Debate

Ativista criou nova identidade para se infiltrar em grupos racistas

Kauê Vieira - 05/04/2018 às 16:14 | Atualizada em 06/04/2018 às 16:15

As tensões raciais vem ganhando contornos agressivos nos Estados Unidos. A morte de jovens negros vítimas da violência policial, um atentado a bomba contra igreja frequentada por famílias negras foram alguns dos pontos de partida para um levante 50 anos após a morte de Martin Luther King Jr.

Com a intensificação de movimentos exigindo o fim da violência racial contra a comunidade negra, cresceram também as reações de setores conservadores da sociedade. O momento mais latente diz respeito a um protesto da extrema-direita, que acabou causando a morte de uma pessoa.

A comunidade negra está nas ruas exigindo o fim da discriminação

A passeata aconteceu em Charlottesville, na Virgínia e reuniu centenas de pessoas, entre homens e mulheres, carregando tochas, fazendo saudações nazistas enquanto gritavam palavras de ordem contra negros, imigrantes, homossexuais e judeus. O motivo da revolta? A retirada de uma estátua do general confederado Robert E. Lee.

Simbolizados por uma bandeira nas cores vermelha, azul e branca, os chamados Estados Confederados, representam a reunião de estados do sul do país, que durante a Guerra Civil entre os anos de 1861 e 1865, usaram a busca pela independência para impedir a abolição da escravidão.

Charlottesville, na Virgínia foi palco de manifestações de supremacistas brancos e nazistas

Porém, com o avanço de discussões sobre questões raciais no país, especialmente por parte dos negros norte-americanos, várias cidades decidiram retirar as tais homenagens aos militares confederados, o que está gerando fúria de uma parcela de brancos.

Agora, como funcionam os grupos disseminadores do ódio racial? Que bases sustentam estas representações por tanto tempo? Para responder as perguntas, o jovem Patrik Hermansson criou uma identidade falsa para se infiltrar em grupos racistas dos Estados Unidos e Europa.

Nos EUA, o jovem se juntou aos representantes de um grupo de extrema-direita chamado de Alt-right, que estavam protestando contra a retirada da estátua de Robert Lee, como já foi citado acima.

Estimulados pelo discurso nacionalista do presidente Donald Trump, estes setores segundo Patrik, costumam marcar as reuniões pela internet. Durante o tempo de infiltração, o jovem pode constatar que os membros são pessoas nacionalistas, obcecados pela raça, além de comprometidos e simpatizantes de Trump.

Sobre o processo de filiação, o ativista disse ao site da BBC que tudo é bastante simples. Basta criar uma identidade nova e pronto, é só alinhar o discurso com a maioria.

“Você começa criando uma identidade nova, baseada no que você acredita que eles irão gostar e no que eles têm interesse em atrair para a organização. Depois, você se aproxima de outro cara interessado na extrema direita pela internet e pronto”.

A partir da disseminação das redes sociais, foram criados centenas de grupos, secretos ou não, reunindo pessoas com visões conservadoras e preconceituosas. Recentemente o tablóide britânico The Guardian publicou uma matéria especial sobre o perfil de pessoas racistas. À época o objetivo era pensar a influência destas pessoas na internet.

Patrik Hermansson se disse enjoado com os racistas

A repetição do chamado discurso de ódio está dando trabalho para as gigantes da social media, que cobradas por defensores de direitos humanos e por boa parte da sociedade civil, exitam em banir ou não estas figuras.

Para atenuar as críticas e manter distante os propagadores do racismo, o Twitter baniu o ex-líder do English Defence League, um grupo de extrema-direita da Inglaterra. Tommy Robinson teve sua conta encerrada na rede social por incentivar o ódio aos muçulmanos.

Toda a efervescência da internet foi percebida por Patrik Hermansson, que resolveu passar por estudante intercâmbio na capital britânica para frequentar os grupos. O jovem queria construir um perfil mais acadêmico.

Entre os grupos que fez parte, se deparou com muitos neonazistas, admiradores do fascismo dos ano 1930 e 1940 e outros que idolatravam o suecos, considerados “uma versão não corrompida da raça ariana.”

“Eles achavam que o povo escandinavo era o de raça mais pura. Claro que isso é um mito, mas eles me diziam: vocês são da raça original”, reportou o jovem que tem origem sueca.

Afirmando nunca ter sentido tanto nojo em sua vida, Patrik encerrou a experiência e relatou tudo em texto publicado no New York Times e como previsto, foi criticado com violência pelos supremacistas e radicais que confiaram nele.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Hope Not Hate/foto 2: Andy Campbell/Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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