Debate

O que podemos aprender com a entrevista de William Waack no ‘Programa do Porchat’?

por: Redação Hypeness

Pela primeira vez após ser demitido da Rede Globo por afirmação racista, William Waack conversou com um veículo de comunicação na TV. Em entrevista ao Programa do Porchat, exibido pela Record na noite da última segunda-feira (6), o jornalista de 65 anos falou sobre a repercussão do caso que resultou em sua saída da Globo, além de ter explicado o silêncio durante quatro meses.

William Waack reapareceu na TV após quatro meses

Antes de falar propriamente sobre a entrevista de Waack, é preciso contextualizar os fatos que causaram o fim da relação de mais de 25 anos entre o profissional e o grupo de comunicação. Tudo aconteceu com a divulgação nas redes sociais de um vídeo onde o jornalista, enviado aos Estados Unidos para a cobertura do pleito que elegeu Donald Trump presidente, é flagrado tecendo comentários racistas.

Se preparando para entrar ao vivo no ar, William Waack se irrita com o barulho do lado de fora e diz, se virando ao comentarista Paulo Sotero:

“Tá buzinando por quê, seu merda do cacete?”

“Não vou nem falar, porque eu sei quem é… é preto. É coisa de preto!”

Após muita polêmica, o uso da palavra preto foi confirmada por peritos ouvidos por diversos veículos de comunicação.

Desde o início, Waack se defendeu e negou defender ou reproduzir qualquer tipo de pensamento racista, o que voltou a reafirmar ao ser questionado pelo apresentador Fábio Porchat.

“Não”, disse o ex-âncora. “Pelo simples fato de que um pensamento racista jamais será uma piada!” William Waack expressou ainda sua indignação por ter sido flagrado em um ambiente e resumiu o acontecimento a uma “piada idiota”.

“Aquilo era um ambiente privado, onde eu estava falando, cochichando, na orelha de um amigo — que aliás nem entendeu direito o que era. Não faz parte do meu raciocínio nem da minha índole nenhum tipo de coisa dessas. É uma piada idiota, contada sem nenhuma intenção, eu acho que isso conta,” completou.

 

O vazamento do vídeo e o politicamente correto

O flagra da afirmação racista foi feito por Diego Rocha Pereira, homem negro, ex-operador de VT da Rede Globo, que se disse indignado com a naturalidade do comentário expresso pelo então âncora do Jornal da Globo.

“Quem cometeu o crime foi ele. Uma ofensa racial gratuita. Imagina se alguém te faz uma ofensa dessas no trabalho?”, disse em entrevista ao jornalista Maurício Strycer no UOL.

Ainda de acordo com Diego, que disse não ter postado o vídeo antes por medo de ser demitido, o pensamento de William Waack não é admissível. O operador relatou também que no momento da ofensa racista várias outras pessoas estavam ao seu lado, mas não esboçaram reação.

No Programa do Porchat, William Waack se disse arrependido, mas criticou uma suposta “hipocrisia social”, além de ter apontado outras intenções no vídeo que para ele foi roubado.

“Óbvio que eu me arrependo, eu sou um cara normal. Eu falo palavrão, eu falo coisa fora de hora, eu xingo sem querer. Eu sou normal, não é normal quem diz que todo mundo é santinho. E o nível de hipocrisia disso tudo é fenomenal. Eu não acho que o vídeo em si tenha sido o problema, mas sim decisões e reações que ocorreram após o vídeo. Esse vídeo nunca foi ao ar. Esse vídeo nunca foi dito numa situação pública. Esse vídeo foi roubado de um determinado lugar. Este vídeo foi colocado com determinada intenção, o que é legítimo”.

O ex-âncora ainda aponta sua discordância com o que chamou de “pensamento politicamente correto”.

“Eu sempre fiz um monte de piada, eu sempre fui um tremendo gozador. Todas as piadas menos politicamente corretas que você possa imaginar eu faço. Sempre fui irreverente“, disse. “Caraca, o Brasil ficou um país que só tem ‘nego’ certinho, bicho? Ninguém fala m*rda, ninguém faz uma piada fora de hora, ninguém xinga a própria mãe sem querer, só tem cara certinho. Quem julga alguém ou julga alguém pela vida de uma piada, tem problemas.”

Ao rotular como hipócrita uma reação de parte da sociedade diante de uma ofensa racista, Waack faz coro com os que criticam um comportamento visto como “politicamente correto”. Mas nesse ponto é importante ter alguns cuidados na análise para não confundir ‘a reação do oprimido com a violência do opressor’ e não minimizar uma luta tão importante – no plano concreto e simbólico – quanto o combate ao racismo. 

“Existe uma matriz que se replica, um padrão que define o lugar do negro no sistema de representação. Essa articulação vincula-se, remotamente, aos pilares do racismo, à dimensão corpórea como elemento distintivo entre um eu civilizado e o outro bárbaro,” diz Rosane Borges, jornalista, pós-doutora em ciências da comunicação, professora universitária e integrante do Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) e autora de livros como Mídia e Racismo.

A jornalista Rosane Borges ressalta a importância da representatividade

Professor do curso Jornalismo, Informação e Sociedade pela ECA/USP e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Dennis Oliveira acredita que nos tempos de avanços tecnológicos e mudanças na maneira de consumir informação, as mídias sociais são ferramentas importantes para o combate aos preconceitos históricos.

“As tecnologias de informação e comunicação, sustentáculos da nova configuração de organização do capital global, ao ser apropriadas por um número cada vez maior de pessoas, permitem que mais sujeitos passem a também emitir opiniões ideias e informações,” diz.  

Ainda no bate-papo de William Waack no Programa do Porchat, ao ser perguntado sobre os motivos do silêncio de quase cinco meses, o jornalista disse ter sido impedido de falar em função de uma cláusula contratual com a TV Globo.

“Eu tinha um contrato. Como é que eu vou falar com contrato? Do ponto de visto jurídico, qualquer comentário que eu fizesse e comentasse decisões tomadas pela empresa com a qual eu estava ligado por um contrato, poderia ter me deixado.”

Desde sua saída da Globo, Waack recebeu propostas de diversos veículos de comunicação, mas até agora diz estar concentrado em trabalhos pessoais.

Com visões diferentes, o caso de racismo envolvendo um dos jornalistas mais respeitados do país demonstra a necessidade de se discutir representatividade dentro da comunicação brasileira. A falta de profissionais negras e negros ocupando cargos importantes dentro do jornalismo resulta em uma visão capenga deste problema que impede o desenvolvimento social do Brasil.

Como analisou a escritora Ana Maria Gonçalves, de 555 colunistas e blogueiros de oito veículos da grande imprensa, apenas seis são negros. “Também por isso o debate sobre racismo ocorre longe da maioria da população a quem, no dia a dia, ele não afeta ou interessa,” ressalta.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Reprodução/Facebook


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