Debate

‘Por décadas nossas coberturas foram racistas’: a mea culpa histórica da National Geographic

por: Kauê Vieira

Em sua edição do mês de abril, a revista National Geographic reconheceu que durante décadas propagou pensamentos racistas e discriminatórios em suas reportagens.

Exclusivamente dedicada para a discussão das questões raciais, cada vez mais urgente nos quatro cantos do mundo, a publicação analisou o comportamento do grupo editorial desde sua fundação, em 1888.

Tomando boa parte do novo exemplar o debate se inicia logo na capa, apresentando duas gêmeas birraciais, uma com características negras e a outra com traços mais próximos de pessoas brancas, sob o título Black and White (Preto e Branco).

Nat Geo amite olhar racista durante décadas. Na fotografia, Winnie Mandela

Intitulado For Decades Our Coverage Was Racist (Por Décadas Nossa Cobertura Foi Racista), o editorial foi assinado pela editora-chefe da National Geographic, Susan Goldberg, que com o auxílio do acadêmico da Universidade da Virgínia John Edwin Mason, especializado em história da fotografia africana, pinçou exemplos de um olhar etnocêntrico branco e repleto de clichês.

“Até os anos 1970 basicamente ignoramos pessoas de cor que viviam nos Estados Unidos, raramente identificando-as como algo além de trabalhadores ou empregados domésticos,” diz Susan.

Durante o levantamento Mason encontrou inúmeros exemplos com características de menosprezo racial, como o hábito de retratar homens brancos portando novidades tecnológicas diante de curiosos nativos de outros países.

Em um período como o da segregação racial nos Estados Unidos, a prática reforçava entre os leitores uma clara sensação de superioridade dos brancos diante de negros e indígenas, por exemplo.

A National Geographic reconheceu práticas etnocentristas

Os aborígenes australianos também foram vítimas de conceitos racistas, tendo sido definidos em uma matéria de 1916 como pessoas com “o menor grau de inteligência de todos os seres humanos.”

“Raça não é uma construção biológica, como explica nesta edição Elizabeth Kolbert, mas sim uma construção social que pode ter efeitos devastadores.  Muitos dos horrores dos séculos que passaram estão associados com a ideia de que uma raça é inferior a outra,” escreve a editora-chefe da National Geographic.

Para o professor John Edwin Mason, a National Geographic durante décadas não mostrou nenhum interesse em abrir espaço para uma visão mais rica e que respeitasse a diversidade racial, ao contrário por exemplo da concorrente Life.

Edwin Mason disse que os americanos “tinham sua ideia de mundo formada a partir de filmes do Tarzan.”

Mason completa afirmando que a Nat Geo reforçou mensagens com clichês discriminatórios em um país que “tinha sua ideia de mundo formada a partir de filmes do Tarzan.”

A mudança de postura ganhou ainda mais fôlego com a chegada do século 21 e a intensificação das exigências da comunidade negra de ser protagonista de sua própria história. O fato é ilustrado por uma matéria feita em 2015 sobre o Haiti. Na oportunidade, jovens haitianos receberam câmeras para que pudessem documentar sua realidade.

“As imagens feitas pelos haitianos são muito importantes e seriam impensáveis no passado,” salienta Mason.

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Fotos: Reprodução/National Geographic


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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