Debate

Para comandante do Exército, legalização de algumas drogas é ‘debate fundamental’

por: Kauê Vieira

A instauração de uma medida inédita no estado do Rio de Janeiro, a Intervenção Federal, que transfere a administração da pasta de segurança pública para o Exército, aqui na figura de Braga Netto, Comandante Militar do Leste, esquentou o debate sobre as medidas adotadas pelo Estado para cessar a violência causada pelo tráfico de drogas.

“A Polícia Federal estima que aproximadamente 80% da violência urbana esteja ligada direta ou indiretamente à questão da droga”, afirmou o general Villas Bôas, comandante do Exército, em entrevista ao jornalista Roberto D’Ávilla na Globo News.

À frente do Exército desde 2015, Villas Bôas apontou o crime organizado como uma das maiores ameaças à soberania nacional e colocou o tráfico de drogas como base de sustentação da violência, com números dignos de uma guerra diária.

Comandante do Exército defende discussão sobre legalização das drogas

“A questão do crime organizado, e tendo a droga como pano de fundo, como base para o que está acontecendo, tanto do ponto de vista da deterioração de valores – uma verdadeira metástese silenciosa que está corroendo a nossa juventude – , quanto como causador da violência”, ressaltou.

Falando em juventude, é justamente esta camada social a mais atingida no que ficou conhecido como guerra às drogas. Segundo dados do Atlas da Violência, levantados em parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 30 mil jovens entre 15 e 24 anos morrem anualmente no Brasil vítimas de homicídios.

Ao realizar um recorte ainda mais profundo, constata-se que em um universo onde uma grande parcela da juventude tem cerceado o seu direito de viver, os jovens negros são os mais afetados.

Os números não mentem e os apresentados pelo Atlas da Violência, que mapeou casos de homicídio no Brasil entre os anos de 2005 e 2015, demonstram que a população negra corresponde a maioria, cerca de 78% dos indivíduos com maior probabilidade de serem mortos.

Para se ter ideia, atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Ou seja, os negros possuem 23,5% mais chances de serem mortos em comparação com brasileiros de outras raças.

Os números colocam um grande ponto de interrogação sobre a efetividade do combate armado como forma mais efetiva acabar com esta disparidade. Para o general Villas Bôas, é fundamental que haja uma abordagem mais efetiva das forças de segurança contra o crime organizado “transnacional”.

“A integração no combate ao crime organizado é fundamental. Porque o crime se transnacionalizou. E nós temos as nossas estruturas contidas nos espaços dos estados da federação. Nós temos que ir além, tem que haver uma integração no âmbito nacional, não só a integração geográfica, mas integração dos setores de atuação, como também tem que haver uma integração internacional também”.

Questionado sobre sua posição em relação ao debate de legalização das drogas, Villas Bôas foi enfático em admitir a urgência de colocar o assunto na agenda, afirmando que a situação atual não será resolvida com soluções “simplistas”.

“Isso tem que ser tratado de forma científica, com abordagem bastante ampla, porque são vários os aspectos a serem contemplados. Tem o aspecto da segurança, mas sobretudo tem o aspecto, a questão da educação, a questão da saúde, a prevenção, enfim, várias questões”, pontuou.

Intervenção Federal: efetiva ou paliativa?

Em andamento há pouco mais de um mês, a Intervenção Federal vem sendo criticada por muitos especialistas em segurança pública, que não enxergam a presença do Exército com otimismo.

Para representantes dos direitos humanos, a Intervenção Federal aprovada pelo governo de Michel Temer é mais uma medida pouco eficaz e que vai vitimar o lado mais vulnerável da sociedade.

“Boa parte desses homicídios ocorre por conta de operações policiais mal planejadas, sobretudo em favelas. Infelizmente, as ações da polícia não são baseadas em prevenção e inteligência. Segundo estatísticas oficiais, entre janeiro e novembro do ano passado, policiais em serviço mataram 1.035 pessoas no estado do Rio. E isso levando em consideração que os registros policiais são bastante precários e imprecisos”, declarou ao portal G1diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck.

Diretora-executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck não vê efetividade na Intervenção Federal no Rio

Para o Comandante do Exército, este tipo de ação exige tempo para surtir efeito. Villas Bôas justifica que a violência no Rio de Janeiro perdura há décadas, o que acabou resultando no aumento da desigualdade social.

“Isso tudo vai se represando e transborda sob forma de violência. Então é um problema com raízes muito profundas”.

Todavia, o general salientou mais uma vez que o emprego de homens das Forças Armadas na segurança pública precisa ser uma medida com prazo de validade para que os efeitos sejam garantidos.

Fato é que a violência no Brasil e no Rio de Janeiro segue crescendo. Recentemente a cidade maravilhosa registrou, entre tantos assassinatos, um caso emblemático, a execução a tiros da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, no centro do Rio. Especula-se que os dois tenham sido mortos por membros da milícia carioca, mas até o momento as investigações ainda não foram concluídas.  

O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes gerou diversos protestos pelo mundo

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Fotos: foto 1: Wikipédia/foto 2: Reprodução/Anistia Internacional/ foto 3: Mídia Ninja


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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