutora Luiza. “Achei muito legal porque eu pude compartilhar tudo o que eu sentia, o que estava me incomodando. E ela me falava o que era normal, que eu estava numa fase e tudo mais. Ela me escutou”. Para as cólicas, típicas desse período, a médica aconselhou o chá de gengibre com mel, receita que Teresa aprovou.

A gente precisa sim produzir conhecimento sobre coisas que as mulheres usam para tratar de problemas comuns. Por exemplo, a mágica combinação entre melaleuca e óleo de coco para tratar episódios de candidíase. Precisamos também entender a eficácia da combinação de métodos contraceptivos como camisinha, percepção de fertilidade e diafragma, como as mulheres têm utilizado. Há muita pesquisa bacana e do interesse das mulheres para se desenvolver. Por isso precisamos de pesquisadoras fazendo pesquisa feminista engajada ao invés de desmerecer a importância da ciência – argumenta Halana

Não vou indicar os possíveis tratamentos que a prática feminista apoia, pois estes devem ser conversados diretamente com a médica, mediante as limitações, problemas e anseios que cada mulher tem. Mas há algumas ervas e plantas que são grandes aliadas da saúde feminina, como o tomilho, a camomila, a alfazema e a artemísia. São usadas especialmente na forma de chá ou infusão. No livro As Ervas que Curam — Um Reencontro com a Farmacologia Natural, de Roberto Well, encontrei algumas informações e fórmulas interessantes para utilizá-las. Uma infusão de 5g de hortelã-pimenta pode ajudar em menstruações dolorosas; enquanto a de 5g de tomilho ajuda a amenizar as cólicas abdominais. Misturando lavanda e erva-doce, tive um alívio na dor de cabeça. Mas essas são as minhas experiências com base nesse material. É sempre bom consultar fontes confiáveis e estar ciente de possíveis reações adversas, afinal, cada organismo é de um jeito.

As escolhas que fazemos definem o que somos

Apesar da natureza estar a nosso favor em grande parte do tempo, é preciso ressaltar que não podemos nos opor aos avanços da medicina e da ciência. A diferença está em saber dosar os métodos, adquirir conhecimento e fazer escolhas assumindo seus riscos. Parte dessa atual mudança de comportamento parte exatamente de um recurso sintético: a pílula anticoncepcional. É impossível falar de saúde da mulher e não falar dessa bendita. Este tem sido o ponto crucial para que as mulheres comecem a abraçar seus questionamentos, iniciando uma linda e, por vezes, resistente busca por si mesmas. O autoconhecimento vem à tona como a resposta para as perguntas, a solução para os problemas e a certeza de que o corpo é, enfim, nosso.

Desde muito cedo, em meados da instável adolescência, as mulheres são medicadas com a pílula, como se fosse a cura para todos os seus problemas. Sem muita análise ou profundidade do assunto, nós — porque me incluo nessa — a aceitamos. Acontece que temos nos questionado, cada vez mais, sobre essa escolha — se é que podemos chamar de escolha, visto que numa idade onde tudo aflora, acabamos nem pensando na pílula como opção e sim como obrigação, afinal, o medo de engravidar é maior do que quaisquer dúvida.

A pílula é uma verdadeira panaceia. É prescrita para tratar cólicas e irregularidades menstruais, ovários policísticos, endometriose, TPM…é geralmente o fim de uma conversa porque quando o profissional acha que tem a resposta pronta para qualquer queixa, deixa de tentar compreender os sintomas que as mulheres trazem e sua complexidade. Quando você deixa de ter a pílula como primeira e muitas vezes única resposta para os problemas femininos, você tem a possibilidade de começar a escutá-la de verdade. E escutar leva tempo, algo incomum nos consultórios de convênios médicos e também em nossa saúde pública sucateada. – critica Halana

Luiza ressalta que a pílula deve sim permanecer como uma opção hormonal contraceptiva. “Estamos num movimento interessante das mulheres conhecerem o próprio corpo e acho sim que isso é resultado de que muitas delas começaram a tomar pílula sem isso ser, de fato, uma escolha. Mas, quando todas as coisas são oferecidas, os riscos, os benefícios e as eficácias são ditas, não podemos demonizar a pílula se a gente for pensar em autonomia. Se a mulher escolhe e se para ela funciona, tudo bem. A partir do momento em que impomos, somos violentos e julgadores. O empoderamento está na autonomia de fazer escolhas e assumir os riscos.”

Mas tanto a ginecologia feminista quanto a natural (já que as duas nem sempre são iguais) não são contra o uso de remédios de farmácia. Na eterna briga, ou dilema, entre fatos científicos versus métodos sem estudos comprovados, precisamos analisar mais afundo de quem parte tais pesquisas e com quais interesses, ao mesmo tempo em que ponderamos quando usar aquela receita milenar da vovó.

A ginecologia natural traz o olhar. Não é questão de tratamentos naturais, de não tomar remédios alopáticos e chazinhos. Isso aí é parte do processo e diria que só uns 20%. Embora parte desse caminho tenha base científica, já que quem banca os estudos na área não tem interesse em divulgar essas informações, eu comprovo muitas coisas na prática e vejo as mulheres se beneficiarem. O ideal é harmonizar tudo, a ciência, a medicina e a natureza. Uma coisa não anula a outra. – pondera a médica Bel Saide.

A terapeuta corporal Morena Cardoso, que ministra cursos sobre o sagrado feminino, uma imersão que reconecta as mulheres a saberes ancestrais, faz uso de muitas técnicas para manter seu bem-estar, mas por causa do autoconhecimento, consegue mensurar suas opções. “Quando a mulher não tem apoio e sustentação para seguir adiante em um processo de cura, em todos os casos, acredito que devemos considerar sempre a holisticidade de nossos corpos físico, emocional e mental no processo de saúde/doença. Não sou contra a medicina moderna e nem os medicamentos alopáticos, eu mesma os utilizo quando julgo necessário, mas questiono sempre a forma fragmentada e impessoal como é conduzida na maioria das vezes.

Para Rina, a questão é exatamente essa e também volta a ser política. “Os remédios continuarão a ser úteis. Eles são muito eficientes para doenças agudas e de emergência. A medicina alternativa é mais eficiente para doenças crônicas e sintomas funcionais. Todos teremos que aprender quando é melhor usar o que e pressionar os médicos e as instituições a tratar pessoas com abordagem humanista e feminista.” 

Nesse processo, é importante saber ouvir o seu corpo, questionar sua médica ou seu médico, ir em busca de respostas satisfatórias, entender que a alimentação e o estilo de vida influenciam o funcionamento do seu organismo, praticar sempre o autocuidado e refletir sobre o que é melhor para você. E tudo isso é dinâmico, um dia você pode querer a pílula e no outro não. Poder testar formas alternativas não é crime, é liberdade. A gente não precisa de regras. Precisamos de ouvidos, tanto o nosso, quanto o das outras pessoas que nos cercam.

*Rina Nissim recomenda a leitura dos livros Witches, Midwives, and Nurses: A History of Women Healers; Calibã e a Bruxa e Une sorcière des temps modernes, le self-help et le mouvement femmes et santé (ainda sem tradução). Acrescento a leitura de A Medicalização do Corpo Feminino. de Elisabeth Meloni Vieira; Manual de Ginecologia Natural para Mulheres, de Rina Nissim (disponível para empréstimo na biblioteca do Centro Cultural São Paulo) e Our Bodies, Ouserlves

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*Ilustrações belíssimas por Hanako Mimiko
*Fotos: Brunella Nunes


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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