Debate

Jovem se mata após post desabafo sobre preconceito dos pais e hipocrisias familiares

por: Kauê Vieira

Uma história triste e controversa, envolvendo homofobia e suicídio se abateu sobre uma família da cidade de Sapé, a 47 quilômetros de João Pessoa, na Paraíba.

Dizendo ser perseguido pelos pais, que segundo Yago Oliveira de 25 anos não aceitavam sua homossexualidade, o estudante de psicologia deu detalhes da situação em longo desabafo publicado em sua página no Facebook e logo depois cometeu suicídio.

Com mais de 44 mil compartilhamentos, o texto está servindo como alerta acerca das formas de manifestação e a letalidade do preconceito.

“Mas segundo todos esses que eu citei anteriormente (fazendo referência aos seus familiares) a vergonha da família sou eu, pelo simples fato que sou gay, afinal como eles dizem, ser gay é pecado, mas ser racista, corrupto, assassino, estuprador, pedófilo e não criar os filhos ta de boa, o importante é você não ser gay”, narrou depois de um desentendimento com o pai.


Falando ao BuzzFeed News a mãe do garoto, Ivanilda, disse que ao chegar em casa após tomar conhecimento do texto, encontrou o filho no quarto com uma corda amarrada ao pescoço.

“Eu achei que ele estava fazendo isso para se mostrar, de pirraça, entendeu? Essa corda eu peguei, cortei todinha e coloquei no lixo. Eu achei que não tinha mais corda”.

Mas o jovem não estava de brincadeira, as brigas com os pais em função de sua opção sexual seguiam e Yago tinha sim outra corda. E foi com ela que se acabou se suicidando no dia 14 de março.

Família, homofobia, drogas e furto

A controvérsia envolvendo a morte de Yago ganhou corpo com os argumentos de alguns familiares, que apontam os amigos como as más influências. O pai, Afrânio Sobreira, diz ter medo do envolvimento do filho com drogas, já a mãe acusa o jovem de furtar itens domésticos para comprar maconha. No meio disso tudo, uma das dias nega a homofobia dos pais.

“Ele disse que gostava dos dois sexos. Ele queria dar festa aqui, muitas das vezes sem eu estar em casa. Eu só não queria aqui festa regada a drogas, eu dormindo aqui e eles virem me matar como fizeram com aquele casal Richthofen”, explicou o pai.

“Quando a gente conta uma história para os amigos, conta apenas o nosso lado. Toda casa tem regras e normas, e Yago queria fazer o que quisesse. Não era que os pais eram homofóbicos, era por causa da turma”, explica se referindo aos amigos dele a tia paterna de Yago, Carla Sobreira

Entretanto, de acordo com um dos amigos do estudante psicologia, o cirurgião-dentista Rapahel Chagas Galvão, as brigas da família sempre envolviam homofobia, o que também foi confirmado pelo professor de inglês e estudante de letras Tulio Cordeiro.

Yago se matou por não ter sua opção sexual aceita pelos pais

Tem mais, uma suposta fala da mãe de Yago está circulando nas redes sociais e causando revolta entre seus colegas. “Prefiro um filho morto do que vivo e pecador, seria uma eterna vergonha e uma desonra sem tamanho”, teria dito a um site de notícias da Paraíba. Ivanilda por sua vez nega que tenha feito qualquer tipo de declaração.

“Perdi um filho há oito anos, de acidente de moto. Se eu quisesse que meu filho Yago tivesse o destino do outro, eu teria dado uma moto a ele”, finalizou.

A realidade é que o número de crimes ou mortes envolvendo homofobia são frequentes no Brasil e muitas vezes terminam desta forma trágica. Levantamento feito pelo CVV (Centro de Valorização da Vida) demonstra que a cada 45 minutos o suicídio mata um brasileiro.  Por isso a importância do diálogo e o respeito para combater o problema.

Os que estiverem buscando amparo emocional podem entrar em contato com o CVV pelos telefones 188 ou 141, ou acessar o site www.cvv.org.br.

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Foto: Reprodução/Facebook


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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