Matéria Especial Hypeness

Nem o medo da morte pode nos impedir de honrar a batalha de Marielle Franco

por: João Vieira

O Brasil mata 23 mil pessoas negras por ano, sendo uma a cada 23 minutos em média. Toda vez que um de nós vira estatística, uma parte nossa se enfraquece também, pois sempre nos leva a imaginar quantos de nós, ou companheiros nossos, poderiam estar no lugar daqueles que são vítimas do Estado. Tanto do oficial, quanto do clandestino.

Mas, pessoalmente, nada me atingiu tanto quanto Marielle Franco.

Quinta vereadora mais votada nas Eleições do Rio de Janeiro em 2016, Marielle era filiada ao PSOL e tinha 38 anos. Fruto do Complexo da Maré, defendeu durante toda a vida a dignidade dos moradores da comunidade, tão maltratada e violentada por seguidas administrações públicas da destruída capital fluminense. Negra, mulher, LGBT e ativista de todas essas causas e contra a violência policial, Marielle foi brutalmente silenciada na noite desta quarta-feira (14).

Marielle Franco era filiada ao PSOL

Foram cinco tiros. Quatro só em sua cabeça. É leviano afirmar que foi uma execução, mas todos os indícios apontam para esse crime, principal hipótese com as quais os investigadores trabalham. A Divisão de Homicídios (DH), acredita que os assassinos sabiam até a posição que a vereadora ocupava no carro.

Quatro dias antes de ser morta, ela denunciava, em suas redes sociais, a violência do 41º Batalhão da PM, o que mais mata no Rio, que estaria ameaçando e intimidando moradores da Favela de Acari, na zona norte, após dois jovens serem mortos na comunidade.

Há duas semanas, ela havia assumido a relatoria da Comissão da Câmara de Vereadores criada para acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro.

Na noite de sua morte, participava do evento Jovens Negros Movendo das Estruturas, na Lapa, comandado por mulheres e integrantes do Movimento Negro. Voltava para casa na Tijuca quando foi atacada.

Mas antes de ser uma voz ativa na defesa dos direitos daqueles para os quais a sociedade vira as costas, Marielle era mãe de uma menina de 20 anos, o que talvez seja o que mais me afeta nesse caso.

Minha mãe trabalhou a vida toda em escolas de comunidades em São Paulo. Na zona sul, para ser mais exato. Educadora e negra, passou por Jardim Lucélia, Cantinho do Céu, Vila Rubi, Capão Redondo, Guanhembu e muitas outras. Em todas elas, batalhou dia e noite pela dignidade de seus alunos, de imensa maioria negros e pobres. Enfrentava diretores, subprefeitos, policiais e, frequentemente, subia morros para levar crianças abandonadas por pais na diretoria da instituição.

Perdi a conta de quantas vezes, sabendo que minha mãe estava nessas missões, fiquei apreensivo em casa esperando sua chegada. Principalmente depois de crescido, quando já entendia que a grande preocupação não era com os donos de facções controladoras do tráfico, mas sim com os poderosos presentes em espaços de poder que, teoricamente, defendem o povo.

Quantas Marielles não existem por aí? Quantas pessoas você conhece que poderiam estar no banco traseiro direito daquele Agile branco, no centro do Rio ou de qualquer outra cidade? Quantos de nós deixamos de medir os riscos do trajeto para buscar uma realidade onde uma criança negra não tenha que passar seus dias aflita com a possibilidade de ficar órfã?

Marielle lutou pelos direitos do povo negro e LGBT

Mais uma vez, é leviano responsabilizar qualquer pessoa pelo assassinato da vereadora neste momento, mas o recado desse crime parece claro: espalhar o medo. E nós estamos com medo, não estamos?

Estamos com medo de falar alto na mesa do bar, de ter o rosto registrado em um ato político, de sermos marcados em uma abordagem policial, de sermos vítimas da bala “perdida” de uma guerra que todos sabem a quem serve, de sermos agredidos, espancados, violentados, presos, destruídos e, principalmente, mortos.

Mas você acha que Marielle não tinha medo?

É difícil se recuperar quando o tiro acerta uma parte vital. É preciso ser socorrido rapidamente, reanimado, internado, operado e, ainda assim, as chances de sobrevivência são mínimas. Estamos todos entre a vida e a morte, porque, mesmo sem sabermos, Marielle era peça indispensável do coração da nossa luta.

Porém, é preciso seguir, mesmo que cambaleante. Não existe outro caminho se não o que leva à frente. Mais do que nunca, o futuro do povo está nas mãos daqueles que lideram o pelotão. E não vou mentir, estamos todos colocando nossas vidas em risco, mas não dá para voltar atrás. A angustia dolorida do choro e a raiva do grito estridente precisam se confundir para repetir, cada segundo mais alto, nossa maior motivação:

Marielle Franco, presente.

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Fotos: Divulgação/PSOL


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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