Matéria Especial Hypeness

A nobreza e a elegância de uma rainha na vida e na obra de Dona Ivone Lara

por: Vitor Paiva

O samba não tem dono, mas como todo império que se preze, o samba tem uma rainha – e é determinante que o tempo verbal de tal frase permaneça no presente, pois enquanto rainha, Dona Ivone Lara vive e sempre viverá, para além da vida que se encerrou ontem, aos 97 anos de idade. Uma rainha negra, que sustentou seu trono como uma espécie de guardiã da nobreza, da elegância e da excelência que fizeram do samba uma das joias maiores da coroa musical brasileira.

O pioneirismo e a coragem naturalmente se tornam forças inerentes e essenciais quando se é uma mulher negra no Brasil, e Dona Ivone Lara foi exceção e regra dentro do samba enquanto tal. Nascida de uma família musical por excelência, tornou-se em 1965 a primeira mulher a assinar um samba enredo e fazer parte da ala de compositores de uma escola, em sua agremiação de coração, o Império Serrano, com Os Cinco Bailes da História do Rio.

Ao não se deixar curvar diante das circunstâncias que relegariam a uma posição inferior uma mulher negra, expôs também um paradoxo essencial e fundador dentro do samba. Pois sua nobreza foi também herança de outras mulheres que participaram ativamente da fundação do samba, em especial as “Tias baianas”, como Tia Ciata, que veio da Bahia trazendo o samba de roda do recôncavo para fundar o samba carioca em sua casa. A Ala das Baianas das escolas de samba é uma homenagem a essas mulheres – e, não por acaso, Dona Ivone Lara foi por décadas presença certa nessa ala dentro da Império Serrano. O samba também é feminino e negro desde sua fundação, e a herança dessa nobreza foi iluminada e elevada por Dona Ivone Lara em toda sua vida.

Dona Ivone Lara na Ala das Baianas da Império, na década de 1970

Tendo sido criada pelos tios depois da morte dos pais (de quem recebeu as primeiras influências musicais e lições no samba) aprendeu com eles a tocar cavaquinho e com Lucília Guimarães, mulher do maestro Villa-Lobos, teve aulas de canto. Ainda jovem casou-se com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da escola Prazer da Serrinha – da onde o Império Serrano viria a nascer, em dissidência. Até 1977, no entanto, Dona Ivone Lara dividiu seu tempo de samba com a enfermagem e o serviço social, áreas em que se formou (com especialização em terapia ocupacional). Antes de se aposentar, no entanto, trabalhou em hospitais psiquiátricos, onde trabalhou com nomes como a grande Dra. Nise da Silveira.

A enfermeira Ivone Lara entre médicos no hospital do Engenho de Dentro, onde também trabalhou como assistente social

Sua idade revelou-se incerta: os dados oficiais afirmam que a dama do samba teria falecido aos 97 anos, mas o colunista Mauro Ferreira afirma em artigo que ela teria em verdade 96 anos, pois sua mãe teria aumentado em um ano a idade da filha para que ela pudesse ingressar, em 1932, em um colégio interno. Seja como for, Dona Ivone Lara viveu a afirmação de uma mulher dentro de uma escola como compositora de forma discreta e silenciosa, mas não é nenhum exagero afirmar que sua trajetória abriu caminho para o surgimento e a afirmação de nomes como Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione e tantas outras que se tornariam não só ícones dentro do estilo, como também alcançariam imenso sucesso popular e comercial.

O Olimpo do samba: Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Cartola e Dona Ivone Lara

A elegância de seu canto e de sua escrita também se traduziria, porém, em sucesso, trazendo outra feliz exceção para seu caminho: canções como “Sonho Meu”, “Alguém me avisou”, “Acreditar”, “Sorriso Negro” e “Nasci para Sofrer” – que se tornaria hino da Império Serrano – a fizeram não só conquistar o público e o sucesso como compositora, como também poder ser justamente celebrada ainda em vida – feito lamentavelmente incomum. A sambista Ivone Lara se tornou Dona como um exato sinal de respeito e admiração de seus pares dentro do samba e da música popular.

“Alguém me avisou” (com Martinho da Vila):

“Acreditar” (com Beth Carvalho):

Quando se aposentou como enfermeira, já aos 56 (ou 55) anos, Dona Ivone Lara passou a se dedicar integralmente à música. Foi a partir de então que conquistou seu lugar no olimpo do estilo, tendo suas composições gravadas por nomes como Maria Bethânia, Clara Nunes, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Gal Costa e tantos outros.

Entre Maria Bethânia e Gal Costa

Ainda que tenha tido uma carreira fonográfica com longos intervalos – as gravadoras, as rádios e a indústria como um todo tradicionalmente não costuma oferecer o devido valor às nossas maiores artistas por aqui – ela jamais deixou de reinar nos palcos e rodas do Brasil, e cantou a nobreza do samba e sua própria até o fim da vida – Dona Ivone Lara foi tema do desfile da sua Império Serrano no grupo de acesso.

Em 2012, quando foi homenageada por sua escola de coração e formação

Se hoje ser mulher e negra é ainda – e vergonhosamente – a certeza de uma vida em luta, entender que uma artista como Dona Ivone Lara nasceu somente pouco mais de três décadas após o tardio fim da escravidão no Brasil é uma maneira de colocar em perspectiva sua vida, e um de seus mais famosos versos: “alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho” pode ser visto como a elegância e a discrição que lhe eram peculiar. Mas também é o emblema da resiliência e da força que lhe permitiram, em vida, se tornar um dos grandes nomes da música brasileira – uma voz feminina e negra que jamais se furtou a celebrar quem era, de onde vinha e o estilo que lhe coroou e que ela ajudou a coroar como possivelmente o mais importante elemento da rica música brasileira.

Acima, uma mulher entre homens; abaixo, na década de 1970 

A música popular é sem dúvida a expressão cultural brasileira por essência e excelência, e são artistas como Dona Ivone Lara que elevam um produto cultural à condição de uma parte definidora do próprio entendimento da identidade brasileira e do Brasil como país.

“Sonho Meu” (com Clementina de Jesus):

Pois se há algo de verdadeiramente nobre no Brasil é mesmo seu povo, sua cultura e seus compositores populares. Dona Ivone Lara foi uma artista que contrariou com elegância e nobreza tudo que poderia parecer desenhado como um único destino que deveria cumprir, para se tornar uma dessas raras artistas que oferecem tanto sua obra quanto sua vida para servirem como um compasso – um norte para que o próprio país possa melhorar ao ponto de um dia merecer Dona Ivone Lara.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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